As margens da cidade e os espaços vazios correspondem a territórios que numa primeira abordagem aparentam ser indefinidos e abandonados, são resultantes do encontro entre áreas urbanas consolidadas e o campo produtivo.
São espaços de transição, fronteira e sobreposição, onde coexistem infraestruturas, vazios urbanos, usos informais, vegetação espontânea e fragmentos de paisagem rural.
Mantiveram a sua génese rural enquanto foram sendo aglutinados pelo urbano e perdendo a sua atividade produtiva.
No contexto da cidade de Évora, estes territórios tornam-se relevantes enquanto resultado da expansão urbana, do planeamento e das tensões entre crescimento e potencial de regeneração.
Ocupam uma posição de transição entre o centro urbano histórico e consolidado, como fronteira para os territórios resultantes da expansão urbana em direção à periferia - os bairros de cariz habitacional.
No âmbito do nosso estudo estas margens interessam menos enquanto problema a resolver e mais enquanto paisagem a observar e interpretar.
O conceito de vazio urbano abrange várias terminologias: Terrain Vague, Brownfields, Não-lugares. Designações que associam estes lugares a espaços esquecidos e fragmentados, sem identidade. São vazios marcados pelo desgaste, lugares de passagem, incapazes de estabelecer uma relação clara com a cidade, gerando sentimentos de perda, desvalorização e preconceito.
O conceito considera-se ter surgido inicialmente por Jean Labasse (1966) como “friches sociales” - vazios sociais, relacionados com os ciclos de mudança industrial, para definir "um espaço, construído ou não, desocupado ou sem muita utilização; antes ocupado por actividades industriais ou outras actividades”.3
Os vazios urbanos surgem como espaços indefinidos e ambíguos, frequentemente percebidos como territórios incertos e estranhos. Lugares obsoletos onde subsistem vestígios de outrora, apesar da perda das atividades que lhes deram origem. Esta condição conduz, muitas vezes, à sua transformação em áreas desocupadas, frágeis e estéreis, projetando uma imagem associada à insegurança e à desconfiança.
Para alguns autores, como Solá-Morales, o termo "vague", representa um espaço vazio, desocupado mas igualmente “livre, disponível, descomprometido, vazio, portanto, como ausência, mas também como promessa, como encontro, como espaço de possibilidade, expectação.”4
Estes espaços podem ser entendidos a partir de uma nova perspectiva, como territórios livres, disponíveis e desimpedidos, cujo valor reside precisamente na sua condição aberta e indeterminada.
Longe de representarem apenas ausências ou falhas, constituem uma oportunidade estratégica para a revitalização da cidade, capazes de acolher novos usos, reconfigurar relações espaciais e estabelecer ligações inéditas entre o urbano, o rural e o natural.
Continuum Naturale
Podemos ter a compreensão destes espaços intersticiais como partes integrantes de um sistema contínuo, onde urbano, rural e natural são dimensões interdependentes. É crucial não olhar para estes como resíduos ou falhas do território.
A leitura das margens da cidade e os vazios intersticiais pode ser diretamente relacionada com os conceitos de Continuum Naturale, lançados por Gonçalo Ribeiro Telles.
Estes territórios revelam fraturas que surgem quando não é tida em conta uma visão global. São notórias as consequências das intervenções e da separação entre funções, usos e escalas - espaços abandonados, áreas descaracterizadas e negligenciadas.
O Continuum Naturale ajuda-nos a olhar estes espaços de transição como zonas onde os sistemas naturais persistem, resistem ou se reinventam, mesmo em contextos fortemente antropizados.
A vegetação espontânea, os solos expostos, as linhas de água ocultas ou interrompidas e os corredores ecológicos fragmentados evidenciam a continuidade, ainda que fragilizada, do natural através da cidade.
Neste sentido, as margens da cidade funcionam como espaços essenciais para compreender a rutura, e mais importante ainda a possibilidade de restabelecer e valorizar esse continuum.
Percurso Visual
1. TELLES, Gonçalo Ribeiro, “Paisagem global. Um conceito para o futuro”, in: Filosofia da Paisagem. Uma Antologia (2013) Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa.
2. ARAÚJO, Catarina Oliveira (2016) Marvila: Habitar Através dos Vazios Urbanos. FA UL.
3. MENDONÇA, Adalton da Motta (2001) Vazios Industriais: Ensaio sobre Friches Sociales.
4. SOLÀ-MORALES, Ignasi De (2002), Territórios, Gustavo Gili, Barcelona, p. 127.
5. WIGLEY, Mark (2007) Void Set - Trienal de Arquitectura de Lisboa.
6. DI GIOVANNI, Andrea (2018) Urban Voids as a Resource for the Design of Contemporary Public Spaces. Planum The Journal of Urbanism no 37. (Link)
Pedro Cunha é licenciado em Arquitetura Paisagista, e frequenta o mestrado na mesma área.
Mantém um interesse académico e profissional pela arquitetura paisagista, sustentabilidade urbana e desenho/construção de jardins. Desenvolve também trabalho nas áreas de Recursos Humanos, Pessoas e Talento, com experiência em recrutamento, consultoria e desenvolvimento de talento.
Com forte paixão pela natureza, pelas pessoas e pelo comportamento humano, bem como pela inovação e tecnologia.