Articulação
por Michel Debost

O termo vem de articular. Formar uma locução que permite deixar claro o discurso, torná-lo legível.

Podemos considerar cada frase musical como uma expressão falada, cada elemento de uma frase musical como uma palavra pronunciada, cada nota como uma sílaba. Esta, por sua vez, compreende consoantes e vogais.

A equivalência sonora das sílabas é específica para cada língua. Tomemos as palavras imaginárias tude e ture (por exemplo dentro das palavras francesas latitude e appogiature): é difícil comparar a secura do u francês, a ponta gutural do ü alemão, o aveludado do u italiano e espanhol, o molhado do “iou” anglo-americano. Maravilha de sons!

A pronúncia da consoante t é mais ou menos dental. Quanto ao r, encontramos todos os sabores: gutural no alemão e no francês moderno, trilado no bel canto italiano, no espanhol e no francês arcaico, ainda em uso em certas províncias francesas e em alguns países francófonos como o Canadá e o Líbano.

O aprendizado de línguas estrangeiras amplia a perspectiva mental; para um músico, e particularmente para um flautista, é uma ferramenta charmosa e útil para a articulação e para um fraseado natural.

Na prosódia cantada, a consoante faz a função da articulação, enquanto que a vogal faz o papel de apoio. O solfejo nada mais é que uma codificação silábica que favorece o canto.

Do mesmo modo, para uma ataque conjunto de vários instrumentos de diferentes famílias (cordas, madeiras, metais), é necessário, de alguma maneira, desembaraçar-se da consoante para dinamizar o som da vogal.

A impressão do conjunto não virá da simultaneidade do ataque (consoantes), mas da sensação que todas as sonoridades (vogais) aconteçam no mesmo momento.

Que sílaba escolher para conceitualizar a articulação da flauta?

A consoante pode ser t em todas as formas de golpe de língua simples (entre os lábios, na frente dos dentes, atrás dos dentes, no palato), k com duplo golpe de língua curto, d no louré (articulado no som), g no duplo suave, d enrolado no destacado composto, enfim, as possibilidades são numerosas dentro dos limites da clareza e do conforto. Mesmo o p pode ser utilizado em uma doce articulação sem a língua. O essencial está no conforto, na eficácia e na clareza, antes de qualquer dogma.

Quanto à vogal, podemos pensar em a diante das sílabas (notas) cantantes (mas ela torna-se rapidamente pastosa) ou em i nas passagens soltas em golpes de língua simples, duplo ou triplo.

A vogal e, curta (ê) ou longa (é), sem dúvida é a que melhor se acomoda em ambos os casos, e em qualquer idioma que seja. Dado que certas línguas se prestam melhor do que outras a uma articulação solta, o fato é que não há truques. Certas teorias tendem a atribuir às línguas latinas uma maior facilidade de articulação. Na realidade, qualquer que seja sua língua natal, nada substitui nem resiste a um trabalho inteligente e uma prática constante. Deve-se iniciar por uma concepção musical daquilo que se deseja obter. Então a articulação é trabalhada, notadamente as variações, em grupos de quatro ou seis, ou em notas repetidas duas a duas, três a três ou quatro a quatro, por exemplo, no Jeu des games (vide “Une simple flûte – Caderno de atividades”).

Os pontos de apoio, por exemplo, a subdivisão dos traços, ajudam muito no desenrolar da articulação. Antes que tentar sincronizar o golpe de língua e os dedos, mais eficaz seria adequar o ritmo enquanto referência comum.



Johann Joachim Quantz, em sua obra Essai d’une méthode pour aprrendre à jouer de la flûte traversière, avec plusieurs remarques pour servir au bom goût dans la musique, edição original em francês, Berlim 1752, Zurfluh, Paris 1975, dedica todo um capítulo bem ilustrado sobre a utilização do tiri, ti curto, ri longo, em uma época na qual o r era frequentemente enrolado. Atualmente, é o d que corresponde melhor aos détachés compostos.

Essas diferenças não eram escritas e essa prática foi comum no meio musical até aproximadamente 1800. Quantz preconiza o uso das sílabas did’ll. O Jazz e as músicas populares tradicionais ainda as utilizam. Porém, como esta desigualdade é pouco aplicada nas músicas mais recentes, esta articulação caiu em desuso, mas permanece bastante útil para “soar” flexibilidade nas notas rápidas de duas em duas.

O nível da articulação deve variar em função diferente da tessitura: na oitava mais baixa as notas repetidas parecem estar sempre contínuas: é necessário pensar em “espaçá-las” um pouco mais do que se as notas estivessem nas oitavas média ou aguda.

No caso de uma articulação isolada, um ponto colocado sobre uma nota não indica obrigatoriamente um ataque de língua aguçado ou penetrante, mas que cada nota seja emoldurada com um pouco de ar de cada lado, que ela seja “reduzida” sem tornar-se seca. Isto é recorrente na música no século XVIII:


Bach, Siciliana da sonata em Mi maior:



Mas também é encontrado em Schubert.

Schubert, Variações, segunda parte do tema:



Muitos elementos de interpretação não são explícitos. Muitas informações sobre as partituras sobrecarregam o texto musical, como tanto pode-se ver nas abusivas edições do repertório barroco. Para um músico culto, o “bom gosto” estimado pelos antigos era precisamente tudo aquilo que está implícito, o que não precisa ser dito. “A cultura é aquilo que se sabe quando acreditamos que já esquecemos tudo”.

A articulação deve também ser pensada em termos de conteúdo musical, não somente como um recurso técnico. “O que se concebe bem se enuncia claramente” (Boileau, 1636-1711).

EM POUCAS PALAVRAS,
A articulação deve tornar-se um hábito. Graças à prática das variações, pode-se servir de diversas sílabas e movimentos de língua sem ter de se concentrar nisso. O ataque do som é um problema distinto. É o conteúdo da frase que direciona a articulação. Não existem truques – apenas bom senso e trabalho.

Autor: 
Michel. Debost - DEBOST, Michel. Une simple flûte. Editions Van de Velde, Paris, 1996. (p. 35-8)
Tradução: STEFANO FRUGOLI PEIXOTO - Especiais agradecimento a Stefano por essa tradução.


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