Educação física, saúde e uso de tecnologias digitais de informação e comunicação.
Educação física, saúde e uso de tecnologias digitais de informação e comunicação.
07 de abril de 2025
José Cícero Pereira da Silva
Quando se trata da atuação do profissional de Educação Física (PEF) no uso de Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs) pela população, o que vem à sua mente? Pode-se dizer que muitos têm dificuldades em associar esses dois temas, enquanto outros possuem uma visão um pouco sensacionalista sobre essa relação. Isso é compreensível, considerando que, muitas vezes, os próprios PEFs contribuem para essa rotulação. Segundo Fabiano et al. (2010), “Estudos na área são conduzidos, predominantemente, a partir de abordagens quantitativas e experimentais, na busca de uma almejada relação causal entre atividade física e incidência de doenças - traços característicos das ciências positivas.”
Refletir sobre a atuação dos profissionais de Educação Física diante das TDICs vai além de frases motivacionais como “não ao sedentarismo” ou de discursos sobre os perigos das telas e os benefícios da movimentação para a saúde. É claro que essas pautas são extremamente importantes, mas a Educação Física não se limita apenas à prescrição de exercícios físicos.
A Educação Física deve educar sobre saúde, pois está inserida nesta área do conhecimento. Portanto, é fundamental estar atento às transformações que ocorrem na saúde com o avanço das tecnologias digitais, já que essa é a realidade do presente e do futuro.
Você pode estar se perguntando: como, então, a Educação Física atua na interface entre saúde e TDICs? Para compreender melhor essa questão, é necessário, primeiro, entender o que é saúde. Segundo o paradigma biomédico tradicional, saúde é a ausência de doença. No entanto, Caponi (2003) tem uma visão diferente desse modelo estático. Para ele, a saúde não deve ser vista de forma isolada ou fragmentada, mas sim como um conceito amplo que envolve o corpo como um todo e sua interação com o ambiente externo, incluindo aspectos físicos, emocionais e sociais. Por isso, temas como educação e alfabetização midiática, saúde digital e bem viver devem ser abordados por profissionais da saúde, tanto em ambientes formais quanto informais (Brasil, 2023).
Levando em consideração a visão ampliada de saúde proposta por Caponi, devemos estar atentos aos avanços tecnológicos e à constante transformação da dinâmica da vida. A cada dia estamos mais conectados às TDICs. Mas isso representa uma dependência ou uma forma de independência? A resposta é relativa, mas não há como negar que essas tecnologias já fazem parte do nosso cotidiano como já citado.
Crianças nascem inseridas nesse contexto: bebês têm perfis em redes sociais antes mesmo de compreenderem o que isso significa, tablets tornam-se seus brinquedos favoritos e o YouTube, o melhor aliado das mães para entretê-los. Por outro lado, a população idosa, mesmo tendo acesso a esses recursos, ainda demonstra grande resistência ao uso das tecnologias.
A Educação Física e outras áreas da saúde precisam garantir que todos estejam familiarizados com as TDICs, pois é por meio delas que o mundo se comunica e compartilha informações. Estar inserido nesse meio pode ser uma forma de preservar a autonomia, mas não basta apenas fornecer um celular ou um dispositivo digital e esperar que o usuário consiga utilizá-lo de maneira instrumental e segura. Por isso, estratégias de educação midiática são essenciais para todos os públicos, tornando-os usuários mais críticos e conscientes.
Além das atividades instrucionais, a Educação em Saúde engloba também iniciativas para promover mudanças no comportamento individual em relação à saúde, além de envolver esforços organizacionais, diretrizes políticas, intervenções ambientais e programas comunitários. (Velardi, 2003).
Um exemplo simples é como a falta de inclusão digital pode excluir pessoas idosas de diversas atividades. Hoje em dia, praticamente tudo é organizado por meio de grupos no WhatsApp para o repasse de informações e até registro dos momentos. Caso alguém não tenha acesso, acaba ficando de fora. Como uma pessoa pode se organizar para ir ao posto de saúde ou para a aula de ginástica sem antes verificar, em um aplicativo, o horário do ônibus? Ou como pode solicitar um Uber, se os táxis estão cada vez mais raros?
A saúde tem passado por constantes atualizações, e um exemplo disso é a plataforma Meu SUS Digital, criada para facilitar o acesso a informações de saúde, trazendo todos os dados diretamente para o usuário. Consultar o histórico de vacinação, exames médicos, agendar atendimentos, acessar receitas médicas digitais e obter informações sobre unidades de saúde são algumas das funcionalidades disponíveis, permitindo que muitos procedimentos sejam feitos sem precisar sair de casa. No entanto, como garantir que as pessoas consigam acessar a plataformas de saúde se não souberem utilizar essas tecnologias de forma instrumental? Além disso, é essencial desenvolver um olhar crítico para evitar transtornos nesse novo ambiente digital. Isto é um dever multidisciplinar.
Imagem gerada por inteligência artificial (Copilot da Microsoft) em abril de 2025.
Texto produzido pelo discente José Cícero Pereira da Silva, como parte das atividades de Iniciação Científica do autor e teve sua concordância e ortografia revisadas por inteligência artificial.
Referências
BRASIL, Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Estratégia Brasileira de Educação Midiática. Brasília: Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República - 1ª versão. 2023.
MARQUES, Fabiano et al. Educação física na promoção da saúde: para além da prevenção multicausal. Campinas: Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte – Volume 9, número 2, 2010.
Caponi, S. A saúde como abertura ao risco. In: Czeresnia, D.; Freitas, C.M. (Org.). Promoção da saúde. Conceitos, reflexões e tendências. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2003. p.55-78.
Velardi, M. Pesquisa e ação em educação física para idosos. Tese (Doutorado). Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. 2003.