O primeiro contato com a etnia Warao partiu da Anna Júlia, uma das integrantes do nosso grupo. Ele aconteceu quando ela estagiava para a Conexões, a agência de notícias da UFU. Na época, ela viu uma matéria no g1 que dizia que a universidade havia sido reconhecida pela ONU pelo trabalho com refugiados, o que fez com que se interessasse pelo assunto. Ao se aprofundar no tema, notou que era bem mais profundo do que parecia e, enquanto focava no trabalho e reconhecimento da ONU, viu uma pauta em potencial sobre a etnia em si e sua trajetória em Uberlândia.
A proposta nos foi apresentada e, de imediato, acreditamos que esse deveria ser o tema do nosso PEX. Anna Júlia já estava em contato com membros do Taare, do Acnur e com a professora de Relações Internacionais Marrielle Maia, desde julho. Quando decidimos pelo tema, ela conversou com todas essas pessoas diversas vezes sobre atualizações da situação dos Warao no Triângulo Mineiro. Mas foi somente em janeiro, que planejamos o "primeiro contato" com a etnia.
Na data, fomos informadas por Gabriel Fernandes – membro do Taare – que não conseguiríamos conversar com os Warao de Uberlândia. Segundo ele, todos os problemas com o Conselho Tutelar tornaram os indígenas ainda mais reclusos e eles não aceitavam mais ninguém de fora em seu território. No entanto, o Gabriel nos disse que os Warao de Uberaba aceitariam conversar conosco para a reportagem. Como não tínhamos outra opção, planejamos nossa viagem para a cidade – a pouco menos de 100 km de Uberlândia.
Enquanto a viagem e o encontro com os Warao ainda estavam sendo planejados, em paralelo ao contato com as ONGs, diante das informações que já havíamos levantado por meio dos relatos, reportagens e ebooks sobre a etnia, Marina foi atrás de um posicionamento sobre a presença dessas pessoas em Uberlândia por parte do Conselho Tutelar e das prefeituras.
A Conselheira Bianca Cardoso, após um depoimento por telefone onde descreveu episódios que aconteceram de 2019 a 2021 com participação do Conselho Tutelar, indicou fontes de dentro da Secretaria de Desenvolvimento de Uberlândia, do Centro Pop da cidade, responsável pela abordagem de rua e da Assessoria Jurídica responsável por fazer a ponte entre as instituições.
O contato com os nomes foi principalmente via WhatsApp, exceto pelas prefeituras de Uberlândia e Uberaba, que também foram acionadas por e-mail. Por telefone, o Centro Pop não autorizou a entrevista e a assessora preferiu não aparecer na reportagem. As prefeituras não retornaram.
No encontro com os Warao, foram as alunas Maria Júlia e Anna Júlia, acompanhadas de Gabriel, representante da Taare. Ao chegarmos na cidade, nos deparamos com uma praça, com uma pequena igreja no centro. Segundo ele, aquela era a igreja do padre que ajudava os Warao na cidade. Poucos dias antes, o padre havia aconselhado os indígenas a não nos encontrarem por conta do projeto da igreja que estava em "recesso". De acordo com o padre, ele queria explicar aos indígenas o porquê de uma das famílias Warao ter ido embora da cidade.
Caminhamos por mais alguns minutos, em direção a casa do Warao, até que finalmente chegamos ao destino do encontro: uma praça situada no Bairro Alfredo Freire. O bairro é uma periferia e fica na altura do Graal. Quando chegamos no local, estavam Carlos e Jorge, ambos sentados em cadeiras – que eles mesmos haviam levado. Ao nos ver nos aproximando, eles nos cumprimentaram e buscaram mais cadeiras para que pudéssemos sentar juntos.
Após nos sentarmos em uma roda, nos apresentamos e falamos para eles que queríamos conhecer as histórias deles. Gabriel nos disse que Jorge falava um pouco de português, então decidimos tentar fazer as perguntas em português para eles, para que assim conversássemos sem mediações. Primeiro, Carlos pediu para que fizéssemos questionamentos por partes e a primeira pergunta foi “Por que vocês vieram para o Brasil?”.
