Da Venezuela para o Norte do Brasil. Do Norte para o Triângulo Mineiro. De Uberlândia para Uberaba. Uma narrativa da trajetória da etnia Warao pelo território brasileiro.
“Estamos aqui no Brasil só para sobreviver, não pra viver. Para sobreviver", lamentou Carlos, enquanto olhava o horizonte, sentado em uma cadeira em uma praça, no Bairro Alfredo Freire, em Uberaba.
Carlos — nome fictício escolhido com base nos nomes mais comuns na Venezuela, pois ele não quis ser identificado — é um indígena da etnia Warao, originária da Venezuela. Junto com a família – a esposa e 4 filhos – ele buscou se refugiar da crise político-sócio-econômica enfrentada pelo país de origem.
Porém, ao contrário das expectativas iniciais, com muito pesar, ele relatou que não tem conseguido estabelecer a nova vida que tanto sonhou e enfatizou, por mais de uma vez, que não tem vivido no Brasil, apenas sobrevivido.
Esse e outros dilemas foram contados por Carlos, sua família e amigos, durante uma entrevista no bairro em que moram. Apesar de relutantes no início — provavelmente por medo de exporem a situação que estão vivendo — os Warao receberam a nossa equipe de forma calorosa.
Eles juntaram as cadeiras e as colocaram em uma roda na praça. Fizeram um convite para que nos sentássemos e, logo em seguida, questionaram o que gostaríamos de saber. Falamos que queríamos conhecê-los, saber a história deles e auxiliá-los a contar para outras pessoas o porquê de estarem no país Brasil.
Ouvindo o som do castelhano, língua falada na Venezuela, segundo Carlos, que por vezes se misturava com o português, começamos a conversa.
Inicialmente, estavam sentados na praça a equipe de reportagem, um membro da ONG (Organização Não-Governamental) Taare, Carlos e seu amigo Jorge — nome também fictício.
Ainda um pouco acanhados, começaram a contar que vinham do estado Delta Amacuro, na Venezuela, e que, antes mesmo da crise, já enfrentavam uma série de dilemas.
A discriminação sofrida pelos Warao começou quando eles chegaram ao espaço urbano, ainda na Venezuela. O governo daquele país ofereceu moradia e educação. Ainda assim, eles falaram que essa ação governamental não era vista com bons olhos por todos os venezuelanos.
Com o passar do tempo, a discriminação chegou a um ponto crítico e Carlos contou que uma lei precisou ser criada. No dia 8 de dezembro de 2005, o presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro, decretou a Lei Orgânica dos Povos e Comunidades Indígenas.
No documento, assinado na sede da Assembleia Nacional, em Caracas, ficou definido pelo artigo 107, que o Estado deve cuidar da proteção integral dos indígenas e protegê-los da discriminação de qualquer índole.
Ainda que houvesse as políticas de proteção, com a crise, a vida na Venezuela ficou insustentável. Carlos contou que a primeira vez que chegou ao Brasil foi em 2017.
Pouco a pouco, ele foi recriando os cenários dos primeiros dias no Brasil. Carlos lembrou que tinha um terreno próximo à rodoviária, onde os Warao se reuniam e passavam o dia cozinhando e brincando com as crianças.
Além deles, uma outra etnia indígena estava no local e os conflitos de interesses entre ambos acabaram por gerar discussões. “Sempre dava problema. Eu voltei para a Venezuela”, lamentou.
Enquanto relembrava o passado, outros membros da família de Carlos e Jorge foram se aproximando. Um pouco tímidos, levaram cadeiras para a praça e se juntaram à entrevista. Com eles, chegaram as crianças, que mudaram o ambiente com suas brincadeiras e risadas.
Em conjunto eles começaram a contar as cidades por onde passaram. Estiveram em Pacaraima, Manaus, Palmas, Boa Vista, Belém e Brasília. Depois, devido à superlotação dos abrigos e dos constantes conflitos, começaram a se deslocar para o interior do país. E, assim, chegaram ao Triângulo Mineiro.
O ponto de chegada foi a cidade de Uberlândia. Carlos disse que a motivação para a mudança foi a promessa de um emprego e a esperança de deixar de apenas sobreviver, para começar a viver.
“Nos falaram ‘em Uberlândia tá bom, estão ajudando as pessoas’, quando chegamos encontramos o grupo Taare. Não tinha muitos venezuelanos não-indígenas, agora tem muito. Havia 10, agora são 50. Ano passado, 150 foram para Uberlândia’, comentou.
