Em outros momentos neste site, mostramos que há uma certa disputa bipolar na cidade — dois eixos de disputa: um mais antigo "municipalista" ("miltismo" vs. "oposição ao miltismo") — e outro, um nacional (Bolsonarismo vs. Petismo, com fortes traços assimétricos pendentes ao Bolsonarismo).
Os dois eixos e o momento em que começaram a influenciar a disputa eleitoral
A criação desses eixos se deu, a meu ver, a partir de dois movimentos. Convido os senhores a ler todo o conteúdo político (ou especialmente os mais históricos) para observar essa transformação.
Neste primeiro eixo, desde 2004 ocorreu, a meu ver, um realinhamento. O que se tinha na política antes relembrava o eixo MDB x ARENA redivivo (explico melhor essa tese, talvez em outro momento, não é o tópico agora), e a partir de 2004 é que se consolida o eixo Miltismo x Oposição (à época petista, refletindo um pouco, mas não muito a dimensão nacional), e esse foi o eixo dominante nos pleitos de 2004 até 2016 (com vantagem do miltismo, com 4 em 5 vitórias; o outro lado só obteve uma vitória em 2012, mas aí somente quando se uniram todos — MDB e PT — e teve ainda a enchente).
No entanto, um espectro rondava no ar: o "bolsonarismo" destruiu qualquer possibilidade de aliança à esquerda e enfraqueceu de forma robusta o lado miltista. Com o tempo, ele criou o outro eixo, o nacional — mas esse era ainda mais assimétrico; a cidade verteu à direita. No entanto, a oferta política no pleito de 2020 não soube ler ou ofertar apenas uma opção para esse público sedento pela direita, e houve um pleito disputado; o que ainda restava do lado miltista foi suficiente para a vitória de 2020*.
*No texto, a expressão “oferta política” está sendo usada num sentido bem específico: ela se refere ao conjunto de candidatos, discursos, posicionamentos e estratégias que os partidos colocam à disposição do eleitor em uma eleição. Ou seja, é o “cardápio” de opções que o eleitor encontra quando vai votar. Quando se diz que “a oferta política não soube ler” o eleitorado, a ideia é que os partidos e candidatos não conseguiram interpretar corretamente a demanda existente na sociedade — no caso descrito, uma demanda crescente por posições à direita. Em vez de organizar essa preferência em uma candidatura clara e unificada, houve fragmentação: várias candidaturas tentando ocupar o mesmo espaço, competindo entre si.
No entanto, em 2024, o bolsonarismo pouco perdeu força (perdeu um pouquinho, mas bem pouquinho) na cidade, e a oferta agora tinha um candidato com apoio oficial do bolsonarismo; isso foi suficiente para vencer e colapsar (ou ao menos restringir) a antiga disputa. O resultado exprime isso:
O candidato bolsonarista (PL) obteve quase metade dos votos.
O candidato miltista (PSD) recebeu uma votação muito aquém de seu histórico.
O mesmo com o principal candidato antimiltista do pleito anterior (UNIÃO);
e o candidato petista (PSB), que recebeu o esperado quinhão mínimo destinado a quem não defende fortemente uma política nacional à direita (ou não ataca a esquerda, que dá quase na mesma).
Por isso, em fevereiro de 2023, eu postei um texto aqui chamado "Bolsonarismo continua um pé no sapato da política tradicional", onde eu mostrava que o principal motivo da não eleição de um representante regional para Rio do Sul é o voto nacional no 22 — e mostrei isso com o gráfico, o qual repito aqui:
Tendo em mãos a distribuição dos votos na cidade por seção eleitoral, é possível vislumbrar se a distribuição é semelhante entre os votos em diferentes pleitos. Cada ponto no gráfico é uma seção eleitoral — apenas aquelas que existiam tanto em 2020 quanto em 2022.
“PL”, ali, reflete os votos nos candidatos a deputado do PL, partido de Bolsonaro à época. Os pontos indicam como as distribuições são parecidas ou distantes. Pasqualni, Gerri e Zanella eram os principais candidatos à deputado pela cidade, nenhum deles associado ao PL.
A técnica é biplot, obtida por PCA; para mais detalhes da técnica, me procure
Vou repetir alguns trechos que escrevi lá:
"Utilizando de técnicas de redução de dados (Análise dos componentes principais) é possível criar um cenário de comparação em dois eixos".
