Era uma vez um casal de pardais, o Sr. Pardal e a D. Pardaloca. No mês de abril daquela primavera, o Sr. Pardal teve uma conversa muito séria com a mulher, estava na altura de terem filhos!
A D. Pardaloca não queria ter filhos, porque achava que assim é que estava bem, podia passear sem compromissos e ir a todos os lugares do mundo, sem preocupações e sem encargos.
Mas o Sr. Pardal insistia na ideia de que os filhos eram muito importantes para a vida de um casal e ficava a pensar como iria ser muito bom… a companhia, a ajuda, a partilha, o amor e o carinho da criançada!
Com tantos argumentos, a D. Pardaloca lá resolveu começar a fazer o ninho, com todos os cuidados, e a pôr os ovos, um… dois… três… quatro… cinco! Enquanto isso, o Sr. Pardal mostrava afeto, carinho e ajuda à sua querida Pardaloca e, por isso, estava orgulhoso. Finalmente, ia ser pai e, se tudo corresse bem, seria de cinco pardais bebés! Que alegria, que satisfação!
A D. Pardaloca já estava no choco, o seu corpo estava quente, estava sonolenta, pachorrenta e calma… muito calma! Passaram dias, semanas e, a certa altura, a D. Pardaloca começou a sentir uma coisa estranha, espreitou com cuidado e observou que o primeiro ovo começava a estalar. A seguir, estalaram os outros três!
A D. Pardaloca estava muito feliz. Quatro filhos, qual deles o mais bonito! Calma… faltava um ovo! O último ovo estava quieto, sossegado… e não havia indício nenhum de que o pardal quisesse nascer. No seu interior, estava um passarinho que, assistindo a todo aquele aparato, o nascimento dos irmãos, encolhia-se cada vez mais e tinha pensamentos que o levavam a não querer nascer! Ele achava a festa do nascimento dos irmãos, completamente desnecessária e pensava: “Aqui dentro é que eu estou bem, quentinho, sossegado! Não estou nada interessado em conhecer o mundo, o meu mundo é isto, não quero ir para o frio, não quero fazer nada, não quero sair daqui!”. Enquanto isto se passava na pequena cabecita do bebé pardal, os dias iam passando, e os pais ficavam cada vez mais preocupados, até que um dia o Sr. Pardal sugeriu à D. Pardaloca que ajudasse o pardalito a sair do ovo. A D. Pardaloca assim fez. Com todo o cuidado e afeto, começou a dar bicadas na casca do ovo e, muito lentamente, o ovo foi estalando e o pardalito, muito enfezado, ia dizendo:
- Não quero sair daquiiiiii! Aqui está mais quentinhooooo!
Os pais pardais bem se esforçavam por explicar as vantagens do nascer, do crescer, mas ele nada disso queria saber e exclamava:
- Deixem-me em paz!
A felicidade daqueles pais já não era a mesma. Cinco filhos muito bonitos, mas um preocupava-os. Sempre tristonho, de mau humor, nada lhe interessava, nada lhe despertava a curiosidade, nada queria fazer...
Os dias foram passando e chegou a altura dos primeiros ensinamentos. O voo e a procura de comida. Enfim, a liberdade!
O Sr. Pardal reuniu a família e explicou que os dias que se iriam seguir seriam muito importantes para o crescimento dos seus filhos.
Dos cinco pardais, quatro estavam felizes, iriam aprender coisas novas, entre elas voar! Só o filho mais novo estava descontente… e, batendo as asas, refilava:
- Não quero… não vou… não vou!!!
As explicações da mãe, cheias de carinho e incentivos, para a sua vida futura, não foram suficientes para o tranquilizar. Antes pelo contrário, ainda o irritaram mais e o tornaram mais refilão. Nem os pais, nem os irmãos o conseguiram demover!
As descobertas começaram e a birra do pardalito venceu, pois não foi à primeira lição de voo, não foi à segunda e também não foi à terceira! Os irmãos depressa aprenderam a voar e devagarinho lá foram procurando as primeiras sementes, atendendo sempre às recomendações dos pais, para estarem atentos aos rapazes das fisgas.
O Sr. Pardal deu o nome de “Pouca Coisa” ao seu filho mais novo, pois os irmãos sabiam fazer tanta coisa e ele… pouca coisa sabia fazer!
Um dia, o Sr. Pardal precisou de ir à floresta vizinha visitar o seu irmão, o Sr. Pardalão. Era o seu irmão mais velho, estava doente e necessitava de ajuda.
O Sr. Pardal reuniu a família e explicou a situação, teriam de arrumar as malas e estar, pelo menos, dez dias fora de casa, para, desta forma, ajudarem a família do irmão. Todos se mostraram entusiasmados… os filhos iriam fazer a sua primeira viagem.
O “Pouca Coisa” nem quis ouvir o que o pai lhe dizia, tapou os ouvidos com as asas e disse alto e a bom som:
- Daqui não saio! Daqui ninguém me tira!
Pudera… ele nem sequer sabia voar! Os pais ainda lhe disseram que o levariam num cestinho, mas ele nem sequer quis saber.
- Não vou… não vou… e não vou!
Os pais, resignados, lá partiram, deixando o “Pouca Coisa” sossegado no ninho, recomendando-lhe que dali não saísse sem que eles regressassem. Deixaram-lhe comida, mas, num ato de raiva, o “Pouca Coisa” deitou tudo fora.
