Al Janiah é muito mais que um restaurante, é um espaço de múltiplas expressões artísticas que se combinam. Desde a composição visual até o próprio bairro onde está situado, o espaço Al Janiah resiste e luta, abrançando diversas lutas sociais.
A história do bairro: A ocupação histórica do Bixiga
No ínicio do século XX, a região onde hoje é cituado o atual bairro do Bixiga era Saracura, conhecida com a “Pequena África” e foi o berço de expressões da negritude paulistana, como o bumbo e do batuque (DE LIMA, 2020). A região oferecia refugio seguro os fugitivos da escravidão, principlamente devido a densa mata da região do Canguçi.
A construção geográfica do bairro reflete essas raízes africanas em sua morfologia, conforme explica o arqueólogo Alessandro em seu texto “Vestígios de um quilombo paulistano: uma análise da paisagem arqueológica do bairro do Bixiga”, os assentamentos afro-brasileiros remetem às formas do urbanismo das cidades africanas, na morfologia das vielas e das ruas sinuosas, becos e “quebradas”. Pode-se entender esses resquícios de passado presentes no território como forma como sendo Rugosidade (SANTOS, 2006).
Apesar de sua origens como um bairro negro, após a abolição a cidade de São Paulo passou por uma redefinição territorial/racial. No final da década de 1870 o Estado loteava os pastos do Bexiga, qu atraia muito italianos imigrantes devido ao baixo custo. Com a ocupação dos italianos, toda a construção e herança histórica africana foi sendo apagada, e inclusive nos dias atuais o bairro é conhecido como o bairro mais italiano da metrópole de São Paulo (NASCIMENTO, 2016).
É possível perceber essa dinâmica de apagamento e marginalização das herenças negras de forma empírica, como constatou Larissa Aparecida com suas entrevistas feitas com os moradores do bairo.
“Vista possui em sua dinâmica um cotidiano fortemente marcado por aspectos da cultura italiana, os sujeitos entrevistados neste trabalho e que vivem na localidade mais de trinta anos dizem que praticamente não há moradores italianos ou descendentes de italianos no Bexiga. A Rua Treze de Maio, por exemplo, é caracterizada pelos informantes ainda como um reduto tradicional da cultura italiana, pois possui cantinas e restaurantes ao longo de seu percurso. Todavia, nesta mesma rua, Célia evidencia que há muitos bares nordestinos, e Benedito indica que a mesma é também um espaço negro, pois abriga casas de pagode.”
A pesquisadora ainda destaca que o bairro também tem uma forte presença de imigrantes nordestinos e reforça a importância de haver mais pesquisas nesse sentido.
A história de Al Janiah (Al -Janiya)
Assim como o bairro do Bixiga foi um refugio seguro para os escravizados no ínici do século XX, hoje o bairro também serve de refugio para Al Janiah. O fundador do restaurante se chama Zarid e chegou no Brasil como refugiado há mais de 20 anos.
Zarid escolheu o nome do restaurante de “Al Janiah” como forma de homenagear o vilarejo de seus pais na Palestina, com o nome orginal de Al-Janiya. Desde que chegou no Brasil Zarid se envolve com ausas políticas. Ele é militante desde os 16 anos e entende que a bandeira palestina cabe em toda a esquerda, por isso, o espaço conta com diversos símbolos de várias lutas, não só a Palestina.
A ideia de Zarid então foi inaugurar um espaço que reunisse eventos políticos, peças de teatro, lançamentos de livros e outras manifestações atísticas e políticas, assim foi criado o Al Janiah.
A culinária do lugar não é tudo, mas traz uma rica experiência de sabores com comidas tradicionais palestinas. E o falafel é a verdadeira joia da casa, “se for falar sobre Palestina ,vocês têm que comer o falafel.” diz Zarid para a uma matéria na revista Esquinas. Ele completa ressaltando a importância histórica do blinho para a cultura Palestina e das diversas tentativas de apagamento histórico e cultural que o prato sofre, uma vez que também é reivindicado pelas redes de fast-food e autoridades israelenses como produto típico da culinárica de Israel.
“Na verdade, ele é um produto milenar do camponês palestino. Na época da ocupação da faixa de Gaza, se falava uma frase famosa: ‘O velho morrerá e o jovem esquecerá’. Então esse é um símbolo de luta. O falafel é resistência. É como o acarajé palestino.”
Conflitos e ataqueas ao Al Janiah
Segundo uma matéria do G1, em 2019 o espaço sofreu um ataque na madrugada do dia primeiro de Setembro, tudo aconteceu na calçado do estabeecimento e apesar de ainda haver clientes dentro do restaurante ninguém saiu ferido.
O ataque foi cometido por cinco pessoas que se aproximaram com facas e spray de pimenta. Um dos homens tenta esfaquear uma pessoa, mas acerta a porta, que se fecha. Mais tarde, quando as portas reabrem um dos homens ameaça-os com a faca, enquando um outro espirra spray de pimenta e, ainda, um terceiro membro atira uma garrafa de vidro.
