O primeiro editorial da revista "Episteme", publicado no volume 1, número 1 (primeiro semestre de 1996), contém uma descrição daquilo que o periódico propunha, sob o ponto de vista de sua abordagem acadêmica. Transcrevemos abaixo a parte principal desse Editorial, cuja autoria é de Anna Carolina Regner e Attico Chassot.
FILOSOFIA E HISTÓRIA DAS CIÊNCIAS: COMO E PORQUÊ
O que pretendemos com uma revista acerca da filosofia e história das ciências? Que filosofia e história das ciências queremos?
Uma reflexão filosófica sobre a ciência busca, fundamentalmente, analisar aquilo que a caracteriza e possibilita enquanto um tipo de conhecimento e atividade. Esta análise, por sua vez, pode operar desde um ponto de vista estritamente voltado à problemática própria da constituição de algo como ciência e a seu processo “interno” de desenvolvimento, ou levá-lo ao questionamento das relações que se estabelecem entre este tipo de conhecimento/atividade e seu contexto sociocultural mais amplo.
Tais perspectivas não são mutuamente excludentes, embora a riqueza de ambas muitas vezes impeça seu tratamento conjunto nos limites de um mesmo trabalho. Sua complementaridade, contudo, pode revelar-se do maior interesse, não apenas no sentido de uma visão mais abrangente das questões que permeiam a atividade científica, mas no de sua necessidade para o esclarecimento das suas próprias bases epistemológicas. Em geral, é com relação a este último ponto que, de algum modo, acirram-se as diferenças entre os que privilegiam a um ou a outro enfoque. Em qualquer caso, a discussão do que deve ser analisado e de como fazê-lo, ao buscar o que seja a ciência, seu desenvolvimento, alcances e limites, passa a fazer parte do elenco de questões para uma reflexão filosófica sobre a ciência e, em certa medida, ponto de confluência para ambas posições.
Eis, então, a primeira questão colocada pelas nossas perguntas iniciais e à qual se prende o teor da reflexão filosófica a ter lugar: como fazê-la. Contemplando o panorama da filosofia da ciência contemporânea, podemos, numa visão certamente bastante simplificada, divisar duas grandes vertentes de análise. De um lado, temos abordagens que, como as dos positivistas lógicos e a de Karl Popper, buscam estabelecer uma nítida distinção entre as tarefas da filosofia e da história da ciência, bem como entre o contexto de descoberta, mais afim à segunda, e o de justificação, reservando a este o âmbito próprio daquela reflexão. Sob uma tal postura, serão enfatizadas questões relativas ao estabelecimento e avaliação de problemas e critérios lógico-metodológicos, como no exame de padrões de aceitabilidade das explicações ditas científicas. A concepção e a caracterização da ciência que presidem um tal enfoque atêm-se, sobretudo, à sua condição de um tipo de conhecimento, cujo critério distintivo residirá em algo como “o” método científico e favorece a visão de seu desenvolvimento em termos de um processo “corretivo” e redutivo.
De outro lado, encontram-se as “novas” filosofias da ciência que atribuem à sua história um sentido propriamente epistemológico, desempenhando função substantiva para a compreensão de sua natureza e de seu processo de desenvolvimento. À luz deste enfoque, distinções e critérios centrais aos representantes da primeira vertente, como à distinção entre contexto de descoberta e de justificação e o critério da falseabilidade como demarcador para conhecimento científico, são reavaliados, redimensionados e muitas vezes expostos em suas dificuldades internas. As novas pautas de análise tematizam a ciência na integridade de sua contextualidade histórica, como tipo de conhecimento e de atividade. Em que pesem as diferenças das propostas que perfazem esta segunda vertente, atentam ao exame das crenças e compromissos compartilhados pela comunidade produtora do saber científico, às suas cosmovisões e padrões pedagógicos. De modo significativo, num contraste com as epistemologias anteriores, reconhecem no cerne mesmo da ciência, o papel constitutivo das “ideias” metafísicas na condução do processo e levam a repensar o conceito de racionalidade, alma de nosso empreendimento científico, conduzindo ao que Imre Lakatos chamará de uma “racionalidade radicalmente diferente, não instantânea”.
