Olá, professor(a)!
Neste 4º bimestre, vamos dialogar sobre o conceito de multiculturalidade e a necessidade de se pensar em uma escola plural, que possibilite o acesso e a permanência de todos(as) os(as) seus(as) estudantes, considerando suas particularidades, partindo da ideia de um trabalho conjunto da comunidade escolar.
Além disso, será abordada a distinção entre abandono e evasão escolar, proporcionando o conhecimento das vulnerabilidades que podem levar ao abandono escolar.
Iniciaremos nosso percurso com uma sensibilização, a partir da leitura e da interpretação da obra “Operários” (1933), de Tarsila do Amaral.
Após a observação da obra, reflita sobre os seguintes questionamentos:
Qual a sua interpretação sobre essa obra?
Quais relações você consegue estabelecer entre a obra e o seu contexto escolar?
Agora, convidamos você a relacionar a obra e o reconhecimento das diversidades na escola em que atua. Na perspectiva multiculturalista, considera-se a homogeneização cultural dos currículos, que historicamente priorizou uma visão eurocêntrica, silenciando muitas das classes sociais no Brasil. Essa abordagem busca valorizar as diversidades raciais e culturais presentes na sociedade brasileira, onde todas as diferenças sejam ensinadas e conhecidas.
A obra modernista “Operários” (1933), de Tarsila do Amaral, é uma pintura a óleo e, originalmente, refletia a percepção da artista quanto ao efeito da industrialização na cidade de São Paulo, sobretudo em relação ao intenso fluxo migratório das diversas regiões do país. Nesse sentido, a pintura permite a observação histórica do momento, bem como a compreensão do choque de hibridização cultural, diante da construção da identidade local (considerando o ponto de vista da elite), levando o observador ao entendimento sobre a existência da diversidade étnico-cultural e como ela pode contribuir para a equanimidade e qualidade dos processos educacionais. Nossa intenção, ao trazer essa obra, é provocar uma reflexão sobre o reconhecimento das diversidades em seu ambiente escolar. Para Booth e Ainscow (2000, p. 20, tradução nossa):
• Todos os estudantes têm direito à educação nas suas localidades.
• A diversidade não pode ser considerada um problema a resolver, mas sim uma riqueza para auxiliar na aprendizagem de todos.
• A inclusão diz respeito ao esforço mútuo de relacionamento entre estabelecimentos de ensino e suas comunidades.
• A educação inclusiva é um aspecto da sociedade inclusiva.
A multiculturalidade nasce em contraponto à cultura homogênea, sendo o reconhecimento da individualidade e das diferenças de cada um(a). O termo origina-se durante a luta da população negra contra o racismo, nos Estados Unidos, buscando uma absorção da cultura negra pela cultura dominante (anglo-saxã) naquele país. Segundo Gadotti, a concepção pedagógica da multiculturalidade
[...] implica uma pedagogia dos direitos humanos e de respeito ao meio ambiente. Ela insere-se hoje num grande movimento cultural pela equidade de oportunidades educacionais e qualidade de vida, particularmente em relação às minorias e às camadas pobres da população. Muitas pessoas hoje não têm acesso à educação, quer por razões étnicas, quer por razões de extrema pobreza ou por deficiências de toda ordem (1992, p. 21-22).
Importa destacar que a educação é classificada como direito social e é mencionada no artigo 6º da Constituição Federal de 1988, assim como a saúde, a alimentação, o trabalho, dentre outros direitos que são necessários à vida digna da pessoa. Nesse sentido, Saviani (2013) aponta, em seus trabalhos, que a educação como direito social se configura como condição necessária, mesmo que ainda não suficiente, para exercer todos os demais direitos. Para um respaldo jurídico da abordagem do tema, também são citados, aqui, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de 1990 (Art. 53 e Art. 58), a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), de 1996 (Art. 3º) e a Deliberação n. 10.814, de 10 de março de 2016, do Conselho Estadual de Educação de Mato Grosso do Sul (Art. 1º). Desse modo, é fundamental enfatizar que, mesmo já conhecendo essas legislações, falar sobre educação como um direito de todos(as) se faz necessário.
