O “Fragmentos do Autor” é o lugar onde o autor deixa de ser apenas observador e se reconhece também como corpo, dor, história. Aqui, as palavras não vêm apenas da técnica, mas de uma necessidade antiga — de entender, lembrar, perdoar. São cartas que não foram enviadas, pedaços de memória que resistiram ao tempo, ou cicatrizes que se transformaram em poesia.
Este é o momento em que o autor se aproxima do próprio espelho e, em vez de evitar o reflexo, escreve sobre ele.
Não para resolvê-lo — mas para atravessá-lo.
Seja bem-vindo a esse terreno de palavras que, antes de tudo, são carne.
Aqui, o texto é um convite a atravessar o íntimo do íntimo, a caminhar por memórias que talvez nem mesmo o autor tenha ousado contar em voz alta.
4:29 AM
Você conhece o amor?
Em meio à multidão, busco um rosto familiar — algo que traga respostas que o tempo não pode me dar.
Confesso que ouvi falar de você.
Mas já nos perdemos há anos. E ainda assim, busco ao amanhecer algo que se foi ao anoitecer.
Ele invade minha mente, não se demora… e parte.
5:38 AM
Percebo que não nos perdemos aquele dia,
porque nunca nos pertencemos.
Quem seria o culpado? Você, que seguiu em frente?
Ou eu, que estive imóvel diante do tempo?
Eu olho para o mundo.
Então, ele me olha de volta.
O futuro me convida para o amanhã, pois sabe que estou me afogando no ontem.
Nossas memórias estão se ruindo dentro de mim.
Talvez seja chegada a hora…
6:07 AM
Como uma criança que chora por sua mãe, assim será.
Como a lua, que carrega a escuridão sobre suas costas, assim será.
Agora tudo começa a se fragmentar.
Seremos memória em meio a tantas outras.
Quando nossos caminhos se cruzarem novamente,
seremos poeira em um tempo que já foi nosso.
Como uma criança que aprende a andar, assim será.
Como o sol que rompe a noite, assim será.
Surge como uma dúvida.
Se vai como uma solução.
Estaremos no amanhã,
porque ontem já não nos pertence.
Você conhece o amor?
Se sim, diga que já não estou onde ele me deixou.
6:29 AM
Dois caminhos de um mesmo ser
— Querido diário, acho que me perdi.
— Por que acha isso?
— Eu costumava andar sem rumo, mas já há tempo sinto falta de algo.
— Então deduz que está perdido. Mas nas entrelinhas, o que te toca?
— Sinto um desejo. Algo que não se mascara. Ele se aproxima e se distancia na mesma medida, me deixando confuso.
— Me diga o que ele faz, de onde vem e para onde vai.
— Ele me bagunça. Vem de todos os lugares e se vai sem deixar rastros.
— Este não seria o amor?
— Tolo diário. Como podes, por mera dedução, acreditar que meu estar perdido seja apenas coisa do amor?
— Soa-me compreensivo, meu caro.
— O amor soa como um castigo quando surge das sombras. Ambos sabemos o que ele fez conosco no passado.
— Ele não é bom nem ruim. Sua natureza destrutiva é capaz de conter homens, mascarando o seu real sentido.
— Não nego, porém não busco, meu caro.
— Pobre criança, não se foge do amor. Em cada homem há um fragmento de amor. Ele não é um deus, tampouco um homem. Não passa de uma ideia que acomete a todos sem extinguir ninguém.
— Tolice, velho diário. Ele surge sem ser chamado e, cativo, se vai como um pássaro que ganha liberdade. Não me ensina, mas me pune como pródigo em sua jornada.
— Não enxergas que tudo e todos estão no caminho do amor? E para se achar é preciso se perder. E para ter é preciso deixar ir.
— Soa-me doces suas palavras, velho amigo. Mas já o conheço bem e sei que ele tem costume de se evadir ao anoitecer.
— Você tem razão.
— Tenho sim. Conheço seu jogo.
— Conhece ou acha? Nada aqui é eterno. Nem mesmo essas palavras estão livres da ira do tempo. Tampouco sua juventude ou sua própria vida.
— O que queres que eu faça?
— Deixe estar perdido. Até mesmo os pássaros precisam de um ninho.
— Sabes o que me amedronta e pedes que eu vá de encontro com o meu carrasco?
— Enfrentar o que fere se faz necessário agora.
— Caso eu falhe, não darei ao luxo de se curvar aos pés dele novamente.
— Ele pode ser sua solução, porém seu ego pode ser sua destruição. Quando decidires, não estará mais perdido. Pois eu sou a sombra que mora ao lado da razão. Sou um pedaço da memória que se faz real. Não negue o céu, pois o amor está à sua procura.