por Gregório Unbehaun Leal da Silva, doutorando em Ciência Política
em 14 de Julho de 2021
O fenômeno do bolsonarismo vai muito além da eleição presidencial. Vários políticos novatos chegaram ao poder e obtiveram votos às custas de políticos tradicionais. O caso do deputado Milton Hobus é mais um dos que foi surpreendido por esse "tsunami eleitoral".
A hipótese aqui defendida é a de que a Onda Bolsonaro teve efeito em reduzir a força política de Milton Hobus em Rio do Sul, Santa Catarina. Esse fato não é desconhecido para quem acompanha a política local cotidianamente. A novidade, aqui representada, é a demonstração dessa relação com base em dados oficiais disponíveis das eleições.
Esse texto foi escrito primeiramente no software de uso livre R, com intuito de utilizar os meus aprendizados recentes da ferramenta. Não existe intenção de publicação em revistas acadêmicas. É muito mais uma reflexão, que aproveita o aprendizado recente.
Tampouco é um estudo que se debruça sobre todas as causalidades que envolvem a decisão de voto para deputado estadual e prefeito. A busca é pela resposta, dentro do possível, para a seguinte pergunta:
a onda bolsonarista, em Rio do Sul, coincidiu com a redução do voto em Milton Hobus?
Trata-se de uma análise descritiva simples e sem uso de técnicas mais aprofundadas, algo que poderia vir a ser feito futuramente, se um dia houver tempo e dados disponíveis além dos eleitorais.
Político de centro-direita, Milton Hobus - atualmente no PSD - foi prefeito bem avaliado por dois mandatos na cidade. É conhecido e bem-sucedido empresário na região do Alto Vale do Itajaí. Após a atuação como prefeito, foi secretário estadual de Defesa Civil e eleito duas vezes como deputado estadual, em 2014 e 2018, sendo o mais votado na cidade em ambas as ocasiões.
No entanto, como veremos, Milton teve reduzida votação em 2018. A suspeita é de que a redução significativa tem como causa a “onda Bolsonaro”.
Em Rio do Sul, Jair Bolsonaro teve mais de 80% dos votos válidos no segundo turno. Segundo FUKS et al. (2021), o voto em Bolsonaro esteve associado ao antipartidarismo e afetou de algum modo outros partidos tradicionais, não somente o Partidos dos Trabalhadores (PT), seu principal rival no pleito presidencial.
No que se segue, analisaremos a votação em Milton na cidade de Rio do Sul, capital da microrregião do Alto Vale do Itajaí, sua cidade natal. O padrão de votos para prefeitura e presidência em Rio do Sul também será analisado.
Veja, na tabela 1, que mais de 21 mil votos dos votos em Rio do Sul para deputado estadual - cerca de 62% do total - no pleito de 2014, foram para Milton Hobus. No pleito municipal de 2016, Milton apoiou José Thomé como candidato a prefeito de Rio do Sul. Este recebeu boa votação e se elegeu, mostrando a força do “miltismo”, termo que utilizarei para me referir à importância política de Milton Hobus em Rio do Sul.
Já em 2018, a situação é bem diferente. Hobus obteve 36,75 % dos votos totais, cerca de 10.700 votos. Aproximadamente 11 mil a menos do que em 2014, só em Rio do Sul.
Chama a atenção também a queda na votação para o principal candidato petista (Jailson Lima, em 2014, e Jean de Liz, em 2018), bem como o aumento de candidaturas de moradores de Rio do Sul: Vieira, Goetten, Kika e Sandra Parma.
Mas esses fatos, por si só, não explicam tão elevada queda de votação. Como se verá a seguir, é o "bolsonarismo" a força eleitoral que explica essa mudança de padrões.
No que se segue, veremos a votação por partido para deputado estadual, em Rio do Sul, nos dois pleitos em análise.
A simples comparação das tabelas 1 e 3, mostra que Milton recebeu cerca de 21 mil dos 22 mil votos do partido dele em 2014. Já a tabela 4, apresenta a votação por partido para deputado estadual, em Rio do Sul, em 2018.
O mais interessante para a análise proposta aqui é observar que a queda de votos no PSD também aconteceu.
É digno de nota o crescimento do PSL em Rio do Sul. O partido, ainda pouco organizado na cidade, recebeu 1.610 votos (5,52 %) e já apareceu entre os 10 mais votados. PSL, para quem por acaso não lembre, era o partido de Jair Bolsonaro na eleição de 2018.
Outro fato marcante é a queda dos partidos de esquerda na cidade (PT e PSOL), condizente com a expectativa acima apontada em Fuks et al. (2021).
