VENCEDORA
Gabriela Guilherme Pereira
Cidade do Concreto
No caminho para o mercado, mentalizava o que compraria. Uma caixa de leite, para tomar como café na manhã seguinte. Sinal de pedestre fechou. Um tomate, dependendo do valor, para usar de recheio no pão. De súbito, deu um passo para trás, quase o carro lhe atropela se ficasse onde estava. Quem sabe um chocolate se sobrar um trocado. O fluxo dos automóveis parou, aproveitou a brecha para correr para o outro lado. Não que estivesse atrasada, mas queria chegar logo em casa. Conhecia o trecho, sabia quais semáforos deveria esperar e quais poderiam ser burlados. E essa maratona toda cansava o corpo e a mente. Talvez comprar também uma alface para complementar o tomate. Observava, quando era permitido, a cidade em que andava. Os postes com seus fios de telefonia soltos na rua, o banco de concreto quebrado no assento, os carros parados em todas as vagas, e até onde não eram. Mas gostava mesmo de olhar os prédios antigos, que traziam personalidade para a rua. Não costumavam passar dos 3 andares, tinham ornamentos, grades, até um pouco de cor. Um, branco e azul recém reformado. Outro era avermelhado, com o preto do mofo subindo as arestas. Além daquele no final da rua, verde desbotado e descascando. Um tinha ainda os muros feitos de cacos de lajota, muito comum de serem utilizados nos anos 80. As cores vermelho, amarelo e preto, davam o ar de reconforto de casa de vó. Aos poucos, esses pequenos edifícios eram colocados abaixo para que caixotes de concreto armado, com todos os andares permitidos no plano diretor do município, se erguessem. Ela percebia essas mudanças que aconteciam na paisagem. E toda vez que um novo prédio era construído, sentia em si, o peso de todos os pavimentos. Lhe sufocava o cinza das paredes e os vidros nas fachadas que refletiam o sol na calçada.
Aquele era um dos dias mais quentes registrados. Ninguém sairia de casa, se não precisasse. Mas precisava. De leite, tomate, alface e chocolate. No asfalto podia-se observar as ondas de calor subindo. E o sol na pele não era reconfortante, na verdade doía, ardia. Com o mormaço ficava difícil de respirar, parecia engolir o ar. O suor escorria em sua pele. A água que levava já estava morna. Nem uma brisa conseguia penetrar a cidade. O ar-condicionado de dentro do mercado vai dar uma aliviada. Aguardava o sinal abrir. O fluxo de automóveis não diminuía o suficiente para que corresse dessa vez. Com o passar de motos, ônibus latas de sardinha, e carros de aplicativo, foi perdendo a paciência. Pôs-se a olhar para cima, buscando algo para olhar. E a ondulação no ar confundia sua visão. Lhe dava a impressão de ver os prédios derretendo com o calor que atingia sua superfície. Tirou os óculos, limpou na blusa. Colocou de novo. Sim, realmente. A miragem que tinha, dava a impressão de que o imenso quadrado sem vida sedia a alta temperatura do dia. Seu sinal abriu e pôs-se a andar novamente. Pouco antes de chegar na calçada, um vidro despencou do prédio a sua frente, e quase a acertou. O coração disparou, sentiu adrenalina por todo o corpo, seus pelos se arrepiaram. Voltou a olhar para cima, procurando de onde teria caído o objeto. Dessa vez, tinha certeza do que via. O prédio estava, de fato, derretendo. E não somente esse, mas todos. A cidade sucumbia. Os automóveis continuavam em seus ciclos sem fim. As pessoas atrasadas, passavam correndo nas faixas. Nada havia mudado, ninguém se alarmou. Mas tinha certeza do que via. Os antigos prédios se fundiam ao bloco cinzento dos novos. Outros vidros começaram a cair, o barulho era ensurdecedor. A massa de concreto escorria pelo aço, deixando somente o esqueleto para trás. O ar, que com dificuldade era engolido, não passava mais de jeito nenhum por seus pulmões. Encostou-se em uma parede próxima ao tentar se segurar. Sentiu a areia, a água, o próprio cimento se desfazendo, voltando a como foram retirados da terra. Os prédios atrás dos derretidos começavam a aparecer a vista, para logo sucumbir junto ao da frente que o escondia. Não podia se mexer. Não tinha como respirar. Diante do mar de concreto, sentiu que se fundia a ele.
