O que é tão real quanto suas cicatrizes, senão a sensação de navegar em águas turbulentas?
O processo de aceitação em uma sociedade onde a validação sempre está no olhar do próximo… Ser real deixa de ser desejo, passa a ser memória. Tudo se torna questionável.
Quando se olha atentamente, enxerga-se a busca pela aceitação externa como viés de validação. A vontade de pertencer a um grupo — ou ainda se destacar sendo o primeiro em meio à multidão — alimenta ilusões de importância e infla o ego. O resultado se assemelha a um entorpecente, que resulta em indivíduos dependentes de atenção social.
Quanto se paga por ser quem se é?
Dentro do contexto social, a mudança é benéfica, carrega consigo a inovação. Todo e qualquer que se opor às suas regras está apto a ser punido. Aos que estão em seus seios, são atribuídos os títulos de juízes. Mas, aqui, a queda é tão rápida quanto a ascensão.
O jogo aqui é invalidar uns aos outros com base em seus valores, crenças e ideias.
Quem estaria certo, se todos não estivessem errados?
O preço a ser pago é caro, mas, aqui, todos querem seu espaço ao sol. Um jogo de reflexo surge. A imagem espelhada não fala sobre o ser, mas sobre os desejos e vontades coletivas que são imprimidas, mesmo contra a vontade do indivíduo.
Seus traços são perdidos, e logo se esquece quem fora um dia. Nesta narrativa, pertencer é melhor do que ser.
Um velho paradoxo filosófico conhecido como Navio de Teseu nos leva a questionar: o quão original somos após todas as mudanças para se adequar a uma vida em sociedade? A relação entre mudança e essência é trazida para o debate. O quão longe se pode chegar para pertencer?
O questionamento surge de forma natural, te conduzindo a pensar como o olhar do próximo influencia sua vida.
Aos que usam a máscara da autenticidade, buscando fugir do social, apenas mascaram o fracasso de nunca terem sido aceitos. Se afirmar autêntico como forma de se autovalidar é como o excluído se blindar para proteger seu ego e anseios. Quem busca atalhos para se blindar ganha a solidão como companhia.
Sendo claro: todos querem pertencer, mesmo quando dizem não querer.
As mesmas águas turbulentas viram lágrimas. Envolvem a vida e perpetuam o ciclo. É tão breve… o social se renova.
O Sol não deseja ser a Lua,
tão quanto a Lua almeja ser o Sol.
Viver se torna difícil quando se esquece que suas dores são reais— e que ser único ainda está na moda…
Para aprofundamento
Algumas obras que dialogam com temas refletidos neste ensaio:
• O Medo à Liberdade – Erich Fromm
• Tornar-se Pessoa – Carl Rogers
• Modernidade Líquida – Zygmunt Bauman
• O Brincar e a Realidade – Donald Winnicott
• A Educação e o Significado da Vida – J. Krishnamurti
A próxima publicação estará disponível em 20 de setembro de 2025
Por Giovanni Genesi