Medicina popular: benefícios e malefícios das plantas medicinais
INTRODUÇÃO
O uso de remédios à base de ervas remonta às tribos primitivas em que as mulheres se encarregavam de extrair das plantas os princípios ativos para utilizá-los na cura das doenças. À medida que os povos dessa época se tornaram mais habilitadas em suprir as suas necessidades de sobrevivência, estabeleceram-se papéis sociais específicos para os membros da comunidade em que viviam. O primeiro desses papéis foi o de curandeiro. Esse personagem desenvolveu um repertório de substancias secretas que guardava com zelo, transmitindo-o, seletivamente, a iniciados bem preparados(1).
Os primeiros registros fitoterápicos datam do período 2838-2698 a.C. quando o imperador chinês Shen Nung catalogou 365 ervas medicinais e venenos que eram usados sob inspiração taoísta de Pan Ku, considerado deus da criação. Esse primeiro herbário dependia da ordenação de dois pólos opostos: yang - luz, céu, calor, esquerdo; e o yin - trevas, terra, frio, direito. Por volta de 1500 a C. a base da medicina hindu já estava revelada em dois textos sagrados: Veda (Aprendizado) e Ayurveda (Aprendizado de Longa Vida)(1, 2).
No século XIX o empirismo da alquimia foi suplantado pela química experimental que permitiu a síntese laboratorial de novas substâncias orgânicas. Esse fato foi um dos fatores determinantes da revolução industrial e tecnológica que desencadeou a produção acelerada de novos medicamentos e à medida que derivados mais puros e concentrados de plantas se tornaram disponíveis os médicos priorizaram as drogas sintéticas e passaram a desconsiderar o papel importante da fitoterapia(1,3).
O advento da medicina científica contribuiu para o aumento da sobrevida humana. E, no cotidiano das práticas de saúde, a aplicação de princípios científicos desencadeou a descoberta de terapêuticas que melhoraram a qualidade de vida das pessoas. Esse avanço da ciência fez com que o paradigma cartesiano passasse a ser adotado para explicar o processo saúde-doença. Contudo, desde o século XX, esse paradigma vem cedendo espaço ao paradigma holístico graças às teorias de Einstein. Para esse cientista a matéria é uma manifestação de energia. Os seres humanos são formados de matéria e os seus vários sistemas energéticos interagem entre si e com o meio, formando um todo que deve sempre estar harmonizado. O todo só estará harmônico se o complexo mente-corpo-meio ambiente estiver em equilíbrio(4,5).
A fitoterapia permite que o ser humano se reconecte com o ambiente, acessando o poder da natureza, para ajudar o organismo a normalizar funções fisiológicas prejudicadas restaurar a imunidade enfraquecida, promover a desintoxicação e o rejuvenescimento.
Médicos e pacientes nem sempre conseguem literatura adequada para avaliar devidamente as vantagens e os riscos desta prática terapêutica, sobretudo quando seu maior emprego é estimulado por práticas médicas não convencionais, como Medicina chinesa, Medicina holística, terapêutica médica indiana, macrobiótica, entre outras. As pessoas costumam utilizar os produtos do reino vegetal, seja como complemento alimentar, suplementos energéticos ou vitamínicos, baseando-se nas informações da mídia. Em se tratando do processo saúde-doença, a fitoterapia é amplamente utilizada pela população campesina, mas nos meios industrializados quem a utiliza costuma fazê-lo de forma velada para não se expor às atitudes críticas dado que esse tipo de medicina submete-se ao controle da medicina oficial(6).
Estudos sobre a medicina popular vêm merecendo atenção cada vez maior devido ao contingente de informações e esclarecimentos que vem sendo oferecido à Ciência. Esse fenômeno tem propiciado o uso de chás, decoctos, tisanas e tinturas fazendo com que, na maioria dos países ocidentais, os medicamentos de origem vegetal sejam retomados de maneira sistemática e crescente na profilaxia e tratamento das doenças, ao lado da terapêutica convencional(2).
Percebe-se, na atualidade, o interesse governamental e profissional em associar o avanço tecnológico ao conhecimento popular e ao desenvolvimento sustentável visando a uma política de assistência em saúde eficaz, abrangente, humanizada e independente da tecnologia farmacêutica. Nesse sentido, o Estado brasileiro instituiu a Portaria nº22/1967 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária e a Resolução-RDC nº17/2000 que classifica os fitoterápicos como medicamentos(7).
Paralelo ao interesse governamental em debater a comercialização dos fitoterápicos, a adesão da população a esses produtos incrementou a sua comercialização de modo que o Estado precisou regulamentar esse mercado editando a Resolução RDC nº 17/00, que estabelece os parâmetros de qualidade para o registro desses produtos junto ao Ministério da Saúde(7).
Ao tomar por base que o uso de fitoterápicos é uma prática utilizada por alguns profissionais da saúde. Que esses profissionais, também associam o uso dos alopáticos com o de fitoterápicos. E que a população utiliza-se dos fitoterápicos respaldando-se na tradição cultural, pergunta-se: existe a possibilidade de os fitoterápicos interagirem com os medicamentos alopáticos modificando ou anulando a ação terapêutica de um ou de ambos? Os herbolários tradicionais ensinam, corretamente, aos usuários, como armazenar e utilizar as plantas medicinais? Eles mencionam, corretamente, as indicações e contra-indicações das plantas?
Considere-se, ainda, que os profissionais de Enfermagem atuam nos programas de saúde onde exercitam a Consulta de Enfermagem, momento em que podem orientar os usuários interessados em utilizar a medicina natural. Como esse conhecimento costuma ser obtido, com maior freqüência, pela tradição oral, a sua indicação profissional precisa estar respaldada em bases científicas.
Face ao exposto, essa investigação pretendeu alcançar os seguintes objetivos: verificar se os herbolários atuantes na cidade de Campina Grande-PB oferecem as informações necessárias à utilização correta das plantas medicinais; se orientam os clientes acerca da possibilidade de intoxicação ou de interação com os alopáticos; e se utilizam critérios para a comercialização dos fitoterápicos.
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672008000200009