SEGUNDA CIRCULAR
Minicurso 1 - A notação musical em tablatura para cordas dedilhadas: da teoria à prática
A vasta produção musical escrita em tablatura, preservada desde o século XVI, reflete a relevância dessa notação para a prática dos instrumentos de cordas dedilhadas, principalmente a do violão, cujo repertório é constituído, em grande parte, por transcrições de tablaturas.
Durante os diversos períodos da história da música ocidental, a notação esteve sempre em transformação, atendendo, ainda que com limitações, as necessidades expressivas e ou comunicativas de cada época. Entretanto, tendo sido difundida por séculos, hoje essa notação soa, tão-somente, como um termo familiar aos violonistas e guitarristas populares, tendo em vista que a notação convencional (partitura) se tornou o padrão para o ensino formal na música ocidental. Na verdade, essa relação está muito mais vinculada a uma prática musical institucionalizada do que, necessariamente, a uma prática popular em sentido amplo. A tablatura permanece ainda viva como notação de instrumentos populares-modernos, a exemplo da guitarra elétrica. Embora marginalizada em determinadas camadas musicais, o modelo de escrita continua funcional a outras. No contexto acadêmico, as tablaturas têm constituído uma valiosa fonte de conhecimento para práticas interpretativas historicamente orientadas. Nesta perspectiva, este minicurso busca oferecer ao estudante e pesquisador de música antiga de instrumentos de cordas dedilhadas algumas ferramentas práticas para a compreensão e execução da tablatura. A exposição tem como motriz a apresentação de uma síntese histórica da notação em tablatura, com foco nos instrumentos de cordas dedilhadas, bem como a identificação dos diferentes modelos existentes em fontes primárias e a realização assistida de leituras de peças em instrumentos de época e/ou modernos, ligeiramente adaptados.
Minicurso 2 - Intermidialidades e formações narrativas contemporâneas: a narração em texto e imagem
O minicurso propõe apresentar um quadro introdutório dos estudos em intermidialidades com foco em marcadores semióticos da narração em formatos que articulam imagem e texto verbal. Linha e superfície são as estruturas básicas que dimensionam o pensamento e o curso pretende explorar a relação entre elas em produções contemporâneas que trabalham com temas de memória autobiográfica em narrativas gráficas e no cinema documentário. As formas semióticas de construção da narração de cunho memorialístico por sequencialização de imagens é o centro da discussão proposta, chamando atenção para aspectos de montagem, focalização, organização de planos temporais, entre outros. O minicurso é organizado em um bloco teórico introdutório e uma segunda parte dedicada a práticas de análise.
Minicurso 3 - Tramas e labirintos: diálogos possíveis entre adaptação e releitura no cinema de terror e no cinema brasileiro
O minicurso que ofertamos tem como objetivo estudar as relações entre a literatura e o cinema, com ênfase no cinema de terror (inglês e estadunidense) e no cinema brasileiro, do Cinema Novo ao cinema contemporâneo. Sob essa ótica, discutiremos as questões de fidelidade narrativa na adaptação, trabalhando sobretudo com Hattnher (2010) e Stam (2008). Nesse sentido, tratando do cinema de terror, abordaremos a construção da estética a partir da literatura gótica (Carroll, 1999). Nossa discussão parte da apreciação de dois objetos literários, Frankenstein (1997) e The turn of the screw (1989), e algumas de suas adaptações, como Frankweenie (2012), Frankenstein (2025), The others (2001) e The haunting of the Bly Manor (2020). Nas obras audiovisuais observaremos os aspectos da liberdade criativa no processo de adaptação, bem como a manutenção dos aspectos literários. Além disso, trabalharemos com as questões propostas por Calabrese (1987) quanto ao labirinto na estrutura narrativa, e ao chiaroscuro na construção tanto estética