Em resposta, Al Janiah promoveu um ato político e cultural que ocorreu no sábado dia 07 de Setembro no próprio estabelecimento de forma gratuita, que seguiu acontecendo até a madrugada de domingo.
Entrevista com Belal Jaber, gerente no Al Janiah
Transcrição da conversa
Grupo: O que te levou a abrir o restaurante?
“A ideia foi do dono, conheço ele há 25 anos, sou amigo dele. A ideia dele surgiu há anos. Ele tá morando em São Paulo há anos…Ele sempre precisou de um espaço cultural, assim um espaço que mistura um pedaço de cada país, uma religião de cada lugar, uma mistura de atividades e de coisas. O Al Janiah não é só um restaurante que serve comida Palestina gostosa, é um espaço cultura, tem teatro, resumo de livro, atividade política, tem vários lançamentos de candidatura que acontecem aqui. Teve várias visitas de vice-presidente, do Haddad, da Dilma… Teve várias coisas que aconteceram aqui, teve vários ataques que a gente sofreu aqui, pela extrema direita. Então é um espaço que mistura tudo isso.
E a gente tem várias nacionalidades que trabalham pra gente. Tem brasileiro, argelino, africano, cubano, palestino, então é assim uma mistura de coisas. Então você imagina dirigir um espaço desse tamanho, dessa loucura…
E a ideia surgiu em uma ocupação chamada Leila Khaled onde ajudaram refugiados palestinos a fazer essa ocupação em um prédio e colocaram o nome de Leila Khaled, fica ali na Liberdade na Conselheiro Furtado. Ela era palestino, foi preso duas vezes, sequestrou dois aviões israelenses na década de 70 e está viva até agora.E daí a ideia surgiu lá para ajudar essa galera, porque os ‘caras’ novos estavam chegando, daí ele abriu o Al Janiah. Al Janiah é o nome do vilarejo da cidade em que ele morava com os pais dele na Palestina. Daí ele colocou o nome da cidade dos pais dele, porque ela fica na Cisjordânia, e a maior parte da Cisjordânia é ocupada pelo Estado de Israel, eles têm terras ocupadas. Então ele colocou em homenagem aos pais dele, porque eles vieram de lá para cá e nunca conseguiram retornar.”
Grupo: Então os pais dele não são daqui, eles vieram para cá?
“É, os pais dele vieram na década de sessenta para cá, mas ele nasceu aqui pelo fato dos pais dele serem refugiados, então ele é refugiado também.”
Grupo: Você falou muito da questão de aqui ser muito mais que um restaurante, não é. Eu não sei vocês, mas uma das primeiras impressões que tive ao entrar aqui foi que era um espaço muito político e de resistência. Você pode compartilhar com a gente também alguns dos desafios que vocês tiveram para reabrir o restaurante? A gente viu que vocês sofreram um ataque em 2019.
“A gente sofreu vários ataques, na eleição do Haddad pintamos as paredes e a calçada de vermelho e daí tinha várias pessoas que passavam na rua e gritavam: ‘Volta pro teu país! O que estão fazendo aqui?!
A gente sofreu vários racismos, vários preconceitos, até de pessoas que entravam aqui. Diziam: Isso aqui é um restaurante, por que vocês estão apoiando o PT?O que querem vender?`. Na época estava o começo do fascismo, o auge e aí a galera saiu do armário e começou a invadir. Antes da eleição do Bolsonaro não era tão assim, mas depois dois irmãos viraram inimigos, às vezes por uma política que não tinha nada a ver. Surgiu Bolsonaro, surgiram essas brigas, esses preconceitos que não têm nada a ver. “
Grupo: E quando vocês abriram o restaurante, como foi a aceitação do público em geral?
“Nós abrimos o restaurante em 2016, que foi bem na época do Impeachment da Dilma. Se vocês pesquisarem vão ver que nessa época sofremos também um ataque da polícia militar, jogaram bombas de gás, porque foi a concentração da galera e daí eles entraram aqui e jogaram bombas de gás bem no meio do restaurante. Soltaram dentro do restaurante. Aí foi o auge, aí depois desse ataque da polícia militar a galera foi juntando, aí a gente achou que ficou pequeno e mudamos para cá em janeiro de 2017.”
Grupo: E eu vi que vocês também sofreram um ataque com incêndio em 2019, como foi?
“Foi um gás de pimenta jogado no Al Janiah. Foram uns carecas, uns fascistas que atiraram o gás, fecharam a porta do restaurante e fugiram. Era por volta de 13h, 13h30. Tinham uns clientes, a gente não conseguiu identificar. Também porque eles ameaçaram a gente.”
Grupo: E como foi para se reerguer depois de todos esses ataques? Como fizeram para continuar resistindo?
“A gente continuou resistindo. Palestino nunca desiste. A gente fala que palestino nunca desiste. Por exemplo, eu sou palestino-libanês. Eu nasci no Líbano, mas eu conheci palestinos através dos meus avós, meus pais. Desenharam como era a minha cidade na minha cabeça e isso a gente passa para os nossos filhos. Então por isso que a história, a luta da Palestina nunca vai morrer. Portando o hassan, que é a segunda geração, que nasceu aqui no Brasil mas também ultra militante da questão Palestina e passa isso pros filhos através do sangue. É uma resistência que a gente conseguiu.
