VENCEDOR
Sandro Medina Figueira
(IN MEMORIAM)
Músico
1- Pássaro Marrom
"Olha, amor, é lá em cima,
no alto da montanha.
É lá que fica Campos."
Nascia o dia enquanto lentamente subia o ônibus carregando os corações e olhares curiosos dos amantes.
2 - O motorista
"Agora falta pouco. Em meia hora,
subo a serra e estou na cidade." Pensa o cansado motorista do ônibus. Ele, que faz esse trajeto quase todos os dias, neste momento, sempre lembra das histórias de como era difícil essa subida em outros tempos. Quando era feita a pé ou em lombo de mulas. Quase exclama: "Já pensou? Tá louco!".
3 - A cura
Muitos anos antes.
"A cura está lá em cima". Rezava o fraco rapaz que era carregado numa padiola pelos fortes braços dos profissionais que fizeram dessa árdua missão sua forma de sustento. O rapaz, enquanto tentava se recuperar de um ataque de tosse, viu um outro grupo de carregadores se aproximando no sentido contrário, trazendo um corpo para o qual já não havia mais esperança de cura.
4 - A fábrica
"Hoje está frio pra caramba e ainda tive que entrar no turno da manhã". Se lamenta a jovem funcionária da fábrica Araucária. Lá fora o gramado está branco de geada, enquanto em sua mesa, ainda com as mãos endurecidas pelo frio, ela inicia a tarefa de embalar centenas de coraçõezinhos de chocolate.
5 - O trenzinho
"Que cidade linda!" Exclama a bela recém-casada, segurando a mão de seu marido, em passeio num dos "trenzinhos" que mostra Campos do Jordão aos turistas. O guia, no microfone, vai apresentando os hotéis, mansões, parques e curiosidades: "Aqui é o restaurante Crocodilo. A entrada é a boca de um Jacaré". E assim, com o peito explodindo de emoção, segue o jovem casal conhecendo a cidade e se deliciando com coraçõezinhos de chocolate.
6 - A mantiqueira
"Ah, as águas das cachoeiras da Ducha de Prata! que paz há neste lugar...", divaga a professora aposentada, enquanto degusta uma fatia de torta de pinhão acompanhada de um fumegante café. Seus olhos seguem as águas lembrando da triste lenda da mantiqueira envolvendo o sol, a linda indígena tupi e uma enciumada lua.
7 - O cantor
"Tô com uma fome. Onde você quer almoçar amor?", "Não sei. Tem tantos restaurantes lindos aqui no Capivari. Olha só Trutas, foundues... Tô na dúvida. Vamos entrar nesse aqui... Ouve como é linda a voz desse cantor... e olha... começou a tocar a nossa música!". Em um pequeno palco no fundo do restaurante, um velho músico dedilha seu violão e canta "Eu sei que vou te amar".
8 - O gari
"Bem que eu podia achar o tal tesouro. Mas onde será que ficam esses tais 3 pinheiros?", diz o gari ao colega, enquanto recolhe mais um saco de lixo nas ruas do bairro turístico Capivari.
9 - As fotos
"Essa no teleférico ficou boa. Essa aqui com o cantor também... Olha...os plátanos...E olha essa de nós no pôr-do-sol... Linda!".
O ônibus descia a serra, deixando para trás o cair da tarde.
10 - O tempo
Muitos anos após ...
"Nossa, cada vez que venho aqui neste lugar está tudo mudado. Na verdade, tudo está cada vez mais estranho. Está sendo muito difícil seguir a vida depois que você se foi, meu amor...
Esse mundo de ficção científica e solidão é uma tristeza só.", pensa a triste senhora em uma mesa na praça de alimentação de um enorme Shopping suspenso sobre o que um dia fôra o rio Tietê. "Ah, chegou a minha água". A garçonete, ao limpar a mesa, nota que a senhora está chorando, mas lhe escapa o detalhe de aqueles velhos olhos estarem fixos no rótulo da água mineral: Água mineral Minalba. Campos do Jordão.
