1. Hans Staden e a formação de identidades modernas ocidentais
Proponente
Fernando Arantes Ferrão (Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura - Instituto de Letras/Universidade Federal do Rio de Janeiro)
Justificativa
Trazer Duas Viagens ao Brasil – texto originalmente publicado em Héssia (1557) pelo mercenário alemão Hans Staden, e, originalmente, destinado aos emergentes leitorados vernaculares protestantes – , para os programados debates sobre o Atlântico global, justifica-se não apenas pela ratificação dos acontecimentos nele narrados em cotejo com outros documentos históricos, mas igualmente pela riqueza de referências com que viria a prover estudos ulteriores tanto acerca dos modos de vida indígenas, como sobre a constituição de peculiaridades entre identidades modernas e ocidentais.
Plano de curso
Com o auxílio de meios audiovisuais (tela de projeção e powerpoint), apresentaremos e discutiremos textos e imagens concernentes aos tópicos abaixo listados. Desta forma, o que objetivamos realizar neste minicurso é adentrar, em companhia dos interessados, o limiar entre história, literatura e etnografia em que se coloca o produto cultural longevo e complexo encerrado na obra de Hans Staden.
Bibliografia e conteúdo
BUARQUE DE HOLLANDA, Sérgio. Visão do Paraíso: os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 2010.
DUFFY, Eve M. & METCALF, Alida C. The return of Hans Staden: a Go-between in the Atlantic World. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 2012.
FERRÃO, Fernando Arantes. Imagens do civilizado e do selvagem em Duas Viagens ao Brasil e Tristes Trópicos. Orientador: Mário Bruno. 2020. 166f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Letras: Teoria da Literatura e Literatura Comparada, Instituto de Letras, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2020.
________________________. Hans Staden, o outro do outro. Revista Diadorim, Rio de Janeiro, v. 23, n. 2 (2021). Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/diadorim/issue/view/1578. Acesso em 20/09/2022.
LOBATO, José Bento Renato Monteiro. As Aventuras de Hans Staden. São Paulo: Editora Brasiliense, 1954.
ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1986.
SAMÓSATA, Luciano. The True History. Edição on-line, <https://www.sacred-texts.com/cla/luc/wl2/wl211.htm> , consultado em 20/01/2020.
STADEN, Hans. Duas Viagens ao Brasil. Trad. Guiomar de Carvalho Franco. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 2008.
_______________. Zwei Reisen nach Brasilien. In die Sprache der Gegenwart übertragen von Karl Fouquet. São Paulo: Hans Staden- Gesellschaft, 1941.
TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América: a questão do outro. Trad. Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2019.
ZIEBELL, Zinka. Terra de Canibais. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2002.
2. VICUS JUDA: REDES DE COMÉRCIO JUDAICO NAS VILAS DE ALAGOAS NO PERÍODO NEERLANDÊS (1637 A 1646)
Justificativa
Um dos temas mais recorrentes na historiografia brasileira é o período da dominação neerlandesa no Norte do Brasil, que se concretizou em 1630 quando os flamengos ocuparam Olinda e Recife, estendendo sua ocupação até 1654 quando foram expulsos.
Com a ocupação neerlandesa veio a necessidade de uma nova estrutura econômica a favor dos flamengos, que aconteceu com a presença da WIC, mas que de fato concretizou-se com a chegada de Nassau em 1637, em que reorganizou a produção açucareira e o comércio de escravizados e de produtos coloniais nas regiões de produção de açúcar, e entre essas regiões temos Alagoas, em que estava interligada por uma rede de comércio judaico que se expandiu para suas vilas como Porto Calvo de Santo Antônio dos Quatros Rios, Alagoas do Sul e a vila de São Francisco de Penedo.
A exemplo, dessa rede de comércio temos os dez prisioneiros do Forte Maurício, em Penedo em 1645, no período das lutas pela restauração do domínio lusitano, em que identificamos que esses prisioneiros não era apenas homens comuns ou religiosos, mas comerciantes que movimentavam na parte austral de Pernambuco o comércio Atlântico de açúcar, escravizados, retalhos e gêneros coloniais.