Apesar das promessas e da esperança, o grupo constatou que foram surpreendidos negativamente, mais uma vez. Nesse momento, um pouco acanhada, uma das mulheres da roda resolveu se manifestar: "Falam mentiras. Prometem e não cumprem”, contestou a indígena.
Com a manifestação dos companheiros, Carlos aparentou ganhar confiança e com a voz firme, manifestou uma outra percepção do grupo: a aproximação de terceiros por interesse em arrecadar dinheiro usando a causa deles.
Após não conseguirem o que buscavam em Uberlândia — um trabalho e a oportunidade de construir uma nova vida — os Warao seguiram para Uberaba, onde a reportagem os encontrou. Mesmo em uma nova cidade, disseram que os dilemas seguiam os mesmos.
Em Uberaba, eles foram acolhidos pelo Projeto Ágape, uma iniciativa do pároco da igreja São Geraldo Magela, Fabiano Roberto da Silva. A reportagem procurou a Arquidiocese de Uberaba para obter mais informações sobre o projeto, mas não obteve retorno até a publicação deste texto.
Os Warao contaram que não pagam o aluguel da casa onde moram, que fica a poucos quarteirões da catedral, mas por outro lado, precisam pagar água, energia e comprar os alimentos. Para isso, é preciso dinheiro e , para conseguir o dinheiro, é preciso trabalhar – e é exatamente esse o maior desejo dos Warao.
A conversa, vez ou outra, era interrompida pela gargalhadas e brincadeiras das crianças. Em uma dessas vezes, a esposa de Carlos trouxe nos braços a bebê da família. Todos ao redor só tinham olhos para a pequena. “Ela estava dormindo ou chorando?”, perguntou um deles. “Dormindo e chorando”, respondeu a mulher.
Depois de paparicar a caçula, os Warao voltaram a falar sobre a dificuldade de conseguir um emprego. E enfatizaram que a dificuldade do processo é intensificada pela discriminação.
Notamos que a questão do trabalho era algo muito importante para eles porque, quando o tema surgia no diálogo, a timidez ficava de lado e todos queriam se manifestar.
“Dizem que não queremos trabalhar, que ficamos na rua fazendo bagunça. A verdade é que o pessoal quer trabalhar e não tem trabalho. Nós estamos ficando preocupados, o que vamos fazer pra pagar aluguel [caso percam o apoio do projeto]? Como vamos fazer para pagar a luz? A água?”, questionaram quase que em coro.
Diante das dificuldades enfrentadas no estabelecimento de uma vida nova na cidade, os Warao têm recebido doações e conseguido, algumas vezes, dinheiro através de diárias de trabalho. Quando vão à rua, são criticados pela população. Quando conseguem diárias, o valor não é suficiente para pagar as contas e alimentar toda a família.
Ele conta que as diferenças entre os refugiados indígenas e os não-indígenas – que, segundo Carlos, têm mais "experiências de sobrevivência" – também interferem na sua busca por trabalho. Ele acrescenta que, apesar de saberem escrever e assinar, a maior parte dos indígenas tem dificuldade em conseguir um trabalho no Brasil.
Agora, pode ser que não continuem em Uberaba. O destino é incerto e o único requisito para escolhê-lo é o trabalho. “Vamos para onde tiver trabalho”, disseram. Isso porque, de acordo com ele, o objetivo principal dos Warao é construir uma nova vida.
O fim da conversa foi leve. Em roda, conversamos sobre assuntos aleatórios da vida e brincamos com as crianças. Elas ficaram muito interessadas na câmera fotográfica. Posaram para as fotos e também tiraram fotos de si mesmas e da família. Elas nos puxavam pelos braços, pediam para tirarem fotos nossas e, com demonstrações de carinho, convidaram-nos para brincar.
Criança Warao se empolga com as câmeras e pede equipe da reportagem para tirar algumas fotos - Créditos: Maria Jùlia Araújo
Depois de quase 4 horas com os Warao, pedimos um carro por aplicativo e nos organizamos para voltar para Uberlândia. Um trajeto que, ainda não sabíamos, mas seria de reflexão, indignação e vontade de poder fazer algo para mudar a história que havíamos acabado de ouvir.