2º LUGAR
Mauro Diego Pinto Ribeiro
Músico e Coordenador de Registros Acadêmicos do IFSP-CJO
Desaparecido
O que busca aquele homem que sobe a montanha, completamente incógnito dos olhares de quaisquer outros humanos, caminhando com o desespero de quem não suportaria parar? Será que a caminhada íngreme, extenuante, há de infundir-lhe outras dores, aquelas dos ossos e dos músculos e, em algum momento, preenchido por elas, o tormento insuportável que carrega saltar-lhe-á pela boca em sua respiração arfante ou eliminar-se-á pelos poros junto ao seu suor? Será que a chegada ao topo, a contemplação de precipícios e magnitudes poderá lhe trazer alguns segundos de esquecimento ou quem sabe algum perdão?
Não, ele não ousa imaginar tais coisas. A imaginação é o que nele já se exauriu. Ele caminha quase inconscientemente pisando em pedras, chegando a quase ter de escalar certos trechos muito inclinados, indiferente aos obstáculos que se apresentam. Esse homem ignora o seu presente, pois está sobrecarregado de memórias.
Em suas narinas carrega o cheiro do chiclete que o filho mascava, de boca aberta, o que muitas vezes o irritava; em seus ombros ainda podia sentir o peso do menino quando se cansava e queria ir de cavalinho para casa - a dor nas costas docemente suportada; e, por cada árvore que passava, podia ouvir o som do riso daquela criança que amava esconder-se atrás delas.
Desde que o filho era bem pequeno, o esconde-esconde era a brincadeira favorita (de ambos). Quase toda semana, pelo menos uma vez, ele levava seu filho no bosque da cidade e lá eles se escondiam atrás de araucárias frondosas e árvores de outros tipos. Ele adorava analisar, com toda a afetividade com o qual um pai analisa, como a cada ano que passava, o filho se tornava mais esperto para esconder-se. Lembrara como por muito tempo o menino se escondera em árvores próximas, pois, no final das contas, tinha medo de ficar sozinho, distante do pai. Mas, ali, próximo a completar sete anos, o garoto já buscava o desafio de não ser encontrado.
Em uma tarde dessas, de esconde-esconde no bosque, o pai contou até vinte - já que o menino reclamava que contar até dez era muito pouco - e foi procurar seu filho. Examinou as árvores mais próximas, sem se afastar muito do “pique”, já que o rapazinho também gostava de vir correndo bater o seu nome quando ele ia para longe. Foi aos poucos se afastando, percorrendo uma por uma as árvores, esperando que o filho aparecesse em algum momento naquela corrida desatada ou que fosse visto ali, agachadinho em algum canto, achando-se o garoto mais esperto do mundo. Mas, após diversos minutos de procura, não o encontrava.
Não fazia sentido começar a surgir em seu peito aquela angústia, afinal, o menino estaria por ali, não tinha para onde ter ido. Começou a gritar pelo filho: acabou a brincadeira, vem, temos que ir embora, pode sair, filhão, você é o campeão! Contudo, o filho não apareceu. Começou a correr percorrendo toda a extensão do bosque, revisando todas as árvores, olhando para o topo, como se fosse possível que o garoto tivesse escalado tão rápido. Começou a perguntar para os poucos ali presentes, ninguém tinha visto nada. Será que o menino o tinha desobedecido e ido além dos limites do bosque? A procura continuava, voltas e voltas em torno do bosque. Deveria sair dali para procurar do outro lado da rua? Mas, e se ele aparecesse e visse ali sozinho naquele bosque?
A angústia já o tomava por inteiro. Teve que ligar para a esposa e dizer meio balbuciante “não encontro o nosso filho”. Palavras doloridas, ditas a duras penas, adiando as lágrimas que já queriam se precipitar em seu rosto.
- Como assim? O que aconteceu? Onde ele está? - as perguntas vinham de uma mãe que também já se afligia e ele só tinha respostas que torturavam a si mesmo:
- Não sei, ele estava aqui agora, não sei explicar...não é possível... não é possível...ele tem que estar aqui...vem me ajudar, pelo amor de Deus!