Os olhos fechados, escuridão completa. Não sentia nada, nem o arder da pele ou o suor escorrendo. Um último suspiro entrou pelos seus pulmões, um ar espesso. Até que de súbito, uma claridade em seus olhos e com dificuldade abriu. O reflexo era do sol no vidro, que a pouco tinha caído no seu pé. Ele estava no devido lugar. E ela estava esperando o sinal abrir para atravessar a calçada. O leite para acompanhar o café, o tomate e alface para o lanche, e com certeza vou comprar um daqueles chocolates ao leite. O suor ainda escorria em sua testa, o sol ainda ardia em sua pele. Só queria chegar em casa e descansar.
2º LUGAR
Leon Ilitch Sopko
Coordenador de Assistência ao Aluno do IFSP-CJO
A Grandeza do Delírio
“a grandeza não é herdada ou conquistada, é concedida ao se reconhecer menor que o mundo”
- Incorreto, novamente. O ponto culminante do hemisfério Sul é o Aconcágua, você sabe pelo menos qual a cor do Sol?
- Uh… esverdeado?
- Esverdeado?! Você sabe o que é isso?
Professor Haushofer retirou do bolso de sua camisa uma plaqueta de metal, não maior do que uma carta de baralho. Sua camisa era cinza, com um caimento perfeito em seu corpo esguio, botões de madeira ornavam a camisa monocromática, que abotoada até o pescoço, demonstrava disciplina e vaidade. Suas calças também grisalhas, exalavam alfaiataria, sua soberba não se limitava à vestimenta, seu cabelo fora exaustivamente penteado, para que nem um único fio desalinhado reduzisse a sua autoridade.
Ergueu a plaqueta acima de sua cabeça, por conta de seu tamanho reduzido, nenhum dos alunos conseguiu distinguir o que ali representava, porém não havia importância, uma vez que não pretendia-se ilustrar, demonstrar ou explicar nada, apenas havia o desejo de que a plaqueta emanasse um ideal de nobreza e superioridade.
Os alunos já viram essa cena diversas vezes, e encaravam o esperneio do professor com morosidade. A plaqueta era herança do avô do docente, supostamente presenteada por um cientista alemão em 1927 para seu colega, após a publicação de um livro. Não era relevante quem foi esse cientista, nem o contexto político da publicação da obra ou seu impacto para a ciência. Não importava o desenho em alto relevo na plaqueta, um microscópio eletrônico.
A plaqueta servia apenas para representar a opulência, pois era de prata; e a herança, pois consagrava a tradição das belas artes e estudos científicos da família do professor. O efeito era legitimar a autoridade pela contradição, uma vez que a opulência recordava a inesquecível miséria daqueles alunos, e a herança os convidava a imergir novamente no que o professor não lhes permitia escapar: a ideia de inferioridade e insignificância.
O Professor Johann Haushofer usava a tradição como pedestal, seus olhos azuis demarcavam, tanto quanto histórias ditas durante o jantar, o orgulho de sua linhagem, fruto da sujeira de um período podre da história. Tradições tinham que ser mantidas, seu avô e seu pai eram geógrafos, logo ele também teria de ser. Nunca cruzou pela sua cabeça que as tradições podem tornar-se obsoletas, pois não há obsolescência para o orgulho, a tradição não bebia da funcionalidade da repetição, mas sim do delírio de grandeza, que para ser nobre, bastaria ter nascido com um certo sobrenome.
Desta vez a ira do professor era excepcionalmente gritante, seu rosto estava rubro e sua feição ilustrava a raiva e o desprezo que sentia por seus alunos. Sentia saudades da Baviera que nunca conheceu, frustrava-se em ensinar em um colégio público, era tomado por nojo em lecionar para pardos e pobres, em vista que a majestosidade do seu conhecimento não deveria entrar pelos olhos e ouvidos de quem ele julgava serem uns quaisquer. Sentiu sua têmpora pulsar, seu coração palpitar e o seu sangue ferver.
- Isto foi dado ao meu… av- av- Alemanha…
O lado esquerdo do seu corpo estava dormente, apenas balbuciava sílabas enquanto tentava se apoiar na mesa próxima à lousa. O aluno que respondera que o Sol era esverdeado aproximou-se.