quanto narrativa. Já no cinema brasileiro, serão abordados aspectos estéticos, artísticos e composicionais que marcam diferentes fases e obras da literatura e do cinema no Brasil. Dessa forma, a começar por Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis, com seu defunto autor que se assemelha a um espectador do próprio filme, e Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, obra que se confunde entre ciência, jornalismo e literatura, discute-se aquilo que a literatura teria inventado quanto a temas e formas e de que o cinema brasileiro mais adiante se apropriaria. Em seguida, analisaremos o quanto o cinema influencia na “montagem” das narrativas modernistas e de que maneira essas mesmas narrativas estarão presentes na estética e temática do Cinema Novo. Nesse momento observaremos as obras Amar, Verbo Intransitivo (1927), Vidas Secas (1938) e as características gerais da literatura de Jorge Amado e José Lins do Rego e os vínculos que possuem com os filmes Lição de Amor (1975) Rio, 40 Graus (1955), Vidas Secas (1963), Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Os Fuzis (1964). Nesse ponto, dialogaremos com reflexões de Ismail Xavier (2001; 2003), que discute as relações entre narrativa, linguagem cinematográfica e tradição literária, bem como com José Carlos Avellar (2007), cuja crítica ressalta o diálogo com a literatura e com a cultura brasileira na construção de uma estética própria. Por fim, como um salto para o contemporâneo, sem se desprender da tradição cinemanovista, será discutido como a literatura e os filmes adaptados de Milton Hatoum dão continuidade a essa relação entre cinema e literatura brasileira. O público-alvo para este minicurso inclui estudantes de Letras, Cinema e Artes − de graduação e pós-graduação − além de pessoas interessadas nas intersecções entre literatura e cinema.
Minicurso 4 - Discurso direto e indireto na perspectiva sociológica de Valentin Volóchinov: tendências, modelos/padrões, modificações
O objetivo deste minicurso é revisitar o conceito de transmissão do discurso alheio em dois de seus modelos/padrões: discurso direto e discurso indireto. Desenvolvidos na terceira parte de “Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem” (2021[1929]), esses conceitos e categorias, por um lado, expressam a filosofia e a filologia dialógica do Círculo de Bakhtin do final dos anos 1920, e, por outro, concretizam suas implicações para questões sintáticas bem concretas e conhecidas da tradição gramatical soviética, russa e brasileira. Os conceitos serão expostos mediante descrições e análises de fragmentos de enunciados literários e não-literários em língua portuguesa. Os interessados nessa temática podem se preparar para o minicurso, consultando gramáticas da língua portuguesa que abordam os estilos ou discursos direto e indireto.
Minicurso 5 - Rock/Metal: aspectos teóricos, musicológicos e analíticos
Rock e Metal, enquanto fenômenos culturais de trajetória histórica recente que gozam de grande popularidade e recepção mundo afora, têm sido estudados, principalmente, pelo viés da sociologia, da antropologia e da história. São numerosos os trabalhos científicos produzidos nas últimas décadas que tratam da gênese e dos desdobramentos desses gêneros, destacando-se os de Weinstein (1991), Walser (1993), Macan (1997), Berger (1999) entre outros. A investigação musicológica de tais fenômenos, para além das notas biográficas e da opinião jornalística, vem ganhando espaço, onde trabalhos de análise musical são dedicados à investigação de aspectos métricos, rítmicos, fraseológicos e harmônicos a partir de sólida fundamentação teórica. Os aportes teórico-metodológicos mais recentes da musicologia ajudam a demonstrar que, em muitos casos, os processos criativos do Rock e do Metal possuem interseções com tradições musicais de longa data, valendo-se da sintaxe e da semântica do que se convencionou denominar por ‘música clássica’.