Talvez quando chegar ao topo da montanha ele resolva conversar com Deus e tentar entender o porquê de ter vindo a esposa, a polícia, os bombeiros, os amigos e de terem sobrevindo dias e dias de buscas e o menino nunca ter sido encontrado.
O desespero, a culpa, o absurdo, o vazio: tudo isso foi lhe consumindo ao longo desses anos, consumindo seu casamento, seu trabalho, suas amizades. Agora é ele o homem que se esconde de tudo e de todos buscando os lugares mais longínquos, as caminhadas mais árduas e solitárias, a solidão completa do topo das montanhas.
Talvez, em algum lugar desses lugares ermos, ele encontre o filho que correrá em sua direção para dar-lhe o abraço mais quente e apertado do mundo e dizer:
- Pai, você demorou a me encontrar. Eu me escondi muito bem, não foi?
- Sim, meu filho, mas de agora em diante eu não deixarei mais que fique longe do meu alcance. Vamos voltar para casa...
Enquanto isso ele caminha, insistentemente, pois, como já foi dito, não suportaria parar. Só quando a montanha não oferecer mais caminhos, quando o topo se apresentar como fim da jornada, saberemos o que busca esse homem. Mas, será que esse homem, que desapareceu de si mesmo junto com o filho perdido, há de se deixar encontrar? Há de ele mesmo se encontrar? Só a montanha saberá.
3º LUGAR
Thaís Bueno de Oliveira
Aluna de Licenciatura em Matemática (IFSP-CJO)
Reflexões de uma menina sob o véu da neblina como testemunha.
Dona Neusa repousava em sua velha cadeira de balanço na varanda de sua casa de alvenaria. O mês de abril trazia um clima pouco convidativo em Campos do Jordão. Enquanto observava o topo das montanhas envolto em densas névoas, lembrava-se de sua juventude, quando já imaginava que aquela neblina poderia esconder algo. Agora, com a mesma essência de menina que ainda habitava seu ser, permitia que seus pensamentos voltassem a explorar essa intrigante possibilidade.
Aos 68 anos, após uma vida dedicada a trabalhar com números e fechar balanços, ela se sentia tão vazia que nem mesmo o desgaste de seu caderno de consulta conseguia preenchê-la. Recentemente aposentada, os dias se tornavam entediantes e lentos. Contudo, ao relembrar aquele devaneio de menina, permitia-se entreter por alguns instantes, buscando refúgio em pensamentos que a faziam sonhar. Qualquer coisa era melhor que aquela realidade, por isso ela aproveitou a chance de se dissociar.
Já se passaram 56 anos, mas Neusa se lembra vividamente. Era 1968. No salão da escola, o aroma da madeira polida e do giz fresco dominava o ambiente. As paredes, adornadas com desenhos coloridos de crianças e anúncios de regras de comportamento, criavam um cenário tipico de um escola do primário. As alunas, vestindo saias de xadrez combinadas com camisas brancas, ocupavam as carteiras de madeira, atentas à explicação da professora, que exibia um coque bem ajustado e alto na cabeça, falando sobre problemas cotidianos relacionados a despesas. Neusa, em seu vestido azul claro e um casaquinho vermelho sangue para se aquecer, olhava pela janela, apreensiva enquanto as nuvens carregadas se acumulavam sobre a montanha.
Lurdes, melhor amiga de Neusa, sentava ao lado dela. Ela usava um vestido laranja e amarelo, algo que chamava muita atenção e chegava a iluminar aquele dia cinzento. Para completar o look, estava com um suéter verde musgo tricotado pela avó. Lurdes se inclinou e sussurrou para Neusa com um sorriso travesso:
— Olha lá fora, Neusa! Guarde minhas palavras: se não tomarmos cuidado, essa neblina vai nos engolir.
Neusa riu, mas se lembrou que aquele frio implicava em ela fazer muitas tarefas em casa.
— É, irá ficar ainda mais frio. (Neusa suspira) Precisamos fazer os preparativos logo ao chegar em casa para a mesma estar quentinha ao anoitecer.
— Ah, nem me fale, porque já me vem à cabeça a tarefa de guardar lenha para a lareira!