Ele então nos contou que o motivo principal era a crise humanitária na Venezuela. Disse que, por vezes, passavam dias sem comer e que vieram ao Brasil em busca de uma nova vida e de novas oportunidades. Nas primeiras respostas, notamos que ele estava um pouco retraído e chegamos a pensar que talvez não conseguíssemos fazer as fotos. Porém, conforme ia contando a história, ele foi se soltando e confiando mais em nós.
Carlos nos contou sobre os avanços das políticas públicas na Venezuela em prol dos Warao. Disse que, de início, havia muito preconceito, que as pessoas diziam que eles deviam voltar para a floresta e que, por vezes, havia discriminação de índigenas com outros índigenas, o que o entristecia. Porém, com o tempo foram criadas novas lei, a discriminação contra o índigena foi criminalizada e a situação aparentemente havia melhorado.
Eles ganharam escolas próprias, onde se ensina a língua warao e o castelhano. Indígenas se tornaram advogados, médicos e ministras. Essa parte em específico, Carlos aparentou contar com muito orgulho. Depois, começou a narrar a chegada deles no Brasil e pelos diversos estados que passaram. Eles chegaram ao país através de Pacaraima, em Roraima, município fronteiriço com a Venezuela.
Contou que alguns passaram dias em botes e outros vieram de ônibus. Nos primeiros dias, eles ficavam no chão da rodoviária e dormiam por lá. Até que começaram a ser notados pelos órgãos públicos e ONGs. Foi quando eles foram para a Amazônia, onde receberam abrigo. Lá ganhavam café da manhã e alimentação, mas conforme José, haviam muitas brigas e conflitos.
Desde então ele passou por Tocantins, pelo Pará, até chegar em Minas Gerais. Ele contou que, assim como ele, outros indígenas fizeram esse mesmo movimento: sair de perto das fronteiras – que estavam lotadas – e adentrar mais o país. Na região do Triângulo Mineiro, a primeira cidade em que chegaram foi Uberlândia. Por desentendimentos com outra família Warao e pela falta de emprego, eles decidiram se mudar. Foi assim que chegaram a Uberaba, onde estão agora.
Assim como aconteceu com Uberlândia, Carlos contou que a falta de emprego foi motivação de outras mudanças. Ele reforçou por diversas vezes que quer ir para um local onde tenha emprego e oportunidades. Inclusive, falou uma frase para narrar isso que nos marcou muito: “Nós não estamos vivendo no Brasil, nós estamos sobrevivendo”.
Aos poucos, outros integrantes da família se aproximaram. Chegou a esposa de Carlos e a avó das filhas de Jorge. Neste primeiro momento, apenas Carlos falava, mas logo os outros adultos começaram a se soltar e a pontuar detalhes da história que ele contava, mas ainda era Carlos quem liderava a conversa.
Eles contaram que o padre fala que para que consigam emprego é preciso que aprendam o português. No entanto, para eles, agora existem demandas mais urgentes do que aprender a língua, como dar alimento aos filhos, se estabilizar e enviar dinheiro para outros familiares, que ainda estão na Venezuela ou até mesmo em outras regiões do Brasil.
No desespero por conseguir pagar as contas e se alimentar, eles disseram que por vezes recorrem às ruas, mas que o padre é contra a ação e fala que não irá mais ajudá-los se continuarem pedindo dinheiro. Eles falaram que são questionados sobre as crianças e o porquê de as levarem junto. Para responder esse questionamento, nos fizeram outro: o certo é deixá-las sozinhas em casa?
Eles pareceram muito politizados e conscientes de tudo aquilo que é dito sobre os Warao. As dúvidas que surgiram durante nosso processo inicial de apuração foram sendo respondidas de forma natural, o que aparentou, para nós, que já haviam sido questionados sobre aquilo por diversas vezes.
Dois momentos que mais nos marcaram foi quando uma das Warao disse ter um filho em Manaus e que, mesmo com pouco, manda dinheiro para ele sempre que possível. Lembramos dela questionando como poderia comer sabendo que seu filho está em outro estado com fome ou precisando de dinheiro.
O outro foi quando Anna Júlia perguntou quantos filhos Carlos e Maria, sua esposa, tinham. Ele disse que tinham cinco, mas que um faleceu. Nenhuma de nós quis perguntar a causa da morte, mas notamos que Maria tinha lágrimas nos olhos. Logo depois, ela entrou na casa.
