Na cidade de Évora, a água é tão rara que quase não se percebe, embora a sua ausência seja evidente. O território vive em um equilíbrio delicado entre a seca constante do Alentejo e a presença ocasional de água, geralmente irregular, breve e de uma grande importância. A paisagem evidencia essa pressão pela cor do solo, pela vegetação, pelas sombras profundas e pelas infraestruturas que conduzem, escondem e protegem a água. Para além de ser um elemento natural, a água também assume um papel importante na organização do território, estabelecendo usos, formas de ocupação e ritmos.
O percurso entre o Alto de São Bento e o centro histórico de Évora oferece uma leitura visual dessa relação. Começando por um ponto elevado, exposto e rochoso, onde a água aparece apenas temporariamente, seguindo-se o rasto de água enquanto ela desce, se organiza, se canaliza e, por fim, desaparece na superfície. Ao longo do percurso, a água aparece por meio de alguns sinais, como caminhos de escorrência no solo, marcas de humidade nas paredes, vestígios de usos antigos e sistemas técnicos contemporâneos. Essa leitura mostra que, em Évora, a água não desaparece, ela transforma-se. Vai do visível para o subterrâneo, do natural para infraestruturas, do presente para o passado, a partir das memórias, o que torna- se assim um elemento fundamental para perceber qual a identidade e a fragilidade deste território vivo.
Quando chove, o chão ilumina-se por instantes, como se a terra respirasse. As poças criam-se nas depressões, a cidade aparece ao fundo, distante, por detrás do nevoeiro que se move lentamente.
Neste local, a água não se mantém, evapora, escorre e desaparece. O Alto de São Bento é um local de passagem: do vento, do olhar e da água.
Ao descer, a água começa a revelar o seu desenho por meio de valetas e ravinas marcadas. A paisagem guarda a memória daquilo que já aconteceu, mesmo quando já se apresenta seca, mostrando que, neste território, a água influencia mais pelo que desparece do que pelo que permanece.
A água aqui deixa de ser uma paisagem e passa a fazer parte das infraestruturas. O poço, a mangueira, as tampas de esgoto e as estações de tratamento são elementos onde a água está presente, mas não de forma visível e sim mascarada.
Nada corre livremente. Tudo é captado, armazenado e conduzido. A vegetação verde é um elemento essencial que permite demonstrar a presença da água, concentrada e controlada. A secura mantém-se ao redor, mas a intervenção humana pode fazer com que haja algumas diferenças nesse padrão.
Poço
Mangueira e tampa de esgoto
Campo com vegetação seca
Parque Municipal- Estação de tratamento de águas
O Aqueduto da Água de Prata surge como uma linha contínua no território. Não é apenas uma infraestrutura que transporta água, mas também o tempo. Traça a transição entre o campo e a cidade, entre o natural e o construído.
A vegetação começa a fechar-se. E a água desloca-se para o centro, mesmo quando já não a vemos.
Dentro da cidade, a água já não é visível à superfície. Manifesta-se em silêncio, através do musgo nas paredes, verdete, infiltrações e humidade. A pedra é um elemento que mostra um contacto prolongado com a água ao longo dos anos. A água, aqui, é memória material, marcada na arquitetura.
A presença de chafariz e de noras lembra tempos em que a água era partilhada e visível. Locais onde as pessoas se encontram para conviver, esperar e mesmo para trabalhar. Atualmente, muitos destes elementos estão secos e sem utilidade, mas continuam a marcar o território. A água permanece assim como memória, como uma lembrança de um uso mais próximo, mais consciente.
A realização do percurso entre o Alto de São Bento e o centro histórico de Évora mostra que a secura não é uma condição passageira, mas sim uma base estrutural do território, mesmo quando a água surge como uma presença rara, organizada e muitas vezes escondida. A paisagem mostra assim uma adaptação contínua à escassez, transformada em infraestruturas que permitem o abastecimento à população, mas afastam a água do olhar e da experiência quotidiana. O facto da água ser um elemento invisível levanta uma questão crítica relevante: ao tornar a água cada vez mais técnica e subterrânea, corre-se o risco de a desligar da memória coletiva e da consciência da sua fragilidade.
Numa situação de alterações climáticas, a leitura visual do território propõe repensar com urgência a água não apenas como um recurso funcional, mas também como um elemento necessário para a população, para a paisagem e para as relações éticas como o lugar.
Marisa Silva é licenciada em Ecologia e Ambiente na Universidade de Évora e encontra-se atualmente a frequentar o Mestrado em Arquitetura Paisagista, área na qual aprofunda o seu interesse pela relação entre a natureza, sustentabilidade e território.
Desde cedo demonstrou um forte interesse e ligação com a natureza, o que a levou a desenvolver o seu percurso académico focado nos estudos dos ecossistemas, na gestão ambiental e no planeamento de espaços exteriores de forma equilibrada e consciente. A sua formação integra conhecimentos científicos com uma abordagem mais prática e criativa, valorizando soluções sustentáveis e adaptadas a um contexto ambiental e social.
Os seus interesses centram-se na sustentabilidade ambiental, no planeamento paisagístico, na qualidade de vida nos espaços urbanos e rurais e na conservação da natureza, tendo como intenção promover um equilíbrio harmonioso entre o ser humano e o meio que o rodeia.
Agência Portuguesa do Ambiente. (2025). Seca e cheias (Relatório do Estado do Ambiente) https://rea.apambiente.pt/content/seca-e-cheias
Salgado, R. (2017). A água no Alentejo num clima em mudança [Comunicação científica]. Repositório Digital de Publicações Científicas da Universidade de Évora https://dspace.uevora.pt/rdpc/handle/10174/23803
Câmara Municipal de Évora. (s.d.). Aqueduto da Água da Prata. https://www.cm-evora.pt/locais/aqueduto-da-agua-da-prata/
Rodrigues, R., & Outros. (2021). The management of water heritage in Portuguese cities: Recent regeneration projects in Évora, Lisbon, Braga and Guimarães. Frontiers of Architectural Research, 11(1), 73–88. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2095263521000613