Fitando seus olhos negros como obsidiana, o professor foi aos poucos mergulhando em um oceano interminável, onde a íris e a pupila mesclavam-se, e seu último pensamento foi que havia misericórdia nos olhos de jabuticaba.
Subitamente, O professor viu-se na sala de aula, porém não ocupava posição de destaque, estava acomodado desconfortavelmente em uma carteira, que não comportava sua estatura esguia. olhou brevemente para a porta, que entreaberta podia-se contemplar um convidativo vazio, um passo adiante da porta havia um abismo que parecia o chamar com uma melodia sirênica. Fitou de relance a janela, não havia o habitual pátio com piso quadriculado, tal qual um tabuleiro de xadrez. Mas sim uma luz terrivelmente avassaladora, seu brilho era tão intenso que feria os seus olhos azuis.
Haushofer sentia uma estranha calma, que foi prontamente substituída pelo desgosto ao ver João, o menino dos olhos de jabuticaba, sentado na mesa larga frente à lousa. João estava como sempre, sentado desleixadamente na cadeira, seu cabelo crespo frondoso e seu moletom largo completavam sua caracterização. Contudo, a esclera de seus olhos enegreceu-se.
Tentou erguer-se de forma débil. Porém, antes de conseguir se desvencilhar da carteira, foi interrompido.
- Sente-se, Johann.
- Profes-
Johann tentou continuar o confronto, porém foi interrompido por algo inexplicável. Seu corpo foi submetido à uma pressão avassaladora, seu corpo retornou subitamente à clausura da cadeira e carteira.
- Johann, você sabe a razão de estar aqui?
O professor tentou seguidas vezes erguer-se da cadeira, empurrar a carteira e até mesmo urrar, mas todas as tentativas foram fúteis e fracassadas. Johann se debatia, mas todo impulso era prontamente reprimido pela supressão de seus sentidos, por uma força estranha que o impedia de se deslocar de qualquer forma que fosse.
- Venha ao quadro
Disse João, num tom abrupto e desprovido de qualquer emoção que fosse. O corpo do professor levitou, em posição ereta e rapidamente, foi levado ao pé da lousa, de forma abrupta um giz branco entrelaçou-se nos seus dedos.
- Johann, qual a cor do Sol?
- Qual o sentido disso? Me diga, o que está acontecendo?
- Escreva!
Embora o sobrenatural tivesse colocado o giz em seus dedos e seu braço estivesse na posição correta para redigir o que quer que fosse no quadro negro, o que ele queria escrever teria de ser absolutamente voluntário. O docente cedeu, não conseguia compreender o ocorrido, portanto, foi compelido pela autoridade de João, que outrora subalterno, agora confirmava o domínio da situação. Johann escreveu “Amarela”, sentiu então um fervor no dorso de sua mão direita que ao observar, percebeu que agora havia a palavra “Amarela”, com uma caligrafia invejável e uma tinta de prata fundida, queimando e adornando sua mão de dedos longos e magros. Tentou gritar, tentou chorar, mas assim como sua cátedra não permitia emoção de qualquer espécie, a régia maestria e desleixada postura de João não respaldava ou autorizava qualquer ação a não ser o seu comando; não por humilhações ou desprezo, mas por uma força cósmica e inexorável.
A palavra “Amarela” sumiu num passar ligeiro de um apagador de madeira, que levitava. O professor tentou novamente, a palavra sumiu do quadro negro e mais uma vez sua pele foi marcada pela prata fervente. Johann não esboçava dor, mas a sentia como nunca antes. O mesmo esforço fútil foi retomado incontáveis vezes, parecia uma eternidade, e antes que pudesse perceber, o professor estava rabiscado, rasurado e adornado com a palavra em questão dos pés à cabeça. Pela primeira vez desde que o pesadelo vivo tinha se iniciado,
Johann pensou em seus alunos, reparou que em prata se esculpia a caligrafia de todos seus alunos, presentes e pretéritos, lembrou-se de cada reprovação, cada nota vermelha e cada insulto ridículo que deixava nas provas dos seus alunos, só não havia o garrancho dos alunos que ele fizera evadir, ou que sempre entregavam suas tortuosas provas em branco.