A partir dessa constatação, os proponentes deste minicurso dedicam-se à investigação de esquemas de contraponto (schemata) e tópicos musicais nas obras das mais conhecidas bandas de Rock e Metal, buscando apontar a vigência e a efetividade dos procedimentos composicionais da música clássica na estruturação musical de obras contemporâneas. As schemata têm em Gjerdingen (2007; 2020) o seu teórico de maior vulto e são, de acordo com o autor, padrões de baixo e melodia usados, historicamente e em larga escala, na prática composicional ocidental durante o século XVIII e princípios do século XIX. Os tópicos musicais, inicialmente teorizados por Leonard Ratner (1980) e desdobrados por seus seguidores, são assuntos para o discurso musical proporcionados pelos mais variados gêneros e estilos musicais que, tirados de seus contextos de origem e usados no âmbito do classicismo musical, conservam seus significados expressivos, históricos e sociais. Ao observar que schemata e tópicos são elementos identificáveis na produção musical contemporânea, os proponentes deste curso também buscam averiguar as transformações que tais procedimentos sofreram ao longo do tempo, apontando possíveis adaptações (acréscimos, supressões, permutações e substituições) às condições e exigências estéticas do nosso tempo.
Este minicurso é voltado à comunidade acadêmica (alunos de graduação em música e pós-graduandos), aos músicos práticos e aos apreciadores de Rock e Metal que buscam aprofundar conhecimentos quanto à sintaxe e semântica desses gêneros. Recomenda-se que o(a) interessado(a) diletante possua domínio básico de leitura em notação musical, a saber: partitura e/ou tablatura, uma vez que este será o meio utilizado para a demonstração dos achados. Os objetivos deste minicurso são: compreender as relações entre os padrões sintáticos e semânticos característicos da música clássica e os processos criativos do Rock/Metal; Descrever e contextualizar as estruturas musicais em apropriação pelo Rock/Metal e avaliar em que medida os tópicos musicais e as schemata serviram à estruturação do discurso musical do corpus analisado.
Minicurso 6 - O grande afresco da Villa dos Mistérios em Pompeia: ensaio de interpretação
O minicurso tratará das interpretações do grande afresco da Villa dos Mistérios em Pompeia. A Villa foi descoberta em 1909 e, desde então, inúmeras explicações foram feitas sobre o significado da pintura parietal. Primeiramente, entendeu tratar-se de um rito dionisíaco destinado a iniciar as mulheres em seus mistérios; daí, o nome dado à Villa. Na sequência, especificou-se serem os mistérios órficos, destacando-se o papel iniciador do deus Dioniso. De modo diferente, pensou-se tratar das núpcias de Ariadne e Dioniso, ou, ainda, a preparação de uma jovem antes de suas núpcias. Nesse sentido, o curso divide-se em duas partes: a historiografia que apresenta as interpretações principais e o ensaio interpretativo, que propõe ser possível considerar tanto os mistérios quanto às núpcias, sejam divinas ou humanas.
Minicurso 7 - Exibição do Documentário "Milton Nunes por Stephen Bolis" e as Culturas do Violão em Campinas, São Paulo
O documentário “Milton Nunes por Stephen Bolis” registra o processo de gravação em estúdio do CD de violão solo homônimo, lançado em 2024. Para tal, o Prof. Dr. Stephen Bolis (UFAM), além de apresentar parte do repertório gravado, criou um espaço de diálogo com o seu orientador e diretor musical do projeto, Prof. Dr. Fabio Scarduelli (EMBAP/UNESPAR); juntos, abordaram temáticas como: a formação inicial do violonista Milton Nunes (1925 - 2006), sua atuação como fundador do curso técnico de violão do Conservatório Carlos Gomes, seu catálogo de composições e transcrições, assim como a sua produção como intérprete. Diante disso, este minicurso pretende apresentar como o conceito de “Culturas do Violão” dos etnomusicólogos Andy Bennett e Kevin Dawe (2001) se aplicou à pesquisa de doutorado “O violinista Milton Nunes e a sua atuação como intérprete, professor e compositor: uma investigação do indivíduo e do seu contexto” defendido em 2023 na UNICAMP; e, sobretudo, como este conceito pode cooperar com a reflexão em torno das diferentes facetas do violão no Brasil, levando em conta especificidades locais e universais.