O enhacement exógeno, embora não envolvendo uma alteração directa (invasiva) do corpo, situando-se na fronteira entre o corpo e o meio, implica uma intervenção directa no interface entre o organismo e o meio, com consequências no desempenho das tarefas, e necessariamente com consequências neurocognitivas, seja ao nível mapeamento neurocognitivo desse interface com o meio, em que indivíduo+tecnologia agem (acção do agente humano mediada pela tecnologia e respectiva causalidade), seja ao nível da componente neuro-motora (caso dos exoesqueletos).
Quando se considera o uso de tecnologias de enhacement exógeno dirigidas à parte cognitiva (por exemplo: com o uso de sistemas inteligentes no suporte à actividade de um gestor, ou no suporte à tomada de decisão) também temos consequências neurocognitivas, nomeadamente aquelas que estão associadas aos processos de tomada de decisão.
Estas consequências do enhancement exógeno podem tornar-se mais complexas se considerarmos a integração da Inteligência Artificial (IA) com as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) e a Augmented Reality (AR), podendo envolver a sobreposição de elementos electrónicos no campo ocular do indivíduo através do uso de lentes ou de telas transparentes com display de AR que representa, em termos de outputs electrónicos, o resultado de trabalho cognitivo de agentes artificiais (IA com aprendizagem de máquina) e o resultado das comunicações com agentes humanos (componente de rede social integrada nas TIC), se adicionarmos a estes dispositivos a componente de voz (incluindo capacidade da IA em processar discurso natural) e a recepção de sinais áudio ou mesmo vídeo, temos uma plataforma tecnológica bastante complexa que envolve múltiplos inputs sensoriais (visuais e auditivos) integrada em dispositivos de suporte ao trabalho humano, com consequências directas na decisão e acção individual e colectiva (caso se considere a integração das tecnologias de redes sociais e a interacção com as máquinas).
Gonçalves, 16/12/2016
1. Conceito e Tipos de Enhancement
Enhance (verbo to enhance): do Francês Antigo enhaucier com raiz latina em *inaltiare de inaltare com os significados de levantar, fazer erguer, exaltar, de altare (fazer alto), de altus (alto).
O -h-, do Francês Antigo, tem raiz no Franco *hoh com o significado de alto, elevado.
O -n-, do Francês Antigo, terá origem latina em in+ante: em si perante si, ou seja, posição e contraposição de uma mesma presença em si mesma enquanto capacidade dinâmica na acção do em si para si enquanto disposicionalidade autopoiética (do Grego poiein (verbo) e poiesis (nome), respectivamente, com os significados de fazer e criação ou produção).
-ment (sufixo): do Latim -mentum: resultado ou produto da acção.
Enhancement, enquanto conceito operacionaliza um sentido de excesso, Latim: excessus: ir para além dos limites, romper as fronteiras; excedere: ir para além de, expandir (expandere): desdobrar: desdobramento das capacidades, desdobramento do saber fazer: excesso, verbo exceder.
O enhancement diz respeito à acção humana exponenciada: tudo aquilo que suporta a acção humana e faz expandir a respectiva performance na execução dessa acção constitui enhancement.
Em termos de tipologia, em relação ao conceito de enhancement, podemos assumir dois tipos de divisões:
- Divisão em termos da relação com o corpo humano;
- Divisão em termos da acção humana que visa suportar.
Em termos da relação com o corpo humano, a divisão é:
- Enhancement endógeno: que implica alguma alteração interna directa do corpo humano, seja pela integração de tecnologias no corpo (por exemplo, implantes), seja pela manipulação bioquímica do corpo (por exemplo, uso de medicamentos), seja por via da biotecnologia (por exemplo: intervenção genética, incluindo, como caso exemplar, a terapia genética que evita que se possa contrair determinada doença, pode-se, a este propósito, consultar também a questão da tecnologia "CRISPR", veja-se como exemplo o seguinte link: http://motherboard.vice.com/read/geneticists-are-concerned-transhumanists-will-use-crispr-on-themselves);
- Enhancement exógeno: que implica o uso externo da tecnologia sem que a mesma seja incorporada no corpo.
Em termos da acção humana temos a seguinte divisão:
- Enhancement motor: tudo aquilo que expande a performance motora;
- Enhancement cognitivo: tudo aquilo que expande a performance cognitiva.
Tanto o enhancement motor como o enhancement cognitivo podem ser obtidos por via endógena ou exógena.
Por exemplo, enhancement motor exógeno pode ser obtido por via de exoesqueletos, enquanto enhancement motor endógeno pode ser obtido por via da própria dieta alimentar, suplementos ou mesmo substâncias químicas mais sofisticadas que afectam a performance motora, ou ainda implantes (caso dos "chips" colocados no cérebro para a regulação neuro-motora dos doentes com Parkinson).
O enhancement cognitivo exógeno pode ser obtido por via do uso de inteligências artificiais e dispositivos adicionais que permitem a expansão da execução do trabalho cognitivo humano.
O enhancement cognitivo endógeno pode, por exemplo, ser obtido desde logo com vitaminas dirigidas à parte cognitiva, um dos casos mais simples (e menos problemático em termos éticos) deste tipo de enhancement.
2. Enhancement e Interface Organismo/Tecn0logia/Meio
O uso prolongado de tecnologias de enhacement exógeno tem assim necessariamente consequências neurocognitivas de longo prazo. O conceito de cyborg pode aplicar-se a partir do momento em que o ser humano interage com o meio utilizando um interface tecnológico, deste modo, temos um interface triplo entre agente humano, tecnologia e meio, tal que, mesmo sem "implantes", o uso do interface tecnológico conduz a uma forma de cyborg cuja acção e dinâmica relacional com o meio envolve um interface híbrido (indivíduo+artefactos tecnológicos).
As tecnologias de enhancement cognitivo endógeno, dado que implicam uma alteração interna do corpo, conduzem a uma alteração permanente do indivíduo.
As tecnologias de enhancement (endógenas e exógenas) poderão conduzir a uma singularidade tecnológica ao nível da interacção entre organismo/tecnologia/meio, dado que interferem directamente com a relação entre organismo e meio com consequências imprevisíveis, nomeadamente ao nível da possibilidade de quebra de uma continuidade biológica que, se viável para o organismo, pode introduzir, contudo, ao nível da espécie humana uma divergência potencialmente disruptora.