João o olhou, com olhos pretos dentro de preto, com desdém e irreverência, algo que apenas significava e poderia significar um “basta”. Johann sentiu-se desmaterializado, e quando retornou à carteira, sentiu um enjoo arrebatador. A Palavra “Verde” apareceu no quadro negro.
- Impossível…
Disse Johann, em uma forma de lamento, a palavra multiplicou-se inúmeras vezes pelo quadro, pelas paredes, grafitadas em todas as carteiras e cada um dos meandros da suas tatuagens de argento foi substituído por letras em caixa alta de uma máquina de datilografar, a palavra “Grün” agora estava entalhada em sua alva pele, de que tanto se orgulhava, a ardência da tradução foi surpreendentemente mais aguda.
- O Sol é verde, Johann…
João agora levitava, sua mão nos bolsos do seu moletom, posicionado no meio do quadro negro. Johann tremia de pavor, não conseguia esbravejar ou esboçar qualquer outra reação que fosse.
- Se você soubesse um pouco de astronomia, saberia que o Sol é verde, e que devido à reflectância dos aerossóis em suspensão na atmosfera, a luz chega à superfície enquanto amarela. Se você soubesse um pouco de pintura, saberia que verde mesclado ao azul forma o pigmento amarelo. Se você soubesse um pouco de história, saberia que o período lamentável da história da humanidade que você exalta é um esperneio de um sistema moribundo. Se você soubesse que o microscópio eletrônico foi inventado após o seu avô ter sido “premiado”, aliás, ele nunca foi, o prêmio dele foi uma execução em Nuremberg. Se você soubesse um pouco sobre metalurgia e química, já teria percebido que sua plaqueta é de aço. Se você soubesse o que é solidariedade, não seria desprezível como é, autoritário como é. Se você soubesse o que é ser humano, viveria pelos seus feitos, e não por delírios e mentiras, que assombram o presente e foram execrados no passado. Johann, no futuro não há lugar para você, Faça sua metamorfose, faça sua transmutação, assim como seu avô, abrace o seu julgamento, porém a sentença é sua, me prove se há ou não há o que redimir.
O coração de Johann palpitava, olhou para a janela e sentiu sua absolvição, pela porta havia apenas danação. Mas um homem como Johann não reconhece seus erros, um homem como Johann não escapa do delírio de grandeza, para ele não havia perdão, sentiu sua alma caminhar solenemente pela porta e caiu no mais profundo abismo, porém, em sua misericórdia, João o permitiu permanecer no mais tolo dos erros, e seu corpo foi defenestrado em direção à luz.
Johann acordou suado e despido em sua cama, imerso ainda no ódio que sente por si e pelo mundo. Não havia palavra alguma gravada na sua pele, não havia nada que comprovasse a realidade do que ele acabou de presenciar. Abriu a gaveta da sua mesa de cabeceira e tateou em busca da sua plaqueta de prata, ela não estava lá, Johann, como muitos iguais a ele, não obteve a sua redenção.
E toda a sua odisséia foi-se embora, como uma brisa passageira que tremula uma bandeira sobre um palácio decrépito.
3º LUGAR
Derick Rafhael Silva de Lima
Aluno do curso Técnico em Informática Integrado ao Ensino Médio (IFSP-CJO)
Delírio de Getsêmani
Durante a infância, somos moldados pelos nossos pais. Tal qual Deus moldou Adão do pó que vem da terra, e Eva de sua costela.
Eles são nossos oleiros e ninguém está livre disso. Daniel não estava.
Seus pais o moldaram para amar e honrar Deus acima de tudo — acima de si, acima do corpo, da carne a qual ele pertencia. Ele seria o mais lindo e devoto do todo poderoso.
As paredes do quarto estavam cobertas de tinta. Palavras sagradas, escritas tortas. Daniel tremia. O corpo magro ajoelhado sobre o tapete gasto que fedia a mofo, os joelhos feridos, a caneta ainda presa entre os dedos.
"Não temas. Deus é contigo..." Ele sussurrava de novo. E de novo. A tinta preta manchava seus dedos como sangue.
Ele tinha sete anos quando aprendeu a ter medo. "A idade da inocência" diziam seus pais.