'NÓS SOMOS FAMÍLIA'
Mulher Warao conversa com família que está refugiada em Manaus por telefone durante a conversa em Uberaba - Créditos: Maria Júlia Araújo
Os Waraos são uma etnia indígena venezuelana. Uma grande parte deles vive no Delta do Rio Orinoco, que fica na República Bolivariana da Venezuela, mas também podem ser encontrados em outras regiões, como nos trechos que fazem fronteira com a Guiana Francesa.
Com o passar dos anos, as diásporas — mudanças forçadas — fizeram com que eles se espalhassem não apenas pela Venezuela, mas também por outros espaços do mundo. No Brasil, não foi diferente e, pouco a pouco, chegaram em cidades de diferentes estados. “Tem Warao em Brasília, em Goiânia, em Palmas, em Belém, no Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza”, contou Carlos.
Todas essas mudanças contribuíram para que os Waraos se tornassem uma comunidade complexa. Atualmente, o elemento homogêneo que se destaca entre eles é a língua – também chamada warao. É a linguagem também que os difere dos outros grupos indígenas existentes na Venezuela.
Ele ainda contou que na Venezuela, as escolas Warao ensinavam 3 línguas: o warao, o castelhano e o inglês. As línguas são ensinadas desde a educação primária e, para ele, isso foi fundamental para que eles se comunicassem melhor entre si e também alcançassem novos postos. “Hoje tem indígena advogado, ministro, tenente do exército, sargento, polícia, médico, cirurgião e curandeiro”, comentou o Warao orgulhoso.
Mas, para além da língua, existe um outro elemento que une os Warao: a vontade de estar junto. Independente da distância, eles mantêm a comunicação e se reúnem em suporte uns aos outros.
Sequência mostra momentos de interação da equipe com as crianças após a autorização do registro de imagens. - Créditos: Anna Júlia Lopes e Maria Júlia Araújo
POR QUE DEIXARAM A VENEZUELA?
Com o que a Organização das Nações Unidas (ONU) chama de "grave e generalizada violação de direitos humanos", o fluxo de pessoas da Venezuela para o Brasil aumentou nos últimos anos. Segundo o Comitê Nacional para Refugiados (Conare), o Brasil reconhece 46.192 imigrantes de origem venezuelana em 2020.
No entanto, a crise política, econômica e social no país é só mais um dos fatores para o movimento de deslocamento forçado dos Warao. Apesar de não ser considerado um povo nômade, a etnia estava em constante movimentação no próprio território venezuelano.
Os Warao – assim como outras comunidades nativas do território venezuelano – sofreram com o deslocamento forçado interno e tiveram seus costumes e modos de vida afetados.
Com a chegada dos espanhóis, no século XVIII, os Warao migraram para os pântanos, fugindo do massacre colonial. Carlos contou que, no dia 12 de outubro, era comemorado o "Dia do Descobrimento da América", mas o governo Hugo Chávez mudou a data para "Dia da Resistência Indígena".
"Quando eu fui para a escola, explicaram para mim que Cristóvão Colombo chegou ao sul da América e já haviam [sic] indígenas ali [...] eles chegaram, fizeram o que queriam, fizeram bagunça, roubaram tudo e voltaram para a Espanha. Não era descobrimento da América, era resistência indígena, porque foram maltratados, foram pisoteados, chegaram a ser escravos na época", relatou Carlos.
Além da colonização, mais um fator para o deslocamento interno dos Warao foi o represamento do Rio Manamo, durante a década de 1960. Para a barragem, foi construído um dique-estrada no rio, motivando a exploração de palmito e o cultivo de arroz.
De acordo com o Alto-comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), na época, os produtores rurais utilizavam os indígenas como mão de obra barata e cerca de 20 comunidades Warao chegaram a desaparecer.
Além disso, a exploração de petróleo na cidade de Pedernales, onde a maior parte da população Warao vivia na década de 1990, também contribuiu com a diáspora.
A presença da indústria petrolífera e o aumento desenfreado de pessoas na região, levou ao surgimento de novas doenças – como a tuberculose e o HIV – e causou a falta de água potável e a contaminação de solos e rios. Tudo isso teve impacto direto nas comunidades.
O primeiro registro de um deslocamento em massa dos Warao para o Brasil, segundo o Acnur, é de 2014. Ainda de acordo com a agência, com o agravamento da crise na Venezuela, indígenas e não-indígenas passaram a lidar com a inflação, o desabastecimento de produtos básicos, o aumento da violência e a deterioração dos serviços de saúde no país.