É claro que, na época da pandemia, a gente sofreu bastante, a gente não trabalhou com delivery, mas a gente teve várias ajudas dos nossos clientes.”
Grupo: Então vocês se organizam para outras formas além do restaurante, né? Você falou que o dono apoia ainda a ocupação Leila?
“A gente participa de vários movimentos. Tem reunião aqui do movimento de luta por moradia para mulheres, toda quarta-feira às 19h, eles se reúnem aqui, daqui que surgem as ideias, quais serão as novas ocupações. Então a gente participa de tudo, porque, querendo ou não, o brasileiro que trabalha com a gente aqui mora em ocupação, eles são refugiados também. Eles não têm moradia, então também são refugiados. Então a gente é a favor da ocupação de prédios que estão há anos abandonados, vazios, devem para o governo para a caramba, então…
É legal vocês passarem também na Conselheiro Furtado, daí vocês vão ver a imagem da Leila que está lá. Está aqui neste quadro também. Tem várias nacionalidades lá, tem peruano, brasileiro que está morando lá também.”
Grupo: Quais conselhos você daria para outros refugiados que vêm se estabelecer também aqui no Brasil?
“Cara, eu sou muito suspeito, tem até um amigo meu que é professor da USP que eu falou para ele que se existe um paraíso para mim esse paraíso é o Brasil. Porque a gente é discriminado no nosso país, a gente não tem direito nenhum. Aqui no Brasil, mesmo com tudo que é racismo, a gente consegue ter uma vida aqui. Aqui a gente encontra uma vida, aqui a gente pode sair na rua sem ser reprimido pelo governo, sem ser preso, sem ser morto. O Brasil é um paraíso, chegamos aqui.. Claro, tem um caminho do mal, um caminho do bem, mas aqui ninguém morre de fome. Se sair vendendo água na rua tu sobrevive. Claro, tem a repressão dos nossos governadores, nossos prefeitos, que não ajudam, não apoiam, mas pelo que a gente sofria lá, aqui é um paraíso. No Líbano a gente não tem direito a 70% das coisas. Porque eu não posso adquirir uma casa sem ser casado com uma mulher libanesa, eu não posso estudar em uma faculdade pública, eu não posso ser internado e tratado em um hospital público, não posso ter um comércio sem ter ligação com outro libanês porque eu sou palestino refugiado, eu não tenho documento de libanês, mesmo nascido no líbano. Mesma coisa com os palestinos-sírios, eles não têm direitos. O Líbano ainda é mais rigoroso nessa questão do que a Síria. Mas é isso, ditadura né, os caras não querem sair por 100 anos. Morre o pai, entra o filho.”
Grupo: É, tem diversos interesses estratégicos e geopolíticos nesse território, não é?
“Tudo. É ponto estratégico para a Rússia, Estados Unidos, Israel, para todos aqueles lugares.”
Grupo: Não temos mais questões para colocar. Acreditamos que conseguimos compreender bem a história e luta do restaurante. Muito obrigada pela entrevista. Iremos disponibilizar o link do blog caso vocês tenham interesse em compartilhar e visitar.
“Claro! Se vocês acompanharem vão encontrar bastante atividades aqui. vamos ter vários eventos agora que irão começar as eleições, vamos ter bastante coisa. Marquem a página do Al Janiah também que a gente vai compartilhar."
DE LIMA, Alessandro Luís Lopes. Vestígios de um quilombo paulistano: uma análise da paisagem arqueológica do bairro do Bixiga. Argumentos, v. 17, n. 1, 2020.
G1 SP; TV Globo. Bar de refugiados palestinos é atacado com spray de pimenta e garrafa no Centro de SP. G1, 01 set. 2019. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2019/09/01/bar-de-refugiados-palestinos-e-atacado-com-faca-e-garrafa-no-centro-de-sp.ghtml.
MONTE,Luísa e VIANA, Maria Fernanda. Al Janiah: Culinária, história política denem a casa palestina no bairro do Bixiga. Revista Esquinas Digital Laboratóro da Faculdade Cásper Líbero, Janeiro de 2023. Disponível em: https://revistaesquinas.casperlibero.edu.br/arte-e-cultura/gastronomia/al-janiah-culinaria-historia-e-politica-definem-a-casa-palestina-no-bairro-do-bixiga/
NASCIMENTO, Larissa Aparecida Camargo. No Bixiga nem tudo é italiano: relatos de vivência sobre um bairro da região central em São Paulo. Pensando Áfricas e suas diásporas, n. 1, p. 104-118, 2016.
Redação RBA. Al Janiah promove ato político e cultural em resposta a ataque criminoso. RBA – Rede Brasil Atual, Setembro de 2019. Disonível em: https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/al-janiah-promove-ato-politico-e-cultural-em-resposta-a-ataque-criminoso/
SANTOS, M. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção / Milton Santos. – 4. ed. 2. reimpr. – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006. – (Coleção Milton Santos; 1)