Resumo
A presença judaica em Alagoas, parte periférica da Capitania de Pernambuco, sempre nos faz associar essa presença à questão da tolerância religiosa, ao tribunal de Inquisição em Alagoas ou as “proezas” de Nassau, mas nunca do ponto de vista econômico desenvolvido pelas redes de comércio sefarditas que se estabeleceu nas vilas de Alagoas ou da presença judaica desde do século XVI. Tomamos em questão, à princípio, aqui a Vila de São Francisco de Penedo e estenderemos para as demais vilas de Alagoas, que no período da dominação flamenga teve o comércio de mercadorias coloniais dinamizadas por essas redes clientelistas fazendo pensar que o intenso comércio na região de Alagoas era judaico e não neerlandês.
Plano de curso
Nós iremos empreender nossa pesquisa acerca de como era vista Alagoas pelos neerlandeses através do comércio judaico sefardita em Alagoas tendo como ponto de partida a vila de São Francisco de Penedo estendendo por outras vilas em Alagoas. O que nos mostra que os judeus não ficaram restritos apenas ao Recife e que essas personagens controlavam o intenso comércio de retalhos, imobiliário, produtos usuais da terra, açúcar, bem como o comércio de escravizados e da criação de gado naquelas cercanias.
Então, objetivamos analisar as redes de o comércio judaico desenvolvido nas vilas de Alagoas a partir da vila de São Francisco de Penedo e as demais vilas e a sua correlação com os embarques e desembarque de escravizados que viam de Olinda, Recife, Angola e Guiné através dos navios da WIC no comércio transatlântico do século XVII e com o comércio de açúcar e de produtos coloniais na região do sanfranciscana e as demais vilas de Alagoas.
Bibliografia e conteúdo
CARVALHO, Cícero Péricles de. Formação Histórica de Alagoas. Maceió, EDUFAL: 2015.
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FEITLER, Bruno. Nas Malhas da Consciência. Igreja e Inquisição no Brasil: Nordeste 1640-1750. Editora, São Paulo: Alameda: Phoebus, 2007.
HUTZ, Ana. Homens de nação e de negócios: redes comerciais no Mundo Ibérico (1580-1640). São Paulo, Intermeios, 2017.
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LINDOSO. Formação de Alagoas Boreal. Maceió, Impressa Graciliano Ramos, 2019.
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MELLO, José Antônio Gonsalves de. Tempo dos Flamengos: Influência da Ocupação holandesa na Vida e na Cultura do Norte do Brasil. Recife: Editora Pernambucana – Volume XV, 1978.
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TRIVELLATO, Francesca de. Familiaridade entre Estranhos. A diáspora sefardita, Livorno e o comércio transcultural da Idade Média. São Paulo, Editora Almedina, 2022.
WEHLING, Arno. Et al. Formação do Brasil Colonial. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1999.
3. A Venezuela no início do século XIX: bolivarianismo, antibolivarinismo e formação do estado moderno
Proponente
Matheus Amilton Martins (Doutorando/Universidade Estadual de Campinas)
Justificativa
O presente curso tem como propósito ofertar uma introdução a História da Venezuela no século XIX, num recorte que vai dos primeiros movimentos de independência (1810) às primeiras décadas do Estado venezuelano (1842). Para tanto, partindo de uma abordagem da História dos Discursos Políticos de Jonh Pocock e Elias Palti, daremos ênfase a análise de enunciados e projetos políticos, visando compreender o contexto histórico a partir dos debates públicos, dos programas e do imaginário das principais lideranças que alicerçaram o processo emancipatório e a fundação das Repúblicas nessa região da América Latina.
Resumo
Partindo da problemática levantada pelo fenômeno contemporâneo das fake News, a mesa proposta tem como objetivo estabelecer uma reflexão sobre o estatuto da informação nos espaços atlânticos ao longo da modernidade.
Plano de Curso
As aulas organizarão o recorte temporal abordado (1811-1842) em três segmentos, com os seguintes títulos: 1. O papel de Bolívar nas independências: guerra, discursos fundacionais e ordem social; 2. O ocaso da Grã-Colômbia e o desfecho trágico do Libertador; 3. Da Venezuela antibolivariana à apoteose do Libertador: fundamentos de um Estado pós-Simón Bolívar.