VIVÊNCIAS NO NORTE DO BRASIL
O olhar de uma criança Warao - Créditos: Maria Júlia Araújo
“Alguns vieram de canoa, outros de ônibus e alguns a pé”, relembrou o indígena Warao. A decisão pelo tipo de viagem dependia da condição financeira e da distância da fronteira de cada um.
No caso dos que moravam na cidade, o trajeto mais comum era através da rodovia. Aqueles que moravam próximos da divisa dos países optaram por ir a pé. Segundo o índigena, esse o trajeto mais comum. “É uma noite de viagem, em 8 ou 9 horas, é possível chegar”, contou.
Outros precisaram vir de canoa. Alguns passavam a semana no rio, sem ter sequer como comer. Quando começaram a realizar o trajeto, em meados de 2017, a fronteira estava aberta.
Muitos deles, chegavam no Brasil para vender chapéus — produzidos com materiais que nasciam no rio. Porém, em 2020, com o início da pandemia de COVID-19 a situação se complicou. Em março, o presidente Jair Bolsonaro (PL) fechou as fronteiras. Elas foram parcialmente reabertas após mais de um ano.
Pacaraima, em Roraima, foi a primeira morada de Carlos e sua família quando chegaram ao Brasil. Depois de atravessar a fronteira algumas vezes para levar dinheiro e comida para parentes na Venezuela, decidiram ficar e procurar trabalho.
A cidade é conhecida por ser uma passagem de imigrantes venezuelanos para o Brasil. Segundo a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), a reabertura da fronteira, em julho de 2021, fez com que o número de refugiados saltasse de 1.524 para 5.234 em um mês.
Ali, o abrigo organizado por um padre já acolhia 30 pessoas quando a família Warao chegou e todos os dias esse número aumentava. “Tinha quatro tribos. Cada tribo tinha um cacique e tinha um problema de disputa. O pessoal bebia, brigava”, contou.
A antropóloga do Acnur, Lyvia Barbosa, explica que a região tem uma questão histórica de conflito entre as populações indígenas locais e as refugiadas, devido às demarcações de território. Por esse motivo, os Warao acabam tendo dificuldade de acolhimento e poucas chances de integração na fronteira, o que os motiva a migrar para dentro do território brasileiro.
Assim, os conflitos levaram a uma nova migração, desta vez rumo à Boa Vista (RR). O abrigo na nova cidade, segundo Carlos, era ruim, frio e "bagunçado"Ele a e lá viviam venezuelanos não-indígenas e indígenas. A convivência entre os grupos gerou novos conflitos e os indígenas foram encaminhados para outro lugar. Alguns ficaram na mesma cidade ou voltaram para Pacaraima, outros seguiram viagem, saíram de Roraima e foram para o Amazonas, sobreviver em Manaus.
Na época, as crianças foram para a escola e os trabalhos que ele e outros adultos dos abrigos arrumavam, como pedreiros, pagavam por dia cerca de 20 reais. Para ele, Manaus era bom, mas queriam mais dinheiro para mandar aos parentes que ficaram no país de origem, onde, de acordo com ele, é uma luta para conseguir um pão.
Foi nessa tentativa que chegaram à Brasília, depois de passarem por Palmas (TO) e Goiânia (GO). O motivo da movimentação sempre foi o mesmo:
“Nós vamos onde tem trabalho. Falaram que em Uberlândia estava bom, estava ajudando, mas a realidade é outra. Se falarem que tem trabalho em Santa Catarina, eu vou para lá também. Onde tiver uma melhoria de vida para que eu possa ajudar minha família, eu fico”, explicou Carlos.
Ele contou ainda que alguns de seus familiares ficaram em Manaus.
NOVO DESTINO, NOVA CHANCE
O quintal da casa em Uberaba alugada pela paróquia é onde vive Carlos e sua família - Créditos: Anna Júlia Lopes
Carlos, sua mulher e filhos chegaram em Minas em 2020. Em Uberlândia foram para as ruas, onde permaneceram com o auxílio de doações da população, até encontrarem ajuda na ONG Taare, mas foi um começo conturbado na região.
A presidente e membro fundadora do projeto, Kelly Moraes, explica que os Warao foram os primeiros migrantes e indígenas que a organização recebeu e, para lidar com a situação, buscaram orientação do Acnur.
