Data de publicação: 31/ago/2014 18:59:13
«Os primeiros portugueses que praticaram futebol estavam muito longe de supor que o jogo trazido da Inglaterra viria a ser o mais popular de todo o mundo e que absorvia as atenções de muitos milhões de pessoas espalhadas pelos cincos continentes. Os recentes êxitos do grupo português no Campeonato Mundial, realizado na Grã-bretanha, vieram recordar os pioneiros daquela actividade desportiva, dentre os quais se destacam os irmãos Pinto Basto, à volta de quem se formou um grupo que, em 1888, jogava na parada de Cascais e que, no ano seguinte, disputaria um desafio com um conjunto de residentes em Lisboa.
Poucos anos depois, por ocasião das festas do «Centenário do Infante D. Henrique», em 1894, efectuou-se o I Porto – Lisboa para disputa de uma taça oferecida pelo rei D. Carlos e foi também nesse mesmo ano que os jogadores do centro do país se organizaram devidamente para a prática regular do futebol.
Tal como sucedera em Lisboa, onde os jogadores se recrutavam nas mais altas camadas da sociedade (titulares, estudantes, filhos-familia, etc) também em Coimbra e em Aveiro os futebolistas não provinham das camadas populares, não obstante contarem-se alguns de reduzidas condições económicas.
Em Coimbra, naquela época fechada a Associação Académica contra a vontade dos estudantes, estes debatiam-se em lutas políticas que não permitiam uma vida associativa regular. No entanto, com o estímulo de alguns jovens desportistas, quase todos estudantes (dos colégios, do Liceu e da Universidade) prosperava em Coimbra um organismo de educação física denominado «Gymnásio» que estava a desenvolver uma actividade importante no desporto do centro do país.
Fundado em fins de 1883, numa casa do Largo da Freiria, passou depois para a Rua da Sofia e para a Rua Velha e daqui, em 1895, para o princípio da Estrada da Beira, perto da Portagem, onde se demoraria até ao começo do século XX.
Foi este «Gymnásio de Coimbra» o grupo que divulgou o futebol no centro do país, jogo que começou a atimgir certo renome depois do desafio de Maio de 1894, num campo de Aveiro, em que se bateu o «Gymnásio» desta cidade, contra o seu irmão das margens do Mondego.
Na Imprensa coimbrã desta época é difícil encontrar referências ao novel jogo do pontapé na bola, das correrias e das canelas. No entanto, ao jornal republicano «Defensor do Povo», não passou despercebida esta actividade desportiva da mocidade académica e é nele que encontramos algumas notas sobre o grande prélio futebolístico entre Coimbra e Aveiro.
O grupo coimbrão era dirigido por D. Vicente da Câmara, que julgamos identificar como filho do conde da Ribeira Grande, ao tempo frequentado o 3º ano jurídico.
Dos jovens aveirenses
[...] um lisboeta fidalgo que orientava os restantes jogadores [...] estudantes da Faculdade de Direito que tomaram parte neste memorável jogo de Aveiro. O mais adiantado nos estudos era o quintanista de Direito, Júlio Sampaio Duarte, e que, (talvez por causa do futebol) foi obrigado a repetir o ano... pois continua matriculado na Faculdade e inscrito no futebol, no ano lectivo de 1894-95... Do 3º ano de Direito, além de D. Vicente da Câmara, havia um outro futebolista académico: chamava-se Julião Sena Sarmento, era natural de Ervedosa do Douro [...] Um outro jogador académico seria Gervásio Domingos de Andrade, natural de Lousada e matriculado no 2º ano de Direito [...] aparece também o nome de Afonso Temundo que neste ano de 1894 ainda frequentaria o Liceu. Efectivamente, só dois anos depois surge matriculado na Faculdade de Direito o estudante Afonso da Silveira Brandão Freire Temundo, natural de Alcobaça, que julgamos ser o jogador coimbrão integrado no grupo que actuou em Aveiro [...] Do grupo de Coimbra também faziam parte José de Moura, Francisco Falcão, Francisco Couceiro, José Videira, Vasco António Tavares, Álvaro Coelho e Macieira [...] Juntamente com Herculano Moura, A. Caldeira e Dória, formam o grupo dos pioneiros do futebol coimbrão»[i].
A fotografia mais antiga do futebol em Coimbra
[i] Memória do Dr. A. J. Soares