Passou um só dia e o “Pouca Coisa” começou a sentir fome. Ainda resistiu, tentando mentalizar-se de que não queria e não podia sair do ninho, mas a fome apertava e… tomou uma atitude! Lentamente, levantou uma pata, depois a outra e espreitou para fora do ninho. Ficou aterrorizado! Voltou a aninhar-se, pois ali estava seguro. Só que a fome já se tornava insuportável e “Pouca Coisa” teve mesmo de procurar algo para comer. Devagar, devagarinho… foi colocando uma pata de fora, a seguir a outra e, todo a tremer, lá deu um passinho pequenino. Depois deu outro e mais outro e começou a caminhar pelo ramo fora! Ia cheio de medo, mas ao mesmo tempo sentia algo novo, a curiosidade de saber o que estava para além da folhagem!
Caminhou, caminhou e, de repente, parou de imediato, por se sentir atraído por um som deslumbrante. “Pouca Coisa” parou extasiado:
– Que música tão bonita!!!
O pássaro cantor fez também ele uma pausa no seu canto, quando olhou para aquele passarito frágil, assustado e ao mesmo tempo maravilhado e perguntou:
- Quem és tu?
-“Pouca Coisa”! Que tens tu a ver com isso? - respondeu de imediato, num tom ríspido, mal-humorado e até mal-educado!
O pássaro cantor pensou para dentro “… que passarito tão arrebitado!” e apressou-se a fazê-lo entender que aquela não era a maneira mais correta de se dirigir a um estranho, que nada de mal lhe tinha feito!
O pássaro cantor era um rouxinol velho e sábio e, tentando aproximar-se do pardalito presunçoso, perguntou-lhe:
- Gostas do meu canto?
Naquela altura, o “Pouca Coisa” sentiu que tinha de responder com algum cuidado, porque de facto tinha gostado muito daquela música.
E foi através da música que se iniciou uma longa conversa entre o rouxinol e o “Pouca Coisa”.
“Pouca Coisa”, aquele pequeno pássaro arrogante, começou a passar horas na companhia do rouxinol. Aprendeu com ele a cantar, a voar e até a procurar comida. Falavam de tudo… das coisas simples da vida. De preguiçoso e refilão passou a aluno interessado e, depressa, tudo aprendeu! Todos os dias, ia ter com o rouxinol e ali passava bons momentos, entre treinos de voos, canções melodiosas e procura de sementes. Andava muito feliz, o “Pouca Coisa”!
Durante o dia, o “Pouca Coisa” andava tão entusiasmado que nem da sua família se lembrava, mas à noite, sozinho no ninho, sentia saudades do carinho dos pais e das zaragatas com os irmãos, mas a alegria e o entusiasmo por aprender coisas novas superavam todo o resto, e depressa esses sentimentos se dissipavam com o luar!
O tio Pardalão já estava melhor e a família Pardal regressou a casa, ao fim de quinze dias. Ficaram felizes com o reencontro do “Pouca Coisa”, acharam-no crescido, trouxeram-lhe presentes e até lhe fizeram uma festa, mas a família Pardal estava preocupada. Tiveram conhecimento de algumas situações desagradáveis: duas famílias de pardais, ainda seus parentes, tinham morrido alvejadas pelas pedras, atiradas pelos rapazes das fisgas. E… se os rapazes das fisgas chegassem ali ao bosque? Tentaram tranquilizar-se acreditando que àquele cantinho eles não chegariam.
No dia seguinte, retomaram as suas atividades. Voaram, voaram, procuraram comida e até foram visitar alguns vizinhos. Não notaram nada de diferente no “Pouca Coisa”. Na realidade, parecia mais calado e um pouco sossegado… só saía do ninho quando os outros não estavam…
Passaram-se dias…
Uma manhã, o Sr. Pardal foi com a família passear pelo ramo do salgueiro, que se encontrava à beira do rio. “Pouca Coisa” seguia-os em silêncio. O rouxinol já lhe tinha dito que os rapazes das fisgas andavam naquele local do bosque. Quando iam a meio do ramo, o “Pouca Coisa” escutou uma conversa:
- Olha… pardais! São tantos! Que grande petisco vamos comer hoje!
- Acertas no primeiro e deixas os outros para mim!
O “Pouca Coisa” apressou-se e voou para a frente dos pais. Parou e começou a cantarolar uma das mais bonitas canções, que o seu amigo rouxinol lhe tinha ensinado.
Os rapazes das fisgas ficaram espantados e logo um deles se apressou a gritar:
– Alto…! Não são pardais.
- Pois é… os pardais não cantam e nós não acertamos em pássaros cantores! - concluiu o outro rapaz.
O Sr. Pardal e a D. Pardaloca nem queriam acreditar no que estava a acontecer. O “Pouca Coisa” acabava de salvar a vida de toda a família, mas como era possível? Ele não sabia fazer nada!!! Mas, afinal, tinha mostrado tanta coragem e determinação. Tinha aprendido a cantar. Coisa rara em pardal! Aos poucos, os pais foram descobrindo que ele sabia voar e procurar comida. “Pouca Coisa” tinha crescido muito. A sua família fez-lhe uma enorme festa e batizou-o com um novo nome. A partir daquele dia, chamar-se-ia… Muita Coisa, porque, de facto, ele sabia fazer muito mais coisas do que qualquer outro pardal!
Era uma vez um casal de pardais
Que tinha cinco filhos,
Cada um deles
Tinha o bico encarnado.
Ainda agora comecei
Já está o conto acabado…!
Ângela Maria Oliveira Varela