Assim que começaram a filmar, os jovens e pajés Tikmũ’ũn demonstraram que viam os povos lagarta-espírito como a máquina cinematográfica por excelência. Diferentes aldeias filmaram a chegada dos povos lagarta-espírito inaugurando os primeiros documentários do cinema Tikmũ’ũn. Os povos-espíritos Tatakox são responsáveis pelos trânsitos entre o mundo visível e invisível, a vida dos vivos e a vida dos mortos. Quando soam as flautas-taquara e os Tatakox surgem, uma disjunção se instaura entre o campo visível e aquilo que permanece invisível no fora-de-campo – de onde chega o enxame dos aerofones das lagartas-espírito. Tatakox são os povos-espíritos capazes de ir até onde os mortos estão, invisíveis, e trazê-los até aquelas que esperam para vê-los por um momento de pranto e de cuidado. Uma atenção especial dos mais velhos segue os passos das câmeras dos jovens e os saltos dos Tatakox que apresentam as crianças mortas às suas mães. Podemos dizer que os filmes Tatakox de Aldeia Verde e da Aldeia Vila Nova trouxeram, com sua radicalidade, algumas novas questões sobre o estatuto do visível e da própria imagem no cinema.
Isael Maxakali filma a chegada do grupo de lagartas-espírito na Aldeia Verde (Ladainha/MG), trazendo as crianças-mortas-espírito para que as mães lembrem-se de suas próprias crianças falecidas e chorem no ritual. São ainda as lagartas-espírito que levam os meninos para a reclusão no Kuxex, a casa em que os Tikmũ'ũn recebem os povos-espíritos da Mata Atlântica.
Inspirados pelo filme de Aldeia Verde, os Tikmũ'ũn do Pradinho (Bertópolis/MG) resolvem filmar a chegada do grupo de lagartas-espírito no momento em que exumam as crianças-espírito mortas para levá-las às mães e meninas na aldeia. O ritual e a própria filmagem são conduzidos pelos pajés Manuel Damásio e Toninho Maxakali, além do cacique Guigui, que dirige o cinegrafista João Duro Maxakali em cena.
As lagartas-espírito que vivem na terra, Tatakox, chegam novamente à Aldeia Verde (Ladainha/MG) para levar os meninos que serão iniciados aos conhecimentos dos Yãmĩyxop. A partir de então, eles poderão frequentar a casa-de-religião (Kuxex) – conviver, alimentar e aprender com os povos-espírito.