"Com os olhos no céu da boca" foi concebida por Sheila Oliveira SP, artista visual e fotógrafa especializada em alimentos, a partir do seu interesse por imagens de outros artistas que de alguma maneira, mesmo que indiretamente e sem fazer parte de suas poéticas, se relacionam com a alimentação.
Trata-se de uma exposição coletiva, cujo objetivo é gerar experiências estéticas visuais, a partir das imagens das obras apresentadas, criando novas possibilidades perceptivas sobre a importância dos hábitos alimentares e seus impactos, sejam eles coletivos ou individuais.
O projeto piloto ocorreu em 2019 no Centro Cultural Correios, com a participação de 12 artistas visuais.
"Quando me apaixonei por fotografia de alimentos, eu apenas me deliciava com as formas, as cores.. Hoje tenho outra percepção: a alimentação nos conecta com a natureza, não importa onde estejamos, trata-se de uma conexão primordial que nos liga a tudo de alguma forma." diz Sheila Oliveira SP.
A Exposição Com os Olhos no Céu da Boca não é senão uma multivisão de um skyline autofágico. O olhar que eterniza o momento em que se come, a criatura que surge do resto que não se come, aquele que planta o que se come, aquele que leva a comida fria e a planta que brota, se come.
Patrícia Cicarelli
(Contista e Jornalista Literária)
Com os Olhos no Céu da Boca, curadoria e concepção da artista visual Sheila Oliveira, traz no próprio título a dimensão da mostra. Talvez, emergindo das entranhas criativas da artista, o olhar para o céu da boca rompa com todos os parâmetros do universo em que reside a alimentação do homem.
Ter em sua boca um céu, aquele lugar cósmico que nunca é o que vislumbramos porque estrelas já mortas ainda brilham como se vivas estivessem, é como o paladar que resgatamos da memória da dor e do amor e trazemos para a boca, como se algo ali estivéssemos a mastigar, triturar e engolir com a garganta e com a alma.
Esse objeto-matéria, coisa que chamamos de alimento, cumpre destinos intangíveis na trajetória humana. Comer e não comer. Fome e gula. Prazer e sofrer. Vida e morte. Comer talvez seja o elo perdido da nossa existência, da primeira molécula que se fez viva porque foi capaz de “comer” um aminoácido a mais e, então, reproduzir-se. O poder mágico do alimento, da transmutação da matéria inerte em matéria viva, que se alimenta, que se alimenta, que se alimenta e que um dia se faz humano.
Qual essência fantástica contêm os alimentos, o que quer que sejam, que geram vida, que reproduzem a vida, que dão a vida que tiram a vida? Corpo e alma, do quê os alimentamos? Do que se alimenta a loucura, a insanidade? Do que se alimenta a esperança? A esperança é seu próprio alimento, o mel que adoça nossa vida finita. Do pó ao pó, as cinzas da vida que retornam para refazer o barro a ser moldado até que um sopro o traga à luz que o alimentará novamente de vida.
A maçã de Adão e Eva, a Santa Ceia, a Hóstia-Corpo de Cristo, o sal da terra e do mar, a seiva das árvores, o néctar das flores, o leite materno, a doce saliva do beijo, a esperança que nutre, esses Olhos no Céu da Boca que tudo veem abrem infinitos caminhos para saborearmos o olhar de cada artista dessa mostra, seja pela imagem reveladora que seu trabalho traz, seja pelo inusitado da obra ou pelo impacto que nos causa diante daquilo do que nos alimentamos e quase nunca percebemos.
Entre os 12 artistas convidados na ediçeão piloto em 2019 estavam os fotógrafos Ana Póvoas, André Douek, Claudio Edinger, Edu Simões, Sandra Bacchi e Vivian Cury, além dos artistas visuais Ana Almeida, Anais-Karenin, Cris Bierrenbach, Elias Muradi, Estefania Gavina e Gustavo Lacerda. Em comum, todas as obras foram produzidas para séries autorais dos artistas, em sua maioria sem nenhuma ligação direta com alimentos ou alimentação.
Porém, a partir do olhar de Sheila Oliveira, as fotografias e instalações se inserem nos mais diversos contextos da alimentação, como o compartilhar, costumes, cultivo, consumo, consciência e memória afetiva. "A partir da pesquisa sobre a produção artística brasileira, com ênfase na linguagem fotográfica, os visitantes são convidados à uma experiência estética visual sobre a esfera da alimentação em suas relações particulares, sociais e culturais." completa a artista e curadora da exposição, Sheila Oliveira.
Foram apresentadas 27 obras: em sua maior parte fotografias, assim como "imagens expandidas" como, por exemplo, esculturas, instalações e dois site specific.
"Com os olhos no céu da boca" contou ainda com uma programação especial incluindo o dia 16 de outubro, Dia Internacional da Alimentação, oferecendo oficinas com artistas, visita guiada e bate papo com o professor e historiador João Luiz Máximo. Além de ter recebido a visita e apoio dos curadores Eder Chiodetto e Fabiana Bruno, enriquecendo o conteúdo compartilhado entre os visitantes.
"Com os olhos no céu da boca" é um dos movimentos artísticos do LAB Fotossensível. Sua 1a. edição física aconteceu em 2019, dando início as primeiras experiências do LAB. Após a pandemia tornou-se também virtual. Acompanhe aqui!
Sheila Oliveira SP - concepção, curadoria e realização
É artista visual, realizadora de projetos e fotógrafa especializada em alimentos. Estudou Biblioteconomia e fez pós em Arteterapia Junguiana. Ama a pesquisa e se inspira no poder das imagens desenvolvendo uma poética que investiga a potência e possíveis desdobramentos dos afetos, sempre criando analogias entre nossa existência e a existência das imagens. Participa de diversas exposições coletivas e individuais desde 1996. Entre os principais prêmios está o Prêmio Mundie de Fotografia em 2018. Tem seu trabalho em Museus e coleções particulares.
Saiba mais acessando o meu site autoral em www.sheilaoliveira.com.br .