Em resumo: se até o "miltismo" sofreu impacto com a chegada do bolsonarismo, o que se dirá acerca dos partidos de esquerda? Ainda mais em uma cidade onde Bolsonaro obteve mais de 80% dos votos?
O crescimento de PR, PMN, PP e DEM, provavelmente, também tem relação com votos “roubados” de Milton na comparação de 2014 para 2018. Esses partidos todos são comumente classificados como de direita e têm deputados que apoiam Jair Bolsonaro.
A seguir, dois gráficos unificados na imagem 1 facilitam o entendimento desta dinâmica de votação. Há um gráfico para cada pleito, o que possibilita comparar os desempenhos de PR, PMN, PP, DEM, PSL, PT e MDB (estes dois últimos os maiores partidos em votação no Brasil), com o partido de Milton.
É evidente o forte domínio do partido de Milton Hobus, em 2014. Já em 2018, enquanto caem de forma significativa os votos no PSD, cresce a preferência em outros partidos "menores", considerados de direita.
Quando observadas as diferenças de votação, por tipologia dos partidos (em 3 tipos: tradicionais, miltista e direita não-miltista) é ainda mais fácil a visualização do fenômeno bolsonarista.
Para observar esse fato, basta comparar os gráficos que compõem a imagem 2, a seguir:
Houve notável crescimento de votos para candidatos de DEM, PMN, PP, PR e PSL e queda nos votos no partido de Milton. O PT e o MDB tiveram suas votações reduzidas, mas não “roubando votos” de Hobus.
A hipótese necessita de mais dados para se confirmar, mas esses são bons indicativos de onde foram parar os mais de 10 mil votos que Milton perdeu desde 2014.
É importante que se diga que a queda de Milton se deu em todo o estado de Santa Catarina. Sua posição entre os mais votados oscilou de quarto colocado, em 2014, para vigésimo-primeiro, em 2018. Hobus recebeu, em todo o estado, 66.271 votos, em 2014, e 36.821 votos, em 2018.
Como mais um elemento da força do bolsonarismo na cidade, basta comparar as votações para presidente em 2014 e 2018.
Rio do Sul fica no estado de maior votação de Bolsonaro. O estado que mais apostou no governo de Jair Bolsonaro teve como cidade mais fiel ao futuro presidente o município de Rio Fortuna, que registrou 89,63% da preferência para o candidato do PSL. Rio do Sul não ficou muito atrás:
A expressiva votação de Jair Bolsonaro em 2018, com quase 83%, suplantou a votação de Aécio Neves em 2014:
A queda da votação do candidato petista entre os dois pleitos, quase 10% a menos, é sintoma já observado acima, na votação do PT para deputado estadual. Para presidente, a queda do petismo na cidade também se mostrou consolidada. Abaixo, uma comparação gráfica entre 2014 e 2018:
O PT teve um prefeito em Rio do Sul, entre 2000 e 2004 (Jailson de Lima), e nem assim, o partido obteve maioria dos votos no segundo turno. Aquilo que se convencionou chamar de direita (ou antipetismo) vem obtendo ótimos resultados, desde 2006.
Convém citar que esse período combina com a ascensão de Hobus. Eleito prefeito em 2004, por menos de 200 votos contra Jailson, obteve vitória acachapante em 2008. A tendência tem sido de derrotas cada vez maiores do PT na cidade. Por outro lado, a "novidade" parece ser o bolsonarismo.
A primeira derrota de Milton Hobus, na cidade, ocorreu na eleição municipal de 2012, quando uma aliança entre MDB e PT foi suficiente para derrotar Jorge Teixeira, apoiado por Milton. No entanto, um candidato apoiado por Milton voltou a vencer os 2 últimos pleitos municipais, mesmo diante do crescimento do "direita não-miltista" na cidade. A conclusão que se segue faz um aparte sobre o último desses pleitos, o de 2020.
Minha análise, cerca de 45 dias antes da votação, está no link:
https://www.instagram.com/p/CFSQXQODSQM/
Um fato marcante é que Thomé, com apoio de Milton, obteve a reeleição. Mesmo assim, com votação bem menos ampla que em 2016.
Como Milton conseguiu ajudar a eleger Thomé, mesmo diante da onda bolsonarista?
O principal motivo, a meu ver, é que candidatos com discurso mais “bolsonarista/lava-jatista” tenham se dividido em três (Jaime Pasqualini, Dionísio Tonet e Clóvis Hoffman).