Depois disso, só resta o pecado. E Daniel acreditou. Implorou perdão desde o ventre, desde que a primeira célula do seu corpo foi gerada.
Daniel passou a infância ajoelhado, agarrado as escrituras sagradas, enquanto as outras crianças corriam juntas. Ele jejuava, rezava, batia no próprio peito, pedindo: Senhor, não me deixe queimar.
Mas ele queimava por dentro. Cada vez que respirava era um pecado. Cada pensamento fora da curva era uma blasfêmia. E os demônios vieram, se instalaram atrás do guarda-roupa, próximo da prateleira de pelúcias. Primeiro como vozes, cochichos que diziam que o alcançariam. Depois, como sombras que o espreitavam.
"Confie no nosso salvador"
"Ajoelhe-se mais."
"Mereça o amor de Deus."
Seus pais diziam.
E Daniel obedeceu, até os ligamentos do joelho gritarem. Obedeceu até o corpo virar pele e ossos. Mas nada foi o suficiente. Deus permanência longe. Ele era Caim, filho da desgraça. Aquele que nunca seria escolhido.
Trancado no quarto gelado, Daniel rabiscava as paredes com versículos. A caneta riscando como uma purificação falha. Mas eles continuavam lá, sorrindo através da escuridão. Daniel precisava de mais. Muito mais.
"O corpo é o templo do Espírito santo" Ele
soava quase sem voz. Sem forças.
"Vocês foram comprados por um preço. Glorifiquem a Deus com seu corpo..."
Então, escreveu sobre a própria pele. Traços tortos, tinta preta como o pecado:
"Isaías 41:10 – Não temas, porque sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te sustento com a destra da minha justiça.
Mas a caneta falhou. E assim como a caneta, a fé de Daniel era falha. As sombras riam.
Daniel podia sentir: Deus o abandonou.
E o que resta quando Deus vai embora?
Sangue.
O sangue do pecado. O sangue feito para sangrar.
Daniel riu. Primeiro baixo, depois alto, até o peito doer. Gargalhadas misturadas a soluços. As paredes giravam. As escrituras se embaçavam e se misturavam.
No espelho, viu um corpo miserável: flácido, joelhos em carne viva, olhos febris. Atrás dele, algo sorria – um rosto podre, líquido, dançando em seu reflexo.
"Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum..." Daniel disse para si, enquanto as vozes gritavam juntos em um coro.
Ele agarrou a tesoura sem pontas e rasgou a própria pele, próximo ao pulso, na esperança de ver o próprio espírito. O corte foi profundo, e o vermelho vibrante transbordou como algo sagrado.
Ele rodopiou pelo quarto, respingando sangue no chão, rindo e chorando. A dor parecia não existir naquele momento, apenas a satisfação da existência.
Sem hesitar, arrancou as páginas da Bíblia que estavam coladas no guarda-roupa e as jogou no chão. Louco. Maluco. Delirante. Daniel pisou nas escrituras sagradas. Ele se deixou sangrar sobre aquelas palavras sem sentido.
Ele acendeu um fósforo e lançou sobre as folhas ensanguentadas. O fogo subiu lento, depois devorou as folhas e o chão de madeira abaixo delas.
Daniel dançou próximo as chamas. Pés descalços que ameaçavam queimar também. O Diabo ria com ele, corpo disforme, ossos retorcidos, girando como um parceiro perfeito de valsa.
Seu quarto agora era o inferno. E Daniel pôde sorrir.
Deus o havia abandonado.
E, pela primeira vez, ele se sentia habitado.
VENCEDORA
Karoline Soares Martins
Aluna do curso Técnico em Informática Integrado ao Ensino Médio (IFSP-CJO)
Delírio - Quatro Estações
Primavera
As flores não nascem, gritam.
Rasgando o chão, como feridas abertas,
espalham perfumes que queimam a pele.
Borboletas quebradas colidem no ar,
e eu corro entre cores que não sei nomear.
O violino dança, mas não para mim:
dança para os deuses que riem da minha razão.
No jardim do impossível, colho espinhos,
penso que são pétalas e sangro sorrindo.
Talvez delirar seja isto:
aceitar que a beleza também dói,
que a vida é um quadro pintado por mãos febris.