Mamãe sempre diz que é nessa época que mais pessoas ficam doentes — completou Lurdes, lembrando dos momentos árduos, mas ainda assim preciosos, que passava com sua mãe empilhando os troncos na varanda.
– Eu queria muito que só as cobertas fossem o suficiente. – Você ficou sabendo que se precisar de mais é só informar a dona Irmã Inês – Lurdes diz, entusiasmada – A gente podia ir lá com esse pretexto e fazer uma pilha bem grande de cobertores.
— Assim ficamos quentinhas e ainda continuamos na criação de fábulas — Neusa sorriu, lembrando das noites em que ela e Lurdes brincavam na casa uma da outra, inventando histórias que tinham a intenção de publicar quando fossem mais velhas.
— Sim, mas nenhuma história supera o coração da montanha. Ainda mais porque…
— Você acredita mesmo nisso, Lulu? — Neusa perguntou surpresa e cheia de curiosidade.
— Por que não? Muitas coisas ficam ocultas na neblina, quem sabe não há algo esperando ser descoberto? — respondeu Lurdes.
Após a aula, Neusa e Lurdes voltavam juntas para casa por uma trilha que era um atalho. O ar estava úmido, e a neblina começava a se formar novamente. Neusa, com seu jeito extrovertido, puxou Lurdes para o lado.
— Você já pensou que a montanha em si pode ter vida própria? Mesmo fazendo esse caminho de volta para casa todos os dias, parece sempre diferente, como se nada ficasse no lugar. — Neusa diz pensativa, tentando entender se o que Lurdes disse antes fazia algum sentido.
Lurdes hesitou pois Neusa não era de acreditar em fábulas, mas parecia uma boa oportunidade para conversar sobre.
— O que você quer dizer com isso? — pergunta, enquanto pisava em alguns plátanos (folhas) secas que estalavam sob seus pés.
— Bem, foi só uma observação. Ah, eu não sei… — Neusa respondeu.
— Talvez, mas acompanhe meu pensamento, e se as árvores falassem? Ou se estivesse alguma coisa escondida dentro da terra? — Lurdes se empolgou com a curiosidade de Neusa e lembrou-se de uma experiência que aconteceu com ela dias atrás.
— Foi bem breve, mas uma vez, lá perto do Pico do Itapeva, eu fui colher pinhão com meus primos. Tinha um pinheiro estranho, parecia emitir uma energia distinta dos outros. Você acredita que eu senti o pinheiro vibrar? Tal como se houvesse um coração — Lurdes explica gesticulando cuidadosamente.
Neusa se interessou pela experiência, mas, ela decidiu não demonstrar sua empolgação. Ela queria verificar antes se o que Lurdes disse era verdade ou se estava apenas se divertindo às suas custas. Naquela época mentir era motivo de romper laços de famílias inteiras, mesmo que fosse esclarecido depois que foi um simples engano. Ela observava a expressão de Lurdes enquanto tentava disfarçar a apreensão que sentia.
— Um coração, você disse? — Neusa perguntou com uma voz calculadamente descontraída — Será que pinheiros possuem corações?
— Quem sabe? — respondeu Lurdes, rindo de forma leve – Mas a sensação foi estranha, quase mágica. E se eles guardam segredos?
Neusa refletiu por um momento, desviando o olhar para as montanhas ao longe. As palavras de Lurdes reverberavam em sua mente, mas uma sensação de medo lentamente tomou conta dela.
– Um dia, deveríamos ir até lá — sugeriu Lurdes, animada — Vamos ver se aquele pinheiro realmente pulsa como um coração!
Neusa hesitou por um instante e, depois de uma breve pausa, balançou a cabeça em sinal de recusa.
— Acho melhor não... E se tudo isso for apenas uma ilusão? Não quero que nossas famílias entrem em atrito por algo tão incerto. — Sua voz era baixa, carregada de cautela, revelando o medo de que sua curiosidade pudesse desencadear problemas maiores.
Lurdes, embora surpresa com a resposta, acatou a decisão da amiga, e as duas seguiram em frente, mergulhadas em seus próprios pensamentos. A leveza da infância ainda pairava entre elas, mas uma pequena dúvida começava a se instalar, mudando sutilmente o clima.
