Anisinho
Da terra natal, Caetité, no interior da Bahia, onde morou até os 14 anos, Anísio Teixeira conservou, vida afora, uma essência sertaneja. A isso somam-se a educação jesuítica e um jeito absolutamente reservado, nada afeito a vaidades e holofotes, elementos que nos dão pistas de como era o educador em sua intimidade. Persistente no estímulo à reflexão, não gostava quando concordavam com ele de maneira fácil: Anísio queria sempre o debate, buscava o questionamento e desejava que seus interlocutores, incluindo filhos e netos, fizessem o mesmo. A relação com o outro, portanto, desenvolvia-se com base na autonomia do pensamento. E também no amor: homem apaixonado pela esposa, Emília Ferreira Teixeira, a Emilinha – como se nota nas cartas –, pela natureza (não à toa, quando soube que se tornaria avô, construiu um sítio em Itaipava, na região serrana do Rio de Janeiro, para acomodar a família que crescia) e pelos livros. Em Anisinho, apelido de infância, afeto e exercício crítico conviviam um com o outro.
Políticas Públicas
Conhecer a trajetória de Anísio Teixeira nos coloca em contato não só com a biografia de um homem, mas também com a biografia do Brasil. Foi em Salvador (BA), no Rio de Janeiro (RJ) e em Brasília (DF) – as três cidades capitais do país – que ele atuou com mais força, acompanhando as transformações nacionais ao longo do século XX e fazendo o que de melhor sabia fazer: políticas públicas. Políticas públicas, devemos lembrar, são programas e ações desenvolvidos por Estados democráticos visando à garantia dos direitos de todos os cidadãos e à resolução de problemas. E, para Anísio, o principal problema brasileiro é a educação. Do “Manifesto dos pioneiros da Educação Nova”, de 1932, aos princípios da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, promulgada em 1996), que remontam aos anos 1960, do trabalho no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) – fundado em 1937 e que, hoje, leva o nome do nosso homenageado – à criação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), em 1951, Anísio dedicou-se tanto à teoria quanto à prática, levando os debates da filosofia da educação para o campo da gestão pública. Um sujeito empenhado em tirar as ideias do abstrato e colocá-las no mundo concreto. Como sintetizou o professor Afrânio Coutinho: Anísio pensava e agia. Pensava com as mãos.
Escola Parque
O projeto anisiano de educação distancia-se totalmente da ideia de que um processo pedagógico corresponde apenas à memorização de conteúdo. Pelo contrário: para o professor, o ensino e a aprendizagem devem oferecer aos estudantes, desde crianças, ferramentas e vivências para a atuação na vida social de modo livre e responsável. Com isso em mente, Anísio Teixeira criou, no âmbito da Educação Básica, as escolas-classe e as escolas-parque: as primeiras ocupam-se das disciplinas voltadas para as ciências humanas, exatas e biológicas; as outras, por sua vez, trazem atividades artísticas, de educação física, questões ligadas ao mundo do trabalho e às finanças, incentivo à sensibilidade e socialização. Almejando um ensino integral e integrado à sociedade, Anísio inaugurou em 1950, na cidade de Salvador (BA), o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, a escola-parque pioneira. Mas foi uma década depois, em 1960, na Escola-Parque 307/308 Sul, localizada em Brasília (DF) – referência adotada, posteriormente, para outras escolas-parque da capital brasileira –, que as propostas do educador ganharam uma materialidade ainda mais fiel aos ideais por ele defendidos, já que, nesse caso, o programa educacional estava integrado a um novo desenho de cidade e país.
Personalidades
“Amigo das crianças”: assim Jorge Amado define Anísio Teixeira na dedicatória de Capitães da areia (1937), romance que, segundo o autor, trata de meninos e meninas abandonados nas ruas da Bahia. A expressão usada por Jorge resume a preocupação do educador com as infâncias, em especial com a formação escolar, crítica e cidadã dos mais novos. Não só das crianças, porém, ele era próximo: sujeito dado às amizades, Anísio fez parte de uma rede de interlocuções intelectuais e afetuosas por toda a vida. E algumas dessas pessoas, como ele, são figuras importantes para a educação e a cultura brasileira – de Darcy Ribeiro a Manuel Bandeira, de Paulo Freire ao próprio Jorge Amado. Em cartas, dedicatórias e matérias de jornal, essas afinidades são evidenciadas.
Imortal
No início de 1971, Anísio Teixeira estava se preparando para ingressar na Academia Brasileira de Letras (ABL), após relutar, por modéstia, em concorrer a uma vaga na instituição. Ele era o único candidato à cadeira número 36. No entanto, em 13 de março do mesmo ano, o educador foi encontrado morto no fosso do elevador do prédio onde morava o professor Aurélio Buarque de Holanda, integrante da ABL, a quem Anísio fora visitar justamente por causa do processo de candidatura. O caso, analisado pela Comissão da Verdade, segue sem conclusão definitiva. O que se mantém entre nós, contudo, é o legado de Anísio, contribuição inestimável para a educação brasileira. O profeta do saber, da cultura e da transformação social, como disse o filólogo Antônio Houaiss, conquistou, por direito, a dimensão da imortalidade: seu projeto continua nos apontando futuros possíveis, mais justos, nos quais o ensino público de qualidade seja a força motriz da nação.
Abertura
2 de setembro de 2026, às 19h30
Visitação
até 15 de novembro de 2026
terças-feiras a sábados, das 11h às 20h
domingos e feriados das 11h às 19h
Piso térreo
OCUPAÇÃO ANÍSIO TEIXEIRA
Concepção e realização
Itaú Cultural
Curadoria
Itaú Cultural e Itaú Social
Consultoria
Ingrid Dittrich Wiggers
Pesquisa
Vinícius de Oliveira Coêlho (Memorare Serviços Arquivísticos)
Projeto expográfico
Thereza Faria
Projeto de acessibilidade
Itaú Cultural
ITAÚ CULTURAL
Avenida Paulista, 149 – próximo ao metrô Brigadeiro
Entrada gratuita
Espaços acessíveis
o prédio apresenta facilidades para pessoas com deficiência física
Estacionamento
Rua Leôncio de Carvalho, 108
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