Somam-se a isso as denúncias de corrupção acerca do primeiro mandato de Thomé. É muito provável que uma candidatura “bolsonarista/lavajatista” única tivesse obtido a vitória (outra análise minha, nesse sentido: Modelo Eleitoral Australiano em Rio do Sul? )
Quando se menciona discurso “bolsonarista/lavajatista”, o objetivo é apontar elementos que estiveram mais fortemente presentes no discurso dos três candidatos supracitados (sei disso, porque assisti a todos os debates eleitorais realizados à época) como: “preservação da família tradicional”, “anticorrupção”, “vice sem salário”, “o passado petista da vice de Thomé”, entre outros. Thomé, por sua vez, abordava mais aspectos do plano de governo e feitos da primeira gestão.
Outro provável fator para um não alinhamento das forças “bolsonarista/lavajatista” é a nova legislação das coligações, iniciada em 2020. Isso levou, de forma geral, os partidos a terem mais candidaturas para cargos executivos (ver reportagem nas referências abaixo).
O gráfico e a tabela apresentados abaixo são uma demonstração cabal da similitude entre o fenômeno bolsonarista, nos dois pleitos de 2018 e 2020.
Obs : atualizamos os achados da tabela acima em 2023- clique aqui para ler
A votação de Jean de Liz (PDT) em 2020, candidato mais à esquerda, é muito parecida com a de Haddad (PT) em 2018. Esse é um fator que aponta para certa continuidade entre os pleitos de 2018 e 2020 na cidade.
Houve uma elevação na votação branco/nulo. Houve também aumento no não comparecimento (não reportado neste artigo) de 2020, em comparação a 2018 . Suspeita-se que esse aumento deve ter se dado em virtude da pandemia de Covid-19, uma vez que foi detectado em todo o Brasil.
É possível depreender 3 divisões no eleitorado da cidade:
esquerda, minoritário, com cerca de 17% do eleitorado;
direita 'miltista', com cerca de 38%;
direita 'não-miltista', com cerca de 45%.
É provável que a vitória de Thomé seria evitada se houvesse a união das outras três chapas de direita.
Cabe, entretanto ressaltar, que não se sabe se houve ou não queda de aprovação de Jair Bolsonaro no município, dado que o pleito municipal se deu no segundo ano do mandato presidencial. Também são desconhecidas do grande público as avaliações do mandato de Thomé.
A força do bolsonarismo, entretanto, pareceu seguir forte no munícipio. Dois eventos me fazem acreditar nisso:
a notável e expressiva votação dos três candidatos que adotaram discurso mais próximo ao bolsonarismo/lava-jatismo;
a significativa votação dos partidos de direita “não miltista” para deputado estadual em Rio do Sul.
Convém lembrar que o partido rival de Thomé em 2016, o MDB, foi vice na chapa em 2020. Porém, o efeito desse fato não pôde ser investigado aqui.
Nada, entretanto, indica que não possa haver, futuramente, um realinhamento da direita na cidade. É também possível que a força do bolsonarismo reduza, assim como vem ocorrendo em todo o país.
Para ter certeza, somente com mais dados (além dos eleitorais, uma pesquisa atual da aprovação de Milton, Thomé e Bolsonaro em Rio do Sul seria o equivalente a ouro para esse curioso pesquisador que escreve).
A eleição de 2022, caso Milton se candidate novamente, será um bom teste para essa hipótese aqui apresentada. Dados o escopo e proposta deste trabalho, julgo ter apresentado bons indícios para que ao menos se suspeite de que a minha hipótese é verdadeira.
FUKS, Mario; RIBEIRO, Ednaldo; BORBA, Julian. From Antipetismo to Generalized Antipartisanship: The Impact of Rejection of Political Parties on the 2018 Vote for Bolsonaro. Bras. Political Sci. Rev., São Paulo , v. 15, n. 1, e0005, 2021 . Available from http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S198138212021000100202 &lng=en&nrm=iso. Acesso em 22 mar. 2020. Epub Dec 02, 2020.
Postagem do MEU INSTAGRAM (@gregogregogregogregogrego) em 18 de Setembro de 2020: https://www.instagram.com/p/CFSQXQODSQM/
SISTEMA AUSTRALIANO em RIO DO SUL - LINK
Reportagem sobre mudanças na lei eleitoral: https://www.cartacapital.com.br/politica/novas-regras-ameacam-asobrevivencia-de-partidos-tradicionais-em-2022/
Fonte: dados do TSE : https://www.tse.jus.br/eleicoes/estatisticas/estatisticas
The R Project for Statistical Computing: - https://www.r-project.org/