Em um dia envolto por uma neblina espessa, Neusa foi tomada pelas lembranças. A imagem de Lurdes, sempre sorridente e cheia de energia, retornou à sua mente com força. O misto de saudade e tristeza a acompanhou, enquanto pensava na amiga que partira tão cedo, vítima de uma doença respiratória. Lurdes, como tantas outras pessoas, acabara indo para Campos do Jordão, em busca de ar puro e de uma chance de tratamento.
Com o peito apertado pela ausência da amiga, Neusa sentiu uma forte necessidade de visitar o pinheiro que Lurdes tanto mencionava. Aquele lugar, que sempre tivera um significado especial para as duas, agora parecia o único refúgio para seus pensamentos. Sem avisar ninguém, ela resolveu sair. O pinheiro não ficava longe, a menos de um quilômetro, e esse pequeno percurso seria o tempo de que precisava para ficar sozinha com suas memórias.
Ao chegar perto da araucária, sentiu algo diferente, quase como se uma ligação invisível a conectasse àquele lugar. As folhas, com as pontas tingidas de amarelo e laranja, lembravam o velho suéter de Lurdes, e mesmo naquele dia cinzento, pareciam iluminar a paisagem. Neusa tocou a árvore com delicadeza e, fechando os olhos, tentou sentir a presença da amiga de algum modo. Nas primeiras tentativas, nada aconteceu. Mas, na terceira vez em que seus dedos encostaram no tronco, algo chamou sua atenção. Aquela, de fato, era a árvore de que Lurdes sempre falava, mas, ao contrário do que haviam imaginado na infância, ela não pulsava como um coração.
— Que bom que não viemos aqui na infância — Neusa sussurrou, lembrando-se com ternura da alegria ingênua que marcaram aqueles dias.
De repente, seus pensamentos foram interrompidos por um som estranho. Começou a ouvir batimentos cardíacos ecoando nos ouvidos, cada vez mais fortes e nítidos. Um medo irracional a dominou, e Neusa sentiu o peito apertar, como se a respiração estivesse se tornando mais difícil a cada segundo. A realidade ao seu redor parecia distorcida, e ela percebeu que estava experimentando sintomas que sempre associara à enfermidade de Lurdes.
Num instante inesperado, Neusa desabou ao chão.
— Agora faz sentido, Lulu! — Neusa exclamou.
Nesse momento, as folhas da araucária começaram a mudar de cor, das pontas amarelas e laranjas para tons intensos de azul e vermelho. E foi então que Neusa, sem forças, faleceu ali, sob a árvore que agora guardava não apenas as lembranças de Lurdes, mas também as suas.
VENCEDOR
Pedro Roberto da Silva
Escritor e aluno do curso de Licenciatura em Pedagogia do IFSP-CJO
Memórias da Mantiqueira
A manhã era severamente fria
Eu caminhava solitário pelos trilhos do bonde
Cercado pelo canto dos pássaros
Fui até onde a melancolia se esconde.
E ali na morada do silêncio
Minha alma que estava em pedaços
Encontrou conforto, expressou desalento
Minhas lágrimas ganharam espaço.
Tristeza visceral expulsa pelos olhos
Expressa em lágrimas na manhã fria
Aos poucos o peso foi saindo das costas,
Aos poucos a alma foi ficando vazia.
Vazia daquela tristeza pesada
Aos poucos meus olhos notavam a manhã fria
E enxergavam a beleza da geada tocada
Pelo sol tímido, perfeita poesia!
E o calor brando que tocava o gelo
E vagarosamente à geada derretia,
Derretia também as minhas tristezas
Evaporaram as minhas agonias.
Noutro dia de igual tristeza
Deixei pegadas pela estrada do bosque vermelho
E sob o testemunho silente das árvores
Me desfiz por completo, caí de joelhos.
Já permaneci também por horas,
Observando o infindo mando de estrelas na imensidão
Coberto pela madrugada jordanense
Memórias que levarei para sempre no coração.
