Essa é, no fim das contas, a grande pergunta. Já sabemos muitas coisas sobre neutrinos, previstas e descritas pela física atual. No entanto, se quisermos desenvolver aplicações práticas e construir tecnologias baseadas nessas partículas, precisamos compreender com precisão seus processos e interações. Esse esforço pode levar tanto à confirmação das teorias existentes quanto à descoberta de uma nova física.
Os físicos exploram essas possibilidades em grande detalhe, elaborando previsões para os dados que serão obtidos pelos detectores do Deep Underground Neutrino Experiment (DUNE) em diversos cenários teóricos. Vamos, então, ao que já sabemos sobre os neutrinos.
Em muitos aspectos, os neutrinos são partículas especiais. Em primeiro lugar, possuem massas extremamente pequenas — várias ordens de magnitude menores que as de todos os outros férmions conhecidos (partículas usuais, como prótons e elétrons). Embora medições diretas de suas massas sejam extremamente desafiadoras, sabemos que elas não são nulas: neutrinos só podem oscilar entre diferentes estados se possuírem massa. Isso nos leva a perguntas fundamentais: quais são as massas dos três sabores de neutrinos? E ainda: existem realmente apenas três sabores?
Os neutrinos também não interagem por meio de forças elétricas ou magnéticas e não participam de interações fortes. Entre as quatro forças fundamentais conhecidas — gravitação, eletromagnetismo, força forte e força fraca — eles interagem principalmente por meio da força fraca, e de forma extraordinariamente rara.
Por exemplo, neutrinos produzidos em reatores nucleares, com energia típica de Eν∼1Eν∼1 MeV, têm probabilidade da ordem de 10⁻¹⁸ de interagir ao atravessar um detector sólido com espessura de um metro. Mesmo ao atravessar toda a Terra ao longo de uma trajetória que passa por seu centro, a probabilidade de interação é de apenas cerca de 10⁻¹¹.
Os neutrinos são, portanto, partículas “elusivas”, que interagem muito pouco com a matéria. Poder-se-ia imaginar que são insignificantes. No entanto, eles existem em quantidades imensas. Vivemos imersos em um verdadeiro banho de neutrinos produzidos quando o Universo era quente e jovem. A densidade numérica média dos neutrinos cosmológicos é de aproximadamente 336 por centímetro cúbico, e dentro de nossa galáxia esse valor pode ser ainda maior devido aos efeitos gravitacionais sobre os neutrinos — um fenômeno que ainda não é completamente compreendido.
Além desses, cerca de 60 bilhões de neutrinos solares, produzidos no núcleo do Sol, atravessam cada centímetro quadrado do nosso corpo a cada segundo. Os neutrinos são a segunda partícula mais abundante do Universo; em primeiro lugar estão os fótons.
Essa combinação — atravessar a matéria quase sem interação e, ao mesmo tempo, existir em enorme abundância — é única. Enquanto os fótons podem levar cerca de 100.000 anos para sair do Sol desde seu núcleo, os neutrinos levam menos de um segundo, oferecendo uma perspectiva única dos processos que ocorrem em seu interior.
Além disso, um número verdadeiramente extraordinário de neutrinos —
∼ 10.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000 = 10^(58)
— é emitido poucos segundos após o colapso gravitacional de uma estrela massiva, evento que desencadeia uma explosão de supernova. Esses neutrinos fornecem uma oportunidade única para explorar fenômenos extremos do cosmos. Para isso, porém, é essencial compreender profundamente suas propriedades.
Compreender quais dados serão observados nos detectores a partir dos neutrinos produzidos depende do entendimento dos processos pelos quais essas partículas passam ao longo de seu percurso. Muitas vezes, esse é o trabalho de um físico: imaginar diferentes cenários possíveis e verificar qual deles melhor reproduz os dados observados nos detectores.
Se os neutrinos oscilam apenas entre seus três sabores conhecidos, a relação entre os sabores e os estados de massa dos neutrinos é descrita pela chamada Matriz PMNS:
A matriz 3 × 3 apresentada na equação acima, chamada Matriz PMNS e representada pela letra U, já foi amplamente estudada, e seus coeficientes foram determinados experimentalmente com boa precisão.
No entanto, permanece uma questão importante: e se outros fenômenos ocorrerem com os neutrinos ao longo de sua trajetória? Que novos efeitos poderiam estar presentes?
Físicos brasileiros, como Célio Moura, João Melo e André Steklain, participam de pesquisas que buscam investigar possíveis desvios do comportamento esperado, explorando cenários conhecidos como Interações Não Padrão (NSI).
Nesse caso temos termos adicionais relacionando as oscilações, dados como outras matrizes, que precisam ter seus coeficientes estimados:
As simulações e estudos desenvolvidos pelos físicos brasileiros e de outros países permitem estimar relações entre esses valores, que serão testadas contra os dados experimentais, para descobrir quais hipóteses se enquadram melhor na realidade.
As figuras abaixo mostram plots dos valores admissíveis para essas constantes no experimento.
Caso seja comprovada a existência de Interações Não Padrão, elas implicarão em melhorias nos valores das constantes que geram a matriz PMNS, como ilustrado nas imagens abaixo.