A primeira aula visa reconstituir a imagem de Bolívar como um ator político inserido em seu tempo a partir da análise de seus discursos políticos em seus respectivos contextos de enunciação. Por um lado, o Libertador atuou como um pensador de raízes iluministas, defensor proeminente de um ideário de liberdades públicas, que buscou cativar a participação do povo nas guerras de independência. Por outro, assumiu uma postura militarista, aristocrática e desconfiada do papel que os setores populares poderiam desempenhar na política, quando tentou influenciar a constitucionalidade das Repúblicas que fundou. Nesse sentido, examinar o Manifiesto de Cartagena (1812), a Carta de Jamaica (1815) e o Discurso del Congreso de Angostura (1819), nos fornecerá entradas oportunas para entender o personagem em seus próprios termos e contradições.
A segunda aula pretende examinar o colapso do projeto bolivariano da Grã-Colômbia, desde as ambições separatistas do generalato libertador aos temores de uma autocracia militarista encabeçada pelo Libertador. Nesse ínterim, enfatizaremos o exílio e a morte de Bolívar, em 1830, como o desfecho trágico do itinerário de uma liderança política controversa entre seus contemporâneos, mas que, na posteridade, seria heroicizada e sacralizada a exaustão pela História Pátria.
Na última aula, discutiremos a transição da conformação do debate público venezuelano: de um Estado fundado por um pacto antibolivariano entre as elites locais, a um país no qual se disputava o legado de Bolívar como chancela aos diferentes projetos de modernidade política apresentados à sociedade. As honras fúnebres a Bolívar em Caracas, em 1842 — 12 anos após sua morte — são um episódio singular para a metamorfose dessa cena política. Afinal, nesse evento, enquanto os Liberais reclamavam a posição de herdeiros de Bolívar e daí derivavam sua legitimidade como partido de oposição, o Governo renunciava a uma década de antibolivarianismo para apresentar uma imagem do Libertador como o herói da ordem e da manutenção da institucionalidade.
Acompanhar as mudanças da imagem do Libertador, ao sabor do debate público, ajuda a corroborar o argumento autoral desse curso: o bolivarianismo não funcionou como uma ideologia — isto é, um ideário mais ou menos coerente e uniforme entre si —; mas sim como uma linguagem política que articulou os discursos da intelligentsia e o louvor popular ao herói. Em outras palavras, nossa pretensão é apresentar o bolivarianismo como base de uma comunicação social que proporcionou condições para a enunciação e compreensão de disputas políticas, críticas, práticas ou projetos, que fundamentaram a existência da Venezuela como um Estado moderno.
Bibliografia e conteúdo
ALBARADO TENORIO, H. (1991) Bolívar: Literatura y Política. In: Literatura Horizontes Vol. 34 Núm. 34, https://revistas.javeriana.edu.co/index.php/univhumanistica/article/view/10025/8249
BOLÍVAR, S. [1812]. Manifiesto de Cartagena. In. BOLÍVAR, S. (2007) Discursos y Proclamas. Caracas. Biblioteca Ayacucho.
BOLÍVAR, S. [1815]. Carta da Jamaica. In: BELLOTTO, M. L.; CORRÊA, A. M. M. (Org.) (1983). Simón Bolívar: Política. São Paulo: Editora Ática, p. 74–90.
BOLÍVAR, S. [1819]. Discurso al Congreso de Angostura. In. BOLÍVAR, S. (2007) Discursos y Proclamas. Caracas. Biblioteca Ayacucho.
BOLÍVAR, S. [1830]. Carta ao General Juan José Flores. In: BELLOTTO, M. L.; CORRÊA, A. M. M. (Org.). (1983). Simón Bolívar: Política. São Paulo: Editora Ática, p. 190.
CARRERA DAMAS, G. (2003) El culto a Bolívar: esbozo para un estudio de la historia de las ideas en Venezuela. Caracas: Instituto de Antropologia e Historia, Universidad Central de Venezuela.