É que quando sinto os pesares da vida
Caminho para os lugares mais afastados
Para ser acolhido pela Mantiqueira
Que da sua maneira abraça o seu filho amado.
Está no alto da montanha o meu refúgio
Meu lar, minha cidade,
Em cada rua estreita uma memória,
Em cada esquina uma saudade.
Estão no alto da montanha as minhas trilhas
No canto das aves, conselhos sobre minha sina,
No silêncio das araucárias meus poemas
Minha alegria na cachoeira Celestina.
E agora, mãe, vejo-te a queimar
Seus filhos, a fauna, sufoca em agonia
Ferem-te sem nenhuma piedade
Justo a ti, motivo da minha alegria.
E eu, que tantas vezes fui acolhido,
Tão incapaz e limitado, te vejo sufocar
Imagino seus pássaros envenenados
Seus seres acuados, sem chances de lutar.
Ainda assim tenho a esperança
De que a chuva serena chega nos próximos dias
Para trazer-te o início da cura
E devolver a mim, a minha poesia.
Quero por muito tempo vagar por seus bosques
E ser abraçado de alguma maneira
Contar meus lamentos às araucárias perenes
Construir mais Memórias
Na mãe, Mantiqueira!
2º LUGAR
Lucia Helena Ferreira de Sousa Gomes
Aluna do curso de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas do IFSP-CJO
Recordações da Mãe Natureza
Ao despertar do dia,
a montanha, majestosa,
emerge das brumas,
ocultando os mistérios
que dançam em cada rocha,
em cada abismo profundo.
Relatos antigos sussurram
narrativas de tempos remotos,
ressoando no vento suave,
em murmúrios inaudíveis,
como folhas ao caírem.
Os cedros, sentinelas do tempo,
contam histórias eternas
de dias gloriosos,
noites que se estendiam,
como sombras que abraçam.
Riachos entoam melodias puras,
evocando lembranças
de chuvas dançantes,
correntes fluídas
que trazem vida à terra.
Em cada passo, uma saga,
em cada pedra, um poema,
no vasto livro do cosmos,
ouvindo a voz da natureza.
Caminhos ventosos,
sendas esquecidas,
ali vagaram as almas
que buscaram seus destinos,
levando sonhos perdidos.
O sol se põe, rubro e dourado,
tingindo o firmamento em chamas,
e a montanha, em silêncio profundo,
guarda em si todas as recordações.
Memórias eternizadas em rochas,
enraizadas como esperanças,
imortais como estrelas,
que iluminam a noite e o coração,
ecoando o cantar da criação.
3º LUGAR
David da Silva Borges
Aluno do curso de Técnico em Informática do IFSP-CJO
Campos do Jordão, a cidade das montanhas
Nas montanhas de Campos do Jordão,
A natureza canta sua canção,
O verde das árvores, o azul do céu,
Fazem desse lugar um doce troféu.
No inverno, a geada veste o chão,
E o frio traz uma sensação,
De paz e calma, um sonho encantado,
Que nos abraça e deixa maravilhado.
O sol da manhã ilumina o vale,
E o entardecer pinta um belo mural,
É um lugar onde o coração se alegra,
E a beleza faz o tempo parar.
Montanhas de Campos do Jordão,
São um presente da nossa terra,
Um lugar para sonhar e descansar,
Onde a natureza nos faz sonhar.
Entre colinas de verde, Campos do Jordão brilha,
Onde o inverno se instala e o coração se abala.
As manhãs hibernais, cobertas de neblina,
Despertam o encanto de uma cidade genuína.
O turista, em seu passo lento, encontra um lar,
Nas ruas acolhedoras e no frio a refrescar.
A cidade, um abraço, um calor inesperado,
Em cada canto revela um segredo encantado.
O jordanense, com um sorriso leve e sincero,
Transforma o frio em calor, o dia em mistério.
Seu espírito alegre dança com a bruma e a luz,
Na terra onde o inverno é um convite à paz que seduz.
E assim, entre montanhas e o céu de cristal,
Campos do Jordão se torna um sonho real.
No toque do vento e na alegria dos dias,
Mora a essência de um inverno de poesias.