"Pedimos ao software que encontra-se a melhor combinação possível para as 4 distribuições e ele sugere dois eixos. O primeiro eixo RC1 é o da política local e separa as seções (pontos pretos) em mais pró Gerri ou pró Pasqualini/Zanella. O segundo eixo RC2 é o eixo NACIONAL, perceba como a maior parte dos pontos pretos está mais próxima da distribuição dos votos no PL.
Em Suma, a localização dos nomes indica duas coisas principais:
Zanella e Pasqualini se "atrapalham". Ocupam quase o mesmo espaço no gráfico, se unissem forças seriam possivelmente mais fortes.
Tanto a "dupla" acima citada como o candidato miltista não conseguem ocupar o espaço do 22. Isso fica claro aqui. Portanto, o voto bolsonarista segue sendo uma pedra no sapato dos políticos tradicionais. "
Dados novos , mostram que Manoel do PL foi quem mais se aproximou da distribuição de votos Bolsonarista.O gráfico mostra distribuição comparada entre 2024 e 2022.
Fonte> Elaboração Própria com bases nos dados do TSE. Tendo em mãos a distribuição dos votos na cidade por seção eleitoral, é possível vislumbrar se a distribuição é semelhante entre os votos em diferentes pleitos. Cada ponto no gráfico é uma seção eleitoral — apenas aquelas que existiam tanto em 2024 quanto em 2022. A técnica é biplot, obtida por PCA; para mais detalhes da técnica, me procure
A seguir misturo três eleições: 2020, 2022 (para presidentes com os votos nos dois candidatos mais votados) e 2024.
Fonte: idem imagem anterior
O vencedor Manoel é o que mais se aproxima de Bolsonaro e, além disso, foi o que mais se beneficiou da queda de Pasqualini, pois sua votação pegou muito do voto de Pasqualini em 2020.
Isso não é apenas impressão. Quando olhamos os dados por seção eleitoral e comparamos onde Pasqualini perdeu mais votos com onde Manoel foi melhor, aparece uma correlação positiva relativamente forte (r = 0,56). Em termos simples: nas seções onde Pasqualini mais caiu, Manoel foi justamente onde mais cresceu.
Para quem não está acostumado com esse tipo de medida, a correlação vai de -1 a 1. Quanto mais perto de 1, mais as duas coisas “andam juntas”. Aqui, o valor é alto e estatisticamente muito significativo (p praticamente zero), o que indica que esse padrão dificilmente é aleatório.
Já no caso do miltismo, o movimento existe, mas é bem mais fraco. A correlação entre a queda do campo miltista e o desempenho de Manoel é de apenas 0,17, com significância marginal. Ou seja, até houve alguma migração, mas longe de ser o principal motor da vitória.
Por outro lado, quando olhamos a relação direta com o voto bolsonarista, o padrão reaparece com força. A correlação entre o voto em Bolsonaro em 2022 e o voto em Manoel em 2024 é de 0,55 — praticamente do mesmo tamanho da observada com a queda de Pasqualini. Em termos substantivos, isso indica que Manoel conseguiu capturar de forma bastante eficiente esse eleitorado.
Isso ajuda a entender melhor o que aconteceu. A queda de Pasqualini não se deu no vazio: ela ocorreu porque, desta vez, ofertou-se de forma mais clara e organizada um candidato reconhecidamente bolsonarista, inclusive filiado ao partido de Bolsonaro. Diferente de 2020, quando esse espaço estava mais fragmentado, em 2024 houve uma canalização mais direta desse voto.
O modelo de regressão reforça esse ponto. A cada ponto de queda de Pasqualini, Manoel cresce, em média, 0,64 pontos — um efeito grande e altamente significativo. Sozinha, essa variável já explica cerca de 31% da variação do voto de Manoel entre as seções, o que é bastante coisa para dados eleitorais.
Em suma, há uma dupla explicação para a vitória acachapante de Manoel: de um lado, a captura direta do eleitorado bolsonarista; de outro, a absorção de uma parte relevante do antigo voto de Pasqualini, que ficou sem uma oferta competitiva equivalente. O que não ocorreu com a mesma intensidade no campo miltista, que já vinha reduzido e, por isso, teve menor capacidade de transferir votos.