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FREDRIGO, F. de S. (2009). O discurso da renúncia e a memória da indispensabilidade no epistolário bolivariano: entre os limites da liberdade e o desencanto com a independência nas Américas. Revista Ágora. n. 9, p. 1–23.
FREDRIGO, F. de S. (2010). Guerras e Escritas: a correspondência de Simón Bolívar (1799-1830). São Paulo: Ed. UNESP.
HARWICH VALLENILLA, N. (2003). Un héroe para todas las causas: Bolívar en la historiografía. Iberoamericana, v. III, n. 10, p. 7–22.
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QUINTERO, I. (2009) A independência da Venezuela: resultados políticos e alcances sociais. In: PAMPLONA, M. A.; MÄDER, M. E. N. de S. (Org.). (2009) Revoluções de independência e nacionalismo nas Américas. São Paulo: Terra e Paz, V. 3, p. 109–134.
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3. A HISTÓRIA DO BRASIL COLONIAL EM PERSPECTIVA: TENDÊNCIAS HISTORIOGRÁFICAS, METODOLOGIAS E FONTES
Proponente
Estevam Henrique dos Santos Machado (Doutor/SEDUC/AL)
Resumo
Durante sessenta anos duas leituras filo-marxistas disputaram e se sucederam na busca por uma hegemonia do pensamento, da pesquisa e do ensino do Brasil colonial. Essas leituras paradigmáticas estavam pautadas nos pensamentos de um lado, de Caio Prado Júnior e o seu “sentido da colonização” e de outro de Ciro Cardoso e Jacob Gorender que na década de 70 criaram a perspectiva do “modo de produção escravista colonial”. Num ponto de vista teleológico, Caio Prado assinala que as características inerentes à nação no início de seu desenvolvimento irão apontar para uma realidade específica pré-determinada, sempre num sentido, ou como o próprio falava numa “linha mestra ininterrupta de acontecimentos” esta fadada a uma orientação final. Logo essa interpretação vai se aliar à ideia de um sistema fechado existente na América portuguesa de subordinação da colônia em relação à metrópole, o que se denominou Pacto Colonial. Aliado a esses aspectos surge uma simplificação do sistema colonial brasileiro, sendo este composto por três unidades básicas: monocultura, latifúndio e trabalho escravo. Esses esquemas explicativos vão ser retomados e melhor embasados por Fernando Novais, que recoloca o Antigo Sistema colonial Mercantilista no debate historiográfico. Nesse viés, aspectos como metrópole e colônia, exploradores e explorados, desenvolvidos e subdesenvolvidos, servem à lógica da dialética marxista e encontra força nos intelectuais da época seguidores dessa doutrina ideológica. Contestando Caio Prado, porém ainda no âmbito marxista, Ciro Cardoso e Jacob Gorender vão se fixar na escravidão como principal aspecto para se entender as dinâmicas da América portuguesa, pautando sua hipótese na compreensão de uma sociedade a partir de sua estrutura social, além disso, irão ser críticos ferrenhos do sentido teleológico empregado por Caio Prado. No outro lado do Atlântico, na década de 1980, a historiografia italiana tenta (re)significar conceitos como Estado, Centralização, Poder Absoluto e Império. Pautada tanto no marxista Antônio Gramsci como no conservador Otto Brunner, essa visão revisionista angaria novos seguidores na península Ibérica, dentre eles os espanhóis Bartolomé Clavero e Fernandez Albadejo e os portugueses António Manuel Hespanha, Nuno Monteiro, Maria Fernanda Olival, Pedro Cardim, Ângela Xavier, entre outros. O historiador do Direito António Manuel Hespanha, em especial traz para o debate o conceito de Monarquia Corporativa, partindo do pressuposto que esta não detinha o poder absoluto, já que dividia o espaço político com poderes inferiores – famílias, municípios, corporações – e superiores – a Igreja. Concatenado a esses aspectos havia uma a doutrina jurídica mista, que utilizava tanto o Direito Comum europeu quanto o Consuetudinário, além, é claro, do Direito Canônico. Atrelado a esses problemas institucionais vinha uma característica portuguesa de que os deveres políticos e jurídicos cedem espaço para os deveres