Este enfoque contextual encontra um reforço significativo na crise implosiva a que se veem submetidas aquelas análises calcadas na busca de padrões e critérios gerais de confirmação e/ou de refutação, frente aos paradoxos lógicos das tentativas feitas num plano estritamente formal, e aos determinantes impostos pelos contextos teóricos com suas especificidades próprias, no plano semântico, As abordagens que privilegiam um enfoque histórico parecem exibir um instrumental analítico mais sensível às problematizações contextuais. Todavia, estas “novas” filosofias da ciência, historicamente referenciadas, também pedem um novo modo de conceber a história das ciências, a cumprir sua tarefa epistemológica. A valer-nos de uma expressão de Lakatos, inspirada em Kant, “a Filosofia da Ciência sem a história da ciência é cega; a História da Ciência sem a filosofia da ciência é vazia”. Deve-se buscar na história das ciências uma história “instruída”, para ser capaz de ensinar.
A lição a ser colhida, por sua vez, refletindo a instrução recebida, pode colocar-se numa perspectiva tanto “internalista”, de análise e compreensão da ciência, desde dentro, a partir da problemática e das condições de sua constituição e desenvolvimento específicos, como “externalista”, buscando caracterizá-la a partir do exame de suas relações com o contexto externo a este movimento próprio. Ambas colocam suas respectivas pautas de questões e, muitas vezes, seus defensores parecem esgrimir na disputa pela maior relevância. Neste embate, há aqueles que restringem a um enfoque “internalista” as condições relevantes para uma análise filosófica da ciência, e os que ressaltam um enfoque “externalista” como referenciando as condições relevantes para sua análise sociológica. Contudo, não há, em princípio, incompatibilidade entre ambas, resultando antes numa questão de ênfase o ater-se a uma ou a outra e podendo-se encontrar, em sua integração, quando cuidadosamente trabalhada, uma solidamente abrangente e, ao mesmo tempo, penetrante visão da natureza da ciência e das condições que a possibilitam, em suas diversificadas relações.
Nossa proposta, com esta revista, é, de alguma maneira, contemplar essas diferentes possibilidades de análise, ao longo do fio condutor de incentivo ao esclarecimento e debate acerca da natureza, possibilidades e fins da ciência como conhecimento e atividade distintivas. Nesta medida, a opção por uma ou outra linha de análise não deve perder de vista o referencial estabelecido pela tentativa de compreensão e elaboração da ciência em sua especificidade própria. Nada seria, pois, mais adequado, do que criar, através dos nossos artigos, um espaço para o trabalho conjunto de professores e pesquisadores de diferentes áreas, buscando situar-se na perspectiva de um trabalho interdisciplinar e tomando a própria discussão do que seja um trabalho desta natureza como uma de suas questões epistemológicas fundamentais.
Podemos agora direcionar a pergunta que vem perpassando o eixo de nossas considerações nos termos da feição que concretamente será exibida pela revista Episteme. Por que buscar uma reflexão filosófica sobre a ciência historicamente fundada ou uma história das ciências com seu sentido epistemológico? Vale dizer, quais os interesses em perseguir um tal espaço de discussão? Talvez, a esta altura, soe trivial a resposta. Em diferentes níveis, esta revista pretende, por meio deste espaço de tematizações e debates, não só atender ao interesse acadêmico de aprofundar a compreensão, aguçar a crítica e alimentar novas propostas no que concerne ao trabalho científico, como contribuir para sua aplicação na qualificação do ensino, tendo presente os diversificados graus de atuação de seus possíveis leitores, e na pesquisa, em seus diferentes comprometimentos sociais. Retratar algumas das dimensões que podem ser assumidas por esse interesse e despertar sua polêmica será o objetivo deste primeiro e introdutório número.
Diferentemente do caráter de temas específicos que as publicações subsequentes procurarão privilegiar, reservamos a este momento de apresentação inicial o papel de uma breve amostra de múltiplos aspectos que se revelam pertinentes e justificam o interesse por uma filosofia e história das ciências.
Anna Carolina Regner e Attico Chassot