Mas, oh, como é doce o veneno da primavera!
O tempo não anda: ele me observa.
E eu, refém dos meus próprios olhos,
descubro que até o sol pode mentir.
Verão
As trompas soam como gritos celestes.
O sol não aquece, consome.
Minha boca é um deserto, minha mente, um incêndio.
Corro por campos que ardem sem fim,
cada passo uma febre, cada suspiro um trovão.
Chove fogo no céu que inventei.
Relâmpagos escrevem frases no ar:
“De quem é essa vida? Por que não é minha?”
Grito de volta, mas minha voz evapora.
O vento responde com um riso cruel.
Penso fugir, mas onde?
O verão é uma prisão de luz.
Até as sombras se foram,
deixando-me nu diante da própria sanidade.
Outono
As folhas caem como verdades tardias.
O som das violas é um pranto antigo,
melodia que sangra por entre as veias da tarde.
Sento-me à beira de um lago que não existe,
lanço pedras de memória,
e cada onda me devolve um rosto que perdi.
O outono é um espelho quebrado,
refletindo fragmentos daquilo que fui.
Já não sei onde termina o delírio,
onde começa o silêncio.
Só sei que ando, e cada passo ecoa vazio,
como se o chão fosse feito de lembranças podres.
Mas há algo no vento, um sussurro tímido,
como quem pede para eu não desistir.
Será possível que até no delírio exista esperança?
Inverno
O frio chega com suas cordas agudas,
e cada nota é uma lâmina gelada.
A neve cobre minhas dúvidas,
mas também apaga os caminhos de volta.
Estou só, no branco imenso,
e pela primeira vez isso me parece paz.
a loucura não é um monstro, é um refúgio.
Delirar é construir um lugar
onde a dor não manda, onde o tempo não existe.
Fecho os olhos e deixo o gelo cantar sua ária.
Sou silêncio. Sou música. Sou ninguém.
E nesse nada encontro tudo:
não a razão, mas algo mais puro.
O inverno não é fim,
é uma promessa de primavera.
2º LUGAR
Pedro Roberto da Silva
Escritor e aluno do curso de Licenciatura em Pedagogia
(IFSP-CJO)
Visita
E de repente, suas costas se romperam
O sangue que vertia encharcava todo o chão,
Asas brotaram, como as de um anjo,
E a dor era tamanha que parecia fazer parar seu coração.
Em prantos, caiu de joelhos,
Aos berros suplicava por qualquer explicação,
Mas depois do profundo desespero,
Pôs-se em pé, já no controle da situação.
Olhou ao seu redor,
Tudo era tomado por caos e aflição,
Elevou os olhos aos céus
E alçou seu voo pela imensidão.
Lá de cima, tudo via,
A lama escura que cobria sonhos mutilados,
Os tanques de guerra que avançavam sobre vidas,
O desespero no semblante de cada soldado.
O que era vida, em um segundo se perdia,
O que era tudo, no segundo seguinte não era nada,
Gritos difusos, estranhos ruídos,
Silvos das balas nos ares, explosões de granadas.
Agonia de bons soldados,
Na verdade, apenas meninos,
Abraçados tão cedo pela morte
Sonhadores, pueris, franzinos.
Tudo era frenético,
Como se a paz jamais tivesse existido,
Quando as granadas explodiam
Aqueles que as lançaram já haviam morrido.
Cabia a ele decidir então,
O que fazer com sua dádiva, as belas asas,
E guiado pela saudade,
Decidiu voltar para casa.
Horas de voo para longe
Daquela terra ensanguentada
E pôde enfim ver de novo
A tranquilidade de sua morada.
Na sala, ninguém havia,
No rádio ligado baixinho, acordes de violão,
O aroma de café quente que vinha da cozinha
Adentrava as narinas e aquecia o coração.
Lá fora o sol tímido do inverno,
Tingia os telhados de cor dourada,
Os pássaros cantavam em festa,
Sua mente não estava mais tumultuada.
Ele caminhou até a cozinha
E finalmente a viu ali, parada,
Com seus olhos castanhos e cabelos cacheados,
Era ela, sua amada.
Como se fosse a primeira vez
Sentiu por ela o mesmo encanto,
Não pôde conter as lágrimas,
Se desfez por inteiro, caiu em prantos.