morais e afetivos – o que Sérgio Buarque de Holanda denominou de “homem cordial”. No Brasil, nas décadas de 1980 e 1990 com a proliferação dos programas de pós-graduação no país é realizada uma série de pesquisas que começam a contradizer o que havia sido postulado pelos historiadores clássicos marxistas. As noções como Pacto e Exclusivo colonial, assim como a tese de haver uma acumulação exógena da riqueza criada na colônia, são refutadas baseadas na documentação, nos textos jurídicos e na própria observação da logística do império português. Percebe-se uma pluralidade maior de atores sociais influenciando nas tomadas de decisões e uma metrópole “menos” absoluta. Outra contribuição dessa historiografia é a de perceber o Império português não apenas como um conjunto de localidades integradas onde se circulavam escravos e mercadorias, mas entender que este era uma rede onde circulavam práticas, crenças e modelos culturais e artísticos. Acrescentando ainda mais às discussões houve um retorno aos trabalhos clássicos de brasilianistas como Boxer, Russell-Wood, Maxwell, kennedy, entre outros, que por não estarem presos às amarras teórica-metodológicas haviam sido postos no esquecimento pelos historiadores marxistas. Trazer as propostas de António Manuel Hespanha, Nuno Monteiro, João Fragoso, Manolo Florentino, Fernanda Bicalho, Fernanda Olival, entre outros para a sala de aula é proporcionar ao aluno em primeiro lugar uma visão mais ampla daquilo que foi se tornando o Império Ultramarino Português. Estas discussões consolidadas embasam, agora, uma a maior disponibilidade de fontes via internet como, por exemplo, o Projeto Resgate Barão de Rio Branco, em que contém os documentos do Arquivo Histórico Ultramarino referente a todas as capitanias da América portuguesa. O presente minicurso pretende realizar uma discussão historiográfica, apresentando, também, diversos acervos on line disponíveis, com o intuito de auxiliar jovens pesquisadores a encontrarem possibilidades temáticas e metodológicas de trabalhos na área de Brasil Colonial.
BIBLIOGRAFIA BÁSICA
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FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. O arcaísmo como projeto: Mercado atlântico, sociedade agrária e elite mercantil em uma economia colonial tardia, Rio de Janeiro, c.1790 – c. 1840. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2001.
FRAGOSO, João; BICALHO, Maria Fernanda; GOUVÊA, Maria de Fátima (orgs.). O Antigo Regime nos trópicos: A dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI – XVIII). 2.ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
FRAGOSO, João; GOUVÊA, Maria de Fátima (orgs.). Na trama das redes: Política e negócios no império, séculos XVI-XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
HESPANHA, António Manuel. Depois do Leviathan. Almanack Brasiliense, nº 5 maio de 2007.
OLIVAL, Fernanda. As Ordens militares e o Estado Moderno: Honra, Mercê e Venalidade em Portugal (1641 – 1789). Lisboa: Editora Estar, 2001.
RAMINELLI, Ronald. Viagens Ultramarinas: Monarcas, vassalos e governo à distância. São Paulo: Alameda editorial, 2008.
RAMOS, Rui (coord.); SOUZA, Bernardo Vasconcelos e; MONTEIRO, Nuno Gonçalo. História de Portugal. Lisboa: Esfera dos Livros, 2010, p.345.
ROCHA PITA. História da América Portuguesa. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Limitada, 1976,
RUSSEL-WOOD, A. J. R. Centros e Periferias no Mundo Luso-Brasileiro,1500-1808. Rev. bras. Hist. vol. 18 n. 36 São Paulo, 1998.
SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo: Companhia das letras, 1988
SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Ser nobre na Colônia. São Paulo: Editora Unesp, 2005
SOUZA, George F. Cabral de. Tratos e Mofatras: O grupo mercantil do Recife colonial (c. 1645 – c.1759). Recife: Editora Universitária UFPE, 2012.
SOUZA, Laura de Mello e. O sol e a sombra: política e administração na América portuguesa do século XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2006