Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional e Tecnológica
A extensão elevada aos mesmos patamares do ensino e da pesquisa, torna real o ciclo dialógico e de construção de conhecimento, capaz de sustentar e consolidar a indissociabilidade, não somente como finalidade, mas também como possibilidade de caminhos da própria instituição. O PDI 2019-2026 trás a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão como um dos princípios dentro dos objetivos e diretrizes da extensão do IFFar, conceituando da seguinte maneira:
"Pressupõe-se neste princípio que as ações de extensão adquirem maior efetividade se estiverem vinculadas ao processo de formação de pessoas (Ensino) e de geração de conhecimento (Pesquisa). Na relação Extensão-Ensino, a diretriz de indissociabilidade coloca o estudante como protagonista de suas formações técnica e cidadã. Na relação Extensão-Pesquisa, visando à produção de conhecimento, a Extensão Universitária sustenta-se principalmente em metodologias participativas, no formato Impacto na formação do estudante."
IFFar, 2019, p.63
Em pelo menos metade dos projetos analisados é possível verificar explicitamente um grau de relação com a categoria indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, buscando, em alguns, aproximar-se da prática de uma pesquisa participante, em que a pesquisa tem diferentes dimensões: como uma prática social, política e pedagógica (STRECK, ADAMS, 2011) e articular, através dela com o ensino e a extensão.
Consolidar a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão é viabilizar a possibilidade de construção de conhecimento em cada etapa, sujeitos e espaços destas ações, pois tal como nos coloca Pucci (1991), tal conceito não deve se restringir a questões formais e legais, tornando-se presente na construção e consolidação de uma instituição que produz conhecimentos, forma cidadãos emancipados e críticos e provoca transformações da realidade.
A partir das entrevistas, ressalta-se que há uma unanimidade entre as/os coordenadoras/coordenadores na efetiva relação estabelecida entre extensão e ensino, seja através das inúmeras e variadas possibilidades de contextualização do aprendido em sala de aula, seja através de um movimento motivacional intrínseco neste processo relacional entre extensão e ensino, ou seja, ainda, na construção de conhecimentos e saberes a partir deste envolvimento.
A indissociabilidade entre ensino e extensão, a partir da realidade deste/a aluno/a, toma sentido no momento em que o ponto de partida é o seu próprio contexto, sua realidade, e que esta relação é o que lhe instiga, lhe movimenta, lhe motiva, o que nas palavras de Gadotti (2017, p.5), sobre as concepções de Freire, nos remete a pensar que “não se pode aprender, se o novo conhecimento é contraditório como o contexto do aprendiz” e que “esta prática não pode ser reduzida a um simples suporte técnico, mas inclui o esforço humano para decifrar-se, decifrar o outro e o contexto onde se vive.”
Já a relação extensão e pesquisa apresenta alguns pontos divergentes entre as/os entrevistadas/os, tanto no entendimento de que de fato ela ocorra, quanto na própria concepção do que é pesquisa: uma posição é de que efetivamente essa relação entre extensão e a pesquisa como metodologia científica ocorre e são indissociáveis, respeitando as características específicas e peculiares do ensino e da pesquisa, tal como Reimer (2014, p.54) reitera ao citar que o “ensino, a pesquisa e a extensão têm características e olhares próprios sendo imprescindível a presença de cada um deles – como diferentes facetas de um prisma – para a visualização e compreensão integral do conhecimento”.
Uma segunda posição é de que este movimento é indissociável por si só, visto que qualquer ação de extensão ou ensino requer algum tipo de pesquisa, mas diferencia-se do primeiro exemplo ao colocar a pesquisa em uma perspectiva menos científica e mais popular, em um entendimento de que pesquisa é tudo, correndo o risco de distanciar-se, em algum momento, de rigores metodológicos, o que para Rays (2003) justifica, visto que a pesquisa, tanto básica quanto aplicada, a partir de um contato interativo com problemas específicos da sociedade pode provocar nos pesquisadores a necessidade de transformarem os resultados de suas investigações em ações cognitivas e práticas, visando auxiliar a comunidade na resolução destes problemas.
