Eu, Deus

Olá, sou Deus.

Sim, vocês ouviram bem: sou Deus, o Criador do Universo.

Alguns de vocês estão achando isso uma blasfêmia. Outros estão com vontade de me constranger com a pergunta “Se você é Deus, por que parece um ser humano?”. É simples: eu tinha de aparecer duma forma que não causasse espanto e fosse compreensível.

Segurem-se porque vou dizer uma coisa que vai abalar vocês, mas é a mais pura verdade: é a primeira vez que me comunico com a Humanidade. Nunca apareci a ninguém e nunca falei com ninguém.

Isso significa que o que vocês pensam que sabem sobre mim é mentira. É tudo invenção de loucos e espertalhões. Todos os deuses, inclusive Javé, Jesus e Alá, e todas as religiões, inclusive o Judaísmo, o Cristianismo e o Islã, são falsos.

Nunca mandei ninguém escrever livro nenhum, muito menos a Bíblia e o Alcorão, os livros que sobre mim mais espalham mentiras. É incrível tanta gente acreditar que sou o autor desses livros, quando é evidente que são cheios de absurdos, violência, imoralidade e perversidades. Por acreditarem nas mentiras que a Bíblia sobre mim conta, cristãos passaram séculos escravizando, perseguindo, torturando e queimando gente, crentes de que estavam fazendo a minha vontade.

Fiz a Natureza desenvolver em vocês a faculdade de intuitivamente sentir o que é certo e o que é errado. Como, então, puderam e podem vocês seguidores da Bíblia considerar certo eu afogar pessoas e animais, enviar pragas sobre o Egito, matando também crianças, ordenar apedrejar pessoas, invadir e destruir cidades, matando também crianças, e castigar pessoas com pestes, secas e fome? A Bíblia me retrata como sendo um milhão de vezes mais perverso que Hitler e Stalin. E vocês acham isso normal? Pior: digno de louvor? Como puderam e podem vocês achar certo adorar um psicopata genocida? Afinal, se eu fosse como a Bíblia e o Alcorão dizem que sou, é exatamente isso o que eu seria: um psicopata genocida.

E por falar em adorar, uma das coisas que mais ojerizo é bajulação. Haveria um ser que fez trilhões de galáxias de sentir necessidade de ser adorado? Eu teria de sofrer de severo transtorno de personalidade narcisista para exigir algo tão detestável quanto o que a Bíblia diz que exigi: sacrifício de animais. Desculpem a sinceridade, mas os rituais que vocês ainda hoje praticam para me bajular são bizarros. Nunca pedi nada de vocês. Todas as exigências religiosas são idiotices inventadas por gente estúpida.

Com pouquíssimas exceções, como os negro spirituals, compostos por pessoas escravizadas por cristãos, as músicas que vocês cantam para me louvar são horríveis. E que negócio é esse de ficar um ou mais dias sem comer para me convencer a ajudar vocês? É uma das coisas mais ridículas que já vi. Se eu quisesse ajudar vocês, eu ajudaria. Vocês não precisariam se humilhar, muito menos dessa maneira tão constrangedora.

Dessa balbúrdia de religiões inventadas por loucos e espertalhões, as igrejas pentecostais estão entre as mais grotescas. É incrível tanta gente acreditar que gosto de berreiro e pandemônio. Tenho nojo de pastores e pastoras que, aproveitando-se da credulidade e da angústia de ignorantes, vivem de prometer cura.

Sinto muito desapontar vocês, mas os bilhões de orações que vocês todo santo dia fazem são totalmente em vão. Não faço milagres. Fiz a Natureza dotar vocês da capacidade de viverem bem, em harmonia, mutuamente se ajudarem e, através da Ciência, por muitos de vocês tão combatida, resolverem todos os tipos de problemas, inclusive físicos e de saúde. Se todos se servissem dessa capacidade, vocês parariam de sonhar com o Céu, outra das muitas mentiras religiosas inventadas para controlar vocês.

Se vocês fizessem uso do bom senso, jamais acreditariam na mais perversa de todas as doutrinas fabuladas por estúpidos manipuladores: o Inferno. Não consigo entender como vocês podem sequer imaginar que sou capaz de torturar pessoas, quem dirá por duvidarem da minha existência! Se não torturo nem mesmo quem pratica maldades, muito menos quem não acredita em mim. Sou o criador da lógica e da razão. Quem duvida da minha existência está fazendo uso do pensamento crítico que eu inventei. Como eu disse, não suporto bajulação. Então, não me importo de alguém não acreditar em mim. Aliás, vou confessar a vocês uma coisa, e espero que não se ofendam: no geral, gosto mais de descrentes que de crentes, pois descrentes não espalham mentiras sobre mim.

Quem dera todos vocês fossem livres-pensadores, e não apenas uma pequena minoria. Parem de seguir religiões, credos, crenças, cultos, dogmas, igrejas, ritos, seitas, abades, adivinhos, agoureiros, aiatolás, apóstolos, arcebispos, astrólogos, babalaôs, babalorixás, beatos, benzedeiros, bispos, bruxos, capelães, cardeais, cartomantes, clérigos, cônegos, curandeiros, devotos, diáconos, eclesiásticos, encantadores, evangelistas, feiticeiros, frades, gurus, iluminados, imames, macumbeiros, magos, mandingueiros, médiuns, missionários, monges, necromantes, ocultistas, padres, pajés, papas, párocos, pastores, patriarcas, pontífices, pregadores, prelados, presbíteros, primazes, priores, profetas, rabinos, religiosos, reverendos, sacerdotes, videntes, vigários e xamãs. Vocês não precisam, de fato não devem, seguir ninguém.

O Céu e o Inferno dos perversos livros sagrados que vocês seguem não existem, mas vocês — e não é preciso ser um gênio para entender isso — têm o poder de transformar o mundo num céu ou num inferno. Não existe vida após a morte, muito menos eterna. Vocês têm só essa vida.

Como eu disse, nunca pedi nada de vocês, mas hoje vou pedir. Não porque eu precise, afinal não preciso de nada, mas porque vocês precisam, já que passam a vida buscando a felicidade, ao mesmo tempo em que insistem em rejeitar a simples fórmula para encontrá-la, talvez justamente porque ela seja tão simples. Vocês teimam em achar que a fórmula da felicidade precisa ser complicada. Só que não é. Façam sempre só o bem. No dia em que todos vocês fizerem sempre só o bem, terão convertido esse Pálido Ponto Azul, que vocês chamam de Terra, num paraíso.

Peço licença, mas tenho novos universos para criar.

Boa sorte!