Depois que aparentaram terem falado tudo que queriam, eles pareceram terem se soltado. Isso ficou nítido para nós no momento em que fomos gravar as autorizações de uso de imagem e Carlos quis falar em vídeo as críticas que tinha ao padre. Isso porque, quando chegamos e pedimos para gravar o áudio deles falando apenas para intuito de transcrição, ele ficou receoso e demorou a autorizar.
Quando notamos que estavam mais à vontade, decidimos perguntar se poderíamos tirar fotos. Após autorizadas, Maria Júlia se levantou e começou tirou a máquina da mochila. Durante toda a conversa, as crianças estavam brincando na praça, elas não pareciam muito curiosas e interessadas em nós. Porém, assim que viram a câmera, vieram todas juntas em direção a nós. Elas faziam poses, sorriam e pediam que nós as fotografássemos. Logo depois, passaram a pedir para brincar com a máquina.
Maria Júlia ensinou a apertar o botão e monitorar o uso para que eles não deixassem cair e quebrassem a lente. Eles revezavam entre si mesmos e, por vezes, discutiam sobre quem ia usar a câmera. Depois, levaram Maria Júlia para a academia da praça, onde brincavam. Durante o trajeto, uma das meninas e um menino pequeno seguravam Maria Júlia pelas pernas e dependurava nela enquanto andava.
Uma das crianças era muito carinhosa e queria sempre estar por perto, queria que tirassemos fotos com ela e “brigava com os outros” quando ficavam muito tempo com a câmera, porque era para eles “nos deixarem usar também”. Os pais também entraram na brincadeira e quiseram pegar a câmera para fotografar.
Neste primeiro momento, Anna Júlia seguiu a conversa com os Waraos, mas logo em seguida, pegou a câmera também. As crianças estavam tão entusiasmadas que a convidaram para entrar na casa. Lá, tinham roupas penduradas no varal e brinquedos espalhados pelo chão. Também tinham um cachorro. A casa era relativamente espaçosa, mas sem muitos móveis. Quando ela entrou na cozinha, uma das crianças colocou café em uma xícara para oferecer a ela, mas acabou derramando tudo no chão. As crianças brincavam e mostravam seus brinquedos para que ela pudesse tirar fotos. Depois, ela voltou para a praça, onde as crianças a levaram até os aparelhos de exercício para brincar.
Voltamos para conversar e pedimos as autorizações, em vídeo, para que pudéssemos utilizar as fotos tiradas. Nos despedimos enquanto eles continuaram ali na praça. Voltando para Uberlândia, ligamos para Marina e contamos por telefone tudo que havíamos conversado com os Waraos, nossas impressões e momentos que mais nos marcaram.
Ela contou que as frases mais marcantes para ela foram “eles são ajudados por um padre, mas só o aluguel, não estão conseguindo pagar as contas”, “ele disse que como vai sair pra pedir sem as crianças e deixas as crianças sozinhas em casa”, “eles querem sobreviver”. O sentimento principal foi de revolta imediata pela dimensão do problema e a ausência de resposta que eles tinham e nós também, já que não conseguimos um posicionamento da prefeitura.
Concluímos ser uma situação estranha, grave e percebemos que precisávamos de outras respostas. Foi nesse momento que decidimos tentar o contato pela segunda vez com a prefeitura, via e-mail, que foi enviado por Marina e mais uma vez, sem retornos.
A partir dessa experiência, conversamos entre nós e, devido ao estágio da Maria Júlia no portal g1, decidimos levar a pauta para o jornal, para tentar conseguir alguma resposta. O portal aceitou a pauta e fez entrevistas com todos os envolvidos. Foi quando conseguimos um retorno, de forma terceirizada, via nota de esclarecimento.
Durante a construção da narrativa, os Warao nos informaram que não queriam ter seus nomes expostos, por isso, utilizamos nomes fictícios. As fotos que havíamos tirado também ficaram restritas. Foi necessário escolher apenas aquelas que não mostravam o rosto, ou então, aquelas que borrar a face não prejudicasse a mensagem da imagem.