Guel Arraes, já há vários anos mais do que um diretor talentoso, é símbolo de qualidade na TV.
Em qualquer discussão sobre o tema, seu nome funciona como um lembrete de que não há nada de inevitável no rebaixamento da programação.
Mas se a obra do diretor impressiona, sua importância vai ainda além da lista de trabalhos por eles assinados.
O Núcleo Guel Arraes é bem mais do que um departamento da Rede Globo: é a base institucional de um movimento audiovisual de importância só comparável ao Cinema Novo e Cinema Marginal, primeiro movimento de alto nível artístico a se desenvolver dentro da TV.
Guel Arraes coordena o trabalho de artistas que, como ele próprio, circulam com sucesso por meios tradicionalmente mais prestigiados, como o cinema e o teatro, mas não abrem mão de trabalhar no centro da indústria, único meio de comunicação com a massa da população.
Esse projeto de largo fôlego parece ter duas balizas estéticas fundamentais: a linguagem reflexiva e a realidade da literatura nacional.
O veio reflexivo vem das origens: Guel Arraes começou sua carreira trabalhando com Jean Rouch, o cineasta-antropólogo inspirador da Nouvelle Vague.
Na TV, essa auto-consciência crítica ao próprio ato de narrar, tão característico da arte moderna, tornou-se marca do Núcleo Guel Arraes, na paródia ao meio em TV Pirata, na renovação da reportagem de Programa Legal, nos falsos documentários que pontuavam vários das Comédias da Vida Privada e até, numa versão mais ambiciosa, na desconstrução da história nacional de A Invenção do Brasil.
Esse traço modernista é instrumento para uma vasta releitura, para as grandes massas televisivas, da literatura brasileira que, mais do que “adaptada”, vem sendo “transcriada” pelo grupo do diretor-produtor.
O mais recente desdobramento deste trabalho foi a ampliação dos projetos Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro para o cinema.
Guel Arraes nomeou sua empreitada “Cinema Popular Brasileiro” e a analogia com a MPB é de fato esclarecedora.
É provável que estejamos assistindo, de modo análogo ao que foi consolidado pelos tropicalistas, a uma aliança permanente entre indústria audiovisual e arte.
Guel Arraes continua desenvolvendo sua vocação de grande aglutinador, influenciando na atual orientação nacionalista da Rede Globo através de um projeto que reúne as heranças de Ariano Suassuna e Caetano Veloso.