Enquanto tentavam estudar a melhor forma de lidar com o grupo, a população uberlandense fez denúncias ao Conselho Tutelar por se depararem com famílias inteiras, inclusive crianças, pedindo dinheiro na rua com cartazes escritos em castelhano.
A coleta, uma prática típica Warao, vem da ideia de que, por serem povos coletores, eles buscavam a sua alimentação na floresta. Com o êxodo devido à tomada de sua região por petróleo, eles passaram a aproveitar da cidade, ao invés da natureza, de acordo com Moraes.
O Conselho Tutelar da cidade monitorava os grupos de imigrantes venezuelanos desde 2019, quando houve um aumento no número de refugiados. No entanto, durante a pandemia, a quantidade de pessoas vindas da Venezuela em situação de deslocamento forçado foi superada.
"O conselho passou a ser estrangulado com denúncias de crianças nas ruas pedindo dinheiro”, contou a conselheira do 3º Conselho de Uberlândia, Bianca Cardoso. Em 2020, a entidade convocou uma assembleia, junto ao Ministério Público e a Polícia Militar, para decidir quais medidas tomar em relação à mendicância nas ruas.
“Nós convocamos o primeiro Grupo de Trabalho (GT) Warao de Uberlândia, com a presença do Desenvolvimento Social de Uberlândia, Secretaria de Saúde, Secretaria de Educação, vereadores e o Conselho Tutelar. Todo esse movimento começou porque era algo que estava trazendo incômodo”, contou Moraes.
Após as reuniões, o grupo decidiu por fazer a abordagem das famílias, junto a tradutores, para fazer os Warao entenderem que pedir esmola com crianças na rua, no Brasil, era proibido. Para Carlos, a lei foi fácil de entender, o difícil foi encontrar alguma outra solução já que não conseguem trabalho.
A situação em Uberaba, onde vivem hoje, não é muito diferente. Apesar de terem sido acolhidos pelo Projeto Ágape, a preocupação de não conseguir arcar com as contas
continua.
Apesar de o Brasil ter uma das leis de refúgio mais avançadas no mundo – permitindo às pessoas refugiadas o direito de acesso a todos os benefícios sociais garantidos aos brasileiros, como o acesso ao SUS (Sistema Único de Saúde) e à educação pública, por exemplo –, até então, não existem políticas públicas nas prefeituras de Uberaba e de Uberlândia que possam prestar assistência a essas famílias.
“A maior parte das cidades brasileiras – com exceção de São Paulo – tem políticas bastante tímidas. As ONGs locais iniciaram um trabalho de sensibilização. O GT Warao acabou mobilizando atores do judiciário e grupos de pesquisa da UFU, mas isso ainda está em desenvolvimento”, explicou a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Marrielle Maia.
Contatadas pela nossa equipe, as prefeituras de Uberaba (MG) e Uberlândia (MG) não se posicionaram sobre o assunto até a publicação desta reportagem.
BUSCANDO RESPOSTAS...
O nosso grupo enfrentou dificuldades de conseguir informações dos órgãos públicos sobre a situação dos Warao em Uberaba, principalmente, por ser uma equipe de estudantes. Por isso, decidimos levar a história das famílias para algum jornal que conseguisse contar o relato dos indígenas e perguntar à Prefeitura e às entidades competentes sobre o processo de regularização deles.
Foi assim, que chegamos ao g1. O jornal contou as dificuldades que os grupos têm vivido na cidade e levou os questionamentos deles ao setor público. Ao veículo, a Seds (Secretaria de Desenvolvimento Social) informou que o Cras (Centro de Referência de Assistência Social) é a porta de entrada da assistência social e que a comunidade do Bairro Alfredo Freire é atendida no Cras Tutunas.
“No Cras, o estrangeiro recebe auxílio para regularizar a documentação, é orientado quanto aos benefícios sociais e inscrito no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, além de direcionado para atendimento em outras áreas, como Saúde e Educação. Especificamente quanto à empregabilidade, o Cras Tutunas auxilia o estrangeiro na elaboração de currículo e o encaminha para vagas disponíveis no mercado de trabalho, quando há interesse", disse a Seds em nota ao g1.
O jornal ainda procurou o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). O órgão declarou que há dois caminhos para conseguir a regularização: o pedido de autorização de residência com base na Portaria Interministerial nº 19 do MJSP e do Ministério das Relações Exteriores (MRE) e o pedido de reconhecimento da condição de refugiado. Ambos são feitos em unidades da Polícia Federal.