Nessa perspectiva, é importante destacar que a escola deve ser pensada para todos os públicos, desde seu espaço físico até seus documentos basilares, como o PPP da instituição, que é um documento vivo e deve ser atualizado constantemente, pois descreve as intenções e as práticas que a escola fomenta, salientando que isso se realiza por meio de um trabalho colaborativo, pensando nas multiculturalidades. Assim, na educação, não se deve apenas “universalizar” o seu acesso e permanência, mas sim “promover uma educação para o reconhecimento do ‘outro’, para o diálogo entre os diferentes grupos sociais e culturais” (Candau, 2008, p. 52).
Professor(a), após discutirmos o conceito de multiculturalidade, na perspectiva de uma escola para todos(as), faremos o estudo de casos de 6 estudantes da escola fictícia E.E. Helena Meirelles. Chegamos no momento do conselho de classe final e será feita a deliberação sobre aprovação ou reprovação desses(as) estudantes, no componente curricular de Língua Portuguesa.
Agora que você já conhece os(as) estudantes, faremos uma reflexão sobre as ações que poderiam ter sido realizadas no decorrer do ano letivo, para que esses(as) estudantes tivessem maior rendimento escolar e presença nas aulas. Para que essa reflexão seja possível, discutiremos, antes, algumas temáticas e conceitos importantes, a saber: abandono, reprovação e retenção escolar, vulnerabilidades, Educação Especial, além da cultura de paz na escola.
Abandono escolar
É importante que se faça a distinção entre duas expressões utilizadas, geralmente, como sinônimas: abandono e evasão escolar. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira - Inep, podemos diferenciar os conceitos de evasão e abandono escolar da seguinte forma:
Abandono: o(a) estudante desiste das atividades, mas retorna no ano seguinte.
Evasão: o(a) estudante não retorna mais para o sistema escolar.
Além dessas expressões, é utilizada pelo Inep, para a discussão dos dados do Censo Escolar, a expressão ‘taxa de insucesso escolar’, que considera a soma da taxa de abandono e de reprovação escolar. É importante olhar e refletir a respeito desses dados divulgados pelo Censo Escolar, para ter uma compreensão do cenário nacional e realizar um comparativo em relação aos dados do estado de Mato Grosso do Sul. Esses dados devem ser utilizados como base para ações nacionais e locais, em busca da manutenção e acolhimento dos(as) estudantes no espaço escolar.
Professor(a), você pode ampliar seus conhecimentos sobre os dados divulgados pelo Inep, referentes ao Censo Escolar do ano de 2023, acessando a Divulgação dos Resultados do Censo Escolar 2023. Para aprofundamentos acerca do conceito de abandono escolar, sugerimos a leitura do artigo a seguir: 📁Artigo - Filho e Araújo (2017), “Evasão e abandono escolar na educação básica no Brasil: fatores, causas e possíveis consequências”.
Professor(a), este tópico abordará as definições das vulnerabilidades social e escolar, além de como elas podem afetar o progresso escolar dos indivíduos. Ademais, serão abordados os fatores externos que podem contribuir para a vulnerabilidade na escola. Destaca-se que o termo vulnerabilidade começou a ser empregado na saúde na década de 1980, no movimento de Direitos Humanos, no âmbito das políticas públicas relacionadas à epidemia da AIDS/SIDA, e passou a ser usado em outros setores, nos diversos campos do saber.
A vulnerabilidade educacional, de acordo com Adorno, está direcionada à questão escolar, no sentido político-social:
O termo vulnerabilidade carrega em si a ideia de procurar compreender primeiramente todo um conjunto de elementos que caracterizam as condições de vida e as possibilidades de uma pessoa ou de um grupo – a rede de serviços disponíveis, como escola e unidade de saúde, os programas de cultura e lazer e formação profissional, ou seja, as ações do Estado que promovem justiça e cidadania entre eles – e avaliar em que medida essas pessoas têm acesso a tudo isso (2001, p.12).