Já em um terceiro entendimento, pode-se ver a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão sob um aspecto mais conceitual, colocando que tal interação para ser efetiva e valorizada ocorra apenas nas perspectiva institucional e não em atividades pontuais e isoladas. Há aqui um discurso contraditório, pois embora a/o coordenadora/coordenador defenda a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, o mesmo coloca esta prática a nível macro e não vê estas perspectivas a nível de projetos, trazendo a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão para uma visão mais ampla, que Magalhães (2007, p.170) coloca como organização estrutural e que propõe “implantação de estruturas intermediárias que dialoguem com as três pró-reitorias, atuando, sobretudo, na gestão de projetos integrados”.
Corre-se o risco aqui de um processo fragmentado, onde as pesquisas não consigam chegar no espaço de sala de aula para serem rediscutidas, oxigenando o conhecimento escolar; as extensões normalmente sendo vistas como cursos de atualização oferecidos à comunidade; o ensino ocorre apenas como transmissão de conhecimentos descontextualizados sem nenhum significado, como se os alunos fossem armazenar conhecimentos para posterior usos em suas profissões, visto que são nas ações práticas, tais como a própria Prática Profissional Integrada na EPT ou a Prática enquanto componente curricular que proporcionam experiências de indissociabilidade entre Ensino, Pesquisa e Extensão.
As diferentes posturas e perspectivas sobre a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, contradizem-se em alguns aspectos, muito pelas diferentes formações, práticas, vivências e áreas de cada um/a, mas convergem no ponto essencial da discussão em que a real efetivação desta indissociabilidade é de suma importância para o desenvolvimento de um entendimento integral e concreto da sociedade.
"É relevante considerar a diversidade de atores envolvidos no ensino, na pesquisa e na extensão, cada um com seu perfil próprio de atuação profissional e acadêmica. A forma como os diversos sujeitos veem e praticam a indissociabilidade está intimamente ligada a sua trajetória pessoal e acadêmica e pode ser, também, influenciada pela área de conhecimento em que atuam. Além disso, essa diversidade é construída pelas relações que se estabelecem nas práticas acadêmicas."
REIMER, 2014, p.55
As perspectivas de indissociabilidade são concretas e reais nos projetos, no entanto fica a termo de reflexão se essas ações se instrumentalizam, como indica Maciel (2017, p.155), como “um instrumento teórico político de orientação da prática acadêmica e sindical na luta pela emancipação da sociedade e da universidade atual”, tornando essa indissociabilidade alinhada aos objetivos extensionistas de impacto e transformação social, tal como será explicitado na próxima categoria.
...buscamos dialogar neste texto sobre a efetivação da indissociabilidade entre o ensino, a pesquisa e a extensão e a contribuição deste preceito para o entendimento e a problematização da sociedade de forma integral.
Como implementar uma prática indissociável de ensino, pesquisa e extensão sem perder as características e especificidades de cada uma dessas dimensões?
CAMBRAIA, A. C. ; ZANON, L. B. Formação docente: recriação da prática curricular no ensino superior. Curitiba; Appris, 2019.
GADOTTI, Moacir. Extensão universitária: para quê?. Instituto Paulo Freire, São Paulo - SP, 15 fev. 2017. Disponível em: <http://www.paulofreire.org/noticias/557-extensao-universitaria-para-que>. Acesso em: 13 ago 2020.
INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA FARROUPILHA - IFFAR. Plano de Desenvolvimento Institucional do Instituto Federal Farroupilha 2019-2026. Santa Maria - RS, 2019. Disponível em <https://www.iffarroupilha.edu.br/documentos-do-pdi/item/13876-pdi-2019-2026> Acesso em: 17 nov 2019.
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SCHOR, I.; FREIRE, P. Medo e Ousadia - o cotidiano do professor. Traduzido por: Adriana Lopez. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
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