Ela o olhava incrédula
Com os olhos marejados de saudade,
Ele havia partido há tanto tempo,
Parecia uma eternidade.
Ele a abraçou tão forte,
E naquele abraço, fez parar o tempo,
O mundo ao redor desapareceu,
Tudo era uma explosão de sentimentos.
Ela desfez-se também em lágrimas,
Lágrimas pesadas e repletas de dor,
E apesar de não dizer nada,
Cada respiração e cada gesto confessava uma jura sincera de amor.
A luz do sol desapareceu lentamente dos telhados
Os pássaros passaram a cantar de um jeito mais entristecido
O rádio ficou mudo de repente,
Ele fechou os olhos, entregue ao seu amor correspondido.
Estava feliz, estava em casa,
Seu mundo estava tão mais bonito,
Mas antes que pudesse dizer a ela que a amava,
Escutou bem próximo um abafado estampido.
Abriu os olhos assustado,
E tudo aquilo havia desaparecido,
Não via mais os olhos castanhos da amada,
Em vez disso os olhos de um soldado estarrecido.
Sem asas, como um anjo caído,
Coberto de lama, ensanguentado junto ao chão,
Viu a fumaça que subia de todos os lugares
E tomava conta de toda a imensidão.
Mas então, o que teria sido aquilo?
Um delírio febril? Uma doce ilusão?
Tudo foi tão real,
O abraço apertado, acordes de violão.
Mas ele estava ainda ali,
No mesmo lugar onde passara semanas inteiras,
Era ainda o mesmo soldado,
Perdido ainda na mesma trincheira.
Tocou desconfortavelmente o próprio corpo,
Sentiu o sangue quente vertendo em suas mãos
Lembrou-se do momento em que fora atingido,
Pouco antes do delírio febril, da doce ilusão.
Deslizou seu corpo e acomodou-se na trincheira,
Lembrou-se dos olhos dela, marejados de saudade,
“Ah, meu amor, minha eterna menina”, sussurrou,
Com lágrimas carregadas de sinceridade.
Fechou os olhos, bem devagar,
Foi diminuindo a ofegante respiração,
Foi parando de ouvir os difusos ruídos,
Até entregar-se por fim à escuridão.
Tanques avançavam sobre vidas,
Meninos corriam e atiravam indecisos,
E ali em meio ao caos, jazia um soldado,
E em sua face havia estranhamente um sorriso.
Talvez, nos segundos finais,
Tenha ganhado asas uma vez mais e alçado novo voo pela imensidão,
Talvez estivesse nos braços dela, Enquanto a morte, fria e severa,
Paralisava o seu coração…
Aroma de café quente…
Acordes de violão.
3º LUGAR
Lucia Helena Ferreira de Sousa Gomes
Aluna do curso de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas (IFSP-CJO)
Entre o Real e o Abismo
Nas brumas etéreas da mente errante, o
delírio dança, volátil e constante.
Sons de risos e ecos dispersos, se
moldam em sonhos vívidos, imersos.
Continuo à deriva, nau sem rumo, sob
céus de névoa e mares sem fundo.
O tempo vacila, se dobra e se apaga,
vozes perdidas sussurram sem mapa.
O chão se dissolve, turvo e incerto, as
sombras desfilam num ritmo aberto.
Palavras são aves de voo desmedido,
buscando sentidos em céus indefinidos.
Na febre dourada dos dias ardentes,
universos brilham em lapsos latentes.
Lágrimas de luz escorrem sem medo,
trazendo o fogo, êxtase e segredo.
Vislumbro ilusões em águas sombrias,
ressonâncias antigas, memórias vazias.
Estrelas queimam no peito em espasmos,
semeando mundos em versos e ramos.
A escuridão murmura mistérios ao vento,
o silêncio se curva num estranho
momento.
Ecos do passado vagam dispersos,
embaralham as constelações, dobram
universos.
No véu do delírio, há lume que arde, um
brilho que dança, um segredo que
aguarda.
Entre sombras e ecos, ressoam caminhos,
e sonhos libertos se tornam destinos.
Desperto da febre, à beira do abismo,
com passos incertos num mundo de
enigma.
Mas trago comigo o traço do sonho, uma
chama indomável que nunca se extingue.