Com relação à vulnerabilidade social, entre as muitas definições, Macedo e Kublikowski (2009) a definem como uma conjugação de fatores que podem afetar o nível de bem-estar das pessoas, famílias ou comunidades, resultando em uma exposição maior a riscos, como abandono escolar, indisciplina e dificuldade de aprendizagem.
A seguir, indicamos alguns fatores sociais que estão relacionados com a vulnerabilidade presente no contexto escolar, de acordo com a literatura.
Revela uma fragilidade impressa por diversos fatores que envolvem desde renda e trabalho, saúde e educação, até as condições de saneamento básico e transporte. Ademais, a aprendizagem pode ser afetada em decorrência da falta de acompanhamento dos responsáveis que, muitas vezes, não têm tempo, ou falta conhecimento para auxiliar os filhos nos estudos.
A questão étnico-racial é um assunto importante a ser abordado na escola para promover um ambiente inclusivo e respeitoso. A Lei 11.645/2008 tem como objetivo central o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena, proporcionando uma educação plural e tendo como base os direitos à cidadania no ambiente escolar.
Pode desempenhar um papel significativo no contexto escolar, influenciando em diversos aspectos que afetam estudantes, educadores e comunidades, tais como o acesso e a infraestrutura, o impacto ambiental, a economia local, os recursos financeiros, a cultura, a oportunidade de aprendizagem e os desafios logísticos.
A saúde e o bem-estar influenciam no rendimento escolar dos(as) estudantes. Segundo o artigo 3º da lei 8.080/1990, do Conselho Nacional de Saúde, “a saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros a alimentação, moradia, o saneamento básico, o meio ambiente; trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços (Brasil, 1990)”. Por isso, a ausência de um ou mais desses serviços pode afetar a trajetória dos indivíduos, seja em âmbito social ou escolar. No ano de 2007, por meio do Decreto Presidencial n. 6.286, de 05 de dezembro de 2007, os Ministérios da Educação e da Saúde criaram o Programa Saúde na Escola (PSE), uma política pública direcionada à melhoria da qualidade de vida da população brasileira e ao desenvolvimento integral dos(as) estudantes que frequentam as escolas públicas, melhorando a qualidade de vida dos(as) discentes. O programa oferece ações de prevenção, promoção da saúde e formação de vínculos, entre escolas e serviços de saúde.
A maternidade precoce pode afetar os planos de meninas e meninos, provocando sofrimento, instabilidade psicológica, tanto para a adolescente quanto para sua família, quando se deparam com essa situação. Geralmente, as meninas são mais afetadas, pois acabam assumindo a responsabilidade de criar o filho sem o apoio do pai e/ou familiares. Nessa direção,
Ramos et al. foram categóricos ao afirmar que a gravidez na adolescência causando a evasão escolar é um problema de saúde pública, apontam ainda que somente instruir aos adolescentes não é o suficiente, faz-se necessário atentar para a desigualdade social e inovar com políticas atuais para que o acesso à saúde e educação seja garantido para esta população mais vulnerável (Sarria et al., 2022, p. 3).
Salienta-se que os dados sobre gravidez no Mato Grosso do Sul mostram uma queda na faixa etária, entre 10 e 19 anos, de 2022 para 2023.
A relação entre a violência e o rendimento escolar é complexa e multifacetada, envolvendo diversos fatores que afetam, negativamente, o desempenho acadêmico dos(as) estudantes.
Estudos como os de Monteiro e Arruda (2011) e Santos, Fontes e May (1998), apontam para a hipótese de que a violência inibe os alunos(as) de frequentarem a escola, implicando em graves problemas sociais, visto que a associação da violência à evasão torna a problemática cíclica, pois a evasão gera a violência, que gera mais evasão (Monteiro et al., 2021, p. 118).
Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA (2024), ocorreu uma redução na taxa de homicídios registrados entre 2017 e 2022. Destaca-se que, a cada 100 jovens entre 15 e 19 anos mortos no Brasil, 34 foram vítimas de homicídio, com uma média de 62 jovens assassinados por dia. O Decreto Nº 16.276, de 20 de setembro de 2023, instituiu o Núcleo de Inteligência de Segurança Escolar (NISE). Entre as finalidades desse Decreto, o seu artigo 3º, inciso III prevê “contribuir para a redução dos índices de violência no âmbito escolar”. É importante enfatizar, também, que estudantes expostos à violência podem sofrer de estresse pós-traumático, bem como ansiedade e depressão, diminuindo o nível de concentração e frequência às aulas. Tais fatos podem aumentar a desmotivação e a rotatividade de professores, prejudicando o aprendizado e resultando em baixos índices de desempenho acadêmico.
Professor(a), a partir dos conceitos apresentados, convidamos você para a reflexão a respeito do seguinte questionamento: como diferentes vulnerabilidades podem interagir e impactar no desempenho escolar dos(as) estudantes e quais estratégias podem ser implementadas para mitigar esses efeitos no ambiente escolar?
Professor(a), para finalizar a primeira etapa da formação, apresentamos a Educação Especial, seu público-alvo e quais os documentos norteadores para nosso estado, em relação a essa modalidade de ensino.
A Deliberação CEE/MS 11.883/2019, que dispõe sobre a educação escolar de pessoas com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, na Rede Estadual de Ensino de Mato Grosso do Sul - REE/MS. A leitura desse documento é de grande importância, pois permitirá que encontre respostas a possíveis questionamentos e fomentará o preparo para um trabalho pedagógico na perspectiva inclusiva da educação, em conformidade com os documentos internacionais, como a Declaração de Salamanca. Nesse contexto, indica-se a leitura dos seguintes documentos:
Na Deliberação CEE/MS 11.883/2019, é apresentado o Plano Educacional Individualizado - PEI, que é um documento personalizado, elaborado para atender às necessidades específicas dos(as) estudantes público da Educação Especial. Esse plano é desenvolvido em colaboração entre educadores(as), profissionais de apoio, responsáveis e, quando apropriado, os(as) próprios(as) estudantes. Com metas mensuráveis, adaptações curriculares e estratégias de ensino diferenciadas, ele visa proporcionar suporte individualizado, garantindo a participação plena do(a) estudante nas atividades educacionais. Assim, revisado regularmente para refletir o progresso do(a) estudante, esse documento é respaldado por legislações de educação inclusiva em muitos países, destacando-se como uma ferramenta essencial para promover a igualdade de oportunidades e maximizar o potencial educacional. Esse plano deve ser um documento de fácil acesso aos(às) professores(as). Para tanto, acesse, abaixo, o Plano Educacional Individualizado - PEI.
Para finalizarmos nosso momento, convidamos você, professor(a), a fazer uma reflexão sobre os(as) estudantes da Educação Especial que marcaram sua trajetória e sobre como suas ações, no dia a dia escolar, podem contribuir para evitar a exclusão e a segregação, e para promover a inclusão, pois quando um(a) professor(a) realiza uma atividade que envolve o(a) seu estudante público da Educação Especial para os(as) demais estudantes da sala de aula, ele(a) inicia um processo de inclusão. Nessa direção, enfatiza-se que a Inclusão é o objetivo final e isso envolve transformar o ambiente escolar para que ele atenda às necessidades de todos(as) os(as) estudantes, garantindo que cada um(a) tenha oportunidades plenas de participar e aprender.
Estes slides foram utilizados no encontro presencial, em sua escola. Caso queira visualizar o que foi trabalhado no dia, clique na imagem abaixo!