A escrita de Guel Arraes é um dos pilares mais originais da dramaturgia brasileira contemporânea.
Como roteirista — frequentemente em parceria com nomes como Jorge Furtado, João Falcão e Adriana Falcão —, Guel desenvolveu uma assinatura inconfundível que equilibra o erudito e o popular, a agilidade da televisão moderna e a tradição oral brasileira.
Abaixo, as principais características, as estruturas narrativas e os eixos temáticos que definem os seus roteiros:
Os roteiros de Guel possuem um ritmo implacável. Ele bebe diretamente na fonte das screwball comedies americanas (comédias de diálogo rápido) e da chanchada nacional. Os diálogos são ágeis, cheios de réplicas e tréplicas, onde o humor nasce da velocidade com que os personagens tentam se safar de uma enrascada.
Influenciado por sua formação no cinema etnográfico e pelas vanguardas, Guel adora expor o mecanismo da ficção. Seus roteiros frequentemente incluem:
Personagens que falam diretamente com a câmera (como em Lisbela e o Prisioneiro).
Histórias dentro de histórias (metalinguagem).
Intervenções narrativas que lembram a literatura de cordel, onde o narrador assume o controle do ritmo.
Desde Armação Ilimitada e TV Pirata, a escrita de Guel se apoia no fragmento. Ele transpôs para o texto a lógica do videoclipe e das histórias em quadrinhos: cenas curtas, transições abruptas que geram piadas visuais imediatas e uma estrutura em blocos que mantém o espectador em constante estado de atenção.
O trabalho de roteiro de Guel Arraes pode ser dividido em três grandes vertentes:
Guel é um mestre da adaptação antropofágica. Ele não apenas traduz o livro ou a peça para o roteiro; ele os moderniza através de uma linguagem pop, sem perder a essência do autor original.
O Auto da Compadecida (Ariano Suassuna): O roteiro condensa a peça homônima e enxerta episódios de outras obras de Suassuna (O Santo e a Porca e A Pena e a Lei). Guel e Jorge Furtado limparam os excessos teatrais e criaram uma estrutura episódica de sitcom (comédia de situação) perfeita para a TV, costurada pela malandragem clássica de Chicó e João Grilo.
Lisbela e o Prisioneiro (Osman Lins): O texto original de Osman Lins é uma peça de teatro. No roteiro, Guel e sua equipe injetaram a paixão pelo cinema de Hollywood (através da cinefilia de Lisbela) e transformaram a história em um manifesto sobre a força do melodrama e das canções de amor populares (o brega/cafona).
Grande Sertão (Guimarães Rosa): Talvez o roteiro mais radical de sua carreira (coescrito com Jorge Furtado). Em vez do sertão geográfico tradicional, o roteiro faz uma transposição urbana e distópica. A linguagem complexa, quase poética e inventada de Guimarães Rosa é mantida, mas adaptada para a boca de guerreiros de uma periferia cercada por muralhas, transformando o dilema existencial de Riobaldo em uma tragédia urbana contemporânea.
Nos projetos voltados para o cotidiano urbano, os roteiros de Guel dissecam as neuroses da classe média brasileira com ironia, mas sem crueldade.
A Comédia da Vida Privada: Baseado nas crônicas de Luis Fernando Verissimo, o roteiro fixou um padrão de sofisticação na TV. As tramas giravam em torno de infidelidades, mal-entendidos e o ridículo das convenções sociais, sempre com diálogos afiados e situações limite.
A Grande Família (reboot dos anos 2000): Como roteirista e idealizador do formato moderno, Guel ajudou a desenhar a estrutura de episódios que funcionavam como pequenos contos morais sobre a sobrevivência, o afeto e as contradições da família suburbana brasileira.
TV Pirata: Roteiros baseados no absurdo, no nonsense e na paródia da própria televisão (as novelas, os telejornais). O texto quebrava todas as regras de respeito às instituições, usando o humor como uma navalha crítica durante o período de redemocratização do Brasil.
Os roteiros de Guel Arraes funcionam muito baseados no choque de arquétipos clássicos da comédia de arte e da cultura popular nordestina:
O malandro de sobrevivência: Personagens como João Grilo (O Auto), Leléu (Lisbela) e Caramuru são heróis da farsa. Eles não têm poder econômico ou físico, então usam a palavra e a retórica como armas para dobrar os poderosos (o coronel, o padre, o diabo). O roteiro celebra a inteligência e a agilidade mental desses personagens.
O duplo / O oposto: Para o malandro funcionar, o roteiro de Guel sempre coloca ao lado dele um contraponto. Chicó é o mentiroso covarde; Douglas (Armação Ilimitada) é a força bruta ingênua; o visualizador de A Comédia da Vida Privada é o observador cínico. Essa dinâmica de dupla garante o ritmo dos diálogos.
Se o cinema brasileiro historicamente flutuou entre o realismo cru e a comédia popular de massa, os roteiros de Guel Arraes criaram uma terceira via única: um espaço onde a alta literatura brasileira é contada com o ritmo dos quadrinhos, a ginga do cordel e a precisão cirúrgica do humor pop.