A Escola Municipal de Ensino Fundamental Bilíngue para Surdos Vitória foi inaugurada em 19 de março de 2003, consolidando-se como a única instituição de ensino bilíngue para surdos no município de Canoas. Sua criação representou um marco histórico e educacional para a comunidade surda da cidade, garantindo o direito a uma educação em que a Língua Brasileira de Sinais (Libras) fosse reconhecida como primeira língua e o português escrito como segunda.
O processo de institucionalização da educação de surdos em Canoas remonta a experiências anteriores, quando foram organizadas salas especiais para turmas de alunos surdos na EMEF João Palma da Silva, escola destinada majoritariamente a estudantes ouvintes. A partir dessa experiência inicial, a mobilização e a luta de pais, professores e alunos surdos se intensificaram em defesa de um espaço escolar específico que assegurasse uma proposta pedagógica alinhada às necessidades da comunidade surda. Dessa mobilização nasceu a Escola Vitória, fruto do compromisso coletivo pela inclusão e pelo respeito à diferença linguística e cultural.
A trajetória da escola foi marcada pela liderança de importantes gestoras. A primeira diretora, professora Mari Lucia Neuhaus Mantelli, juntamente com sua equipe, desempenhou papel fundamental na consolidação da instituição. Posteriormente, também assumiram a direção as professoras Silvia Regina Silveira Mauer e Cristine Strobelt, que contribuíram para o fortalecimento e a expansão das práticas pedagógicas voltadas ao bilinguismo. No ano de 2022, encerrou-se o ciclo da professora Lucimeri Teixeira Piachiski como diretora, sendo a gestão atualmente conduzida pelo professor Rafael Schilling Fuck, responsável por dar continuidade ao trabalho e enfrentar os novos desafios da escola.
Ao longo de sua história, a EMEF Bilíngue para Surdos Vitória desenvolve diversos projetos pedagógicos inovadores, com o objetivo de potencializar o ensino e a aprendizagem dos estudantes surdos. Entre eles, destacam-se o Soletrando com as Mãos, a Mostra Cultural Surda, a Intervenção Comunicativa e as Práticas de Atividades da Vida Diária, todos concebidos para promover o protagonismo estudantil, a valorização da cultura surda e o fortalecimento das habilidades linguísticas, cognitivas e sociais dos alunos.
A infraestrutura da escola foi ampliada ao longo dos anos, passando a contar com espaços especializados que apoiam o processo educativo, como a Sala de Libras, o Laboratório de Ciências, a Sala de Ritmo, a Minicasa (ambiente pedagógico que simula uma residência, com móveis e dormitório), a Sala de Recursos Multifuncionais e uma cozinha experimental. Esses ambientes possibilitam experiências práticas e diversificadas, fundamentais para a aprendizagem integral dos estudantes.
Entretanto, em 2024, a escola enfrentou um dos maiores desafios de sua trajetória: foi fortemente atingida pela enchente que devastou parte do município de Canoas, ocasionando prejuízos significativos. Entre as perdas materiais estão a Sala Google, a Brinquedoteca, a Pracinha e uma série de materiais pedagógicos essenciais ao desenvolvimento das atividades escolares. Apesar das dificuldades, a instituição permanece resiliente, buscando alternativas para reconstituir seus espaços e garantir a continuidade das práticas educativas de qualidade.
No ano seguinte, em 12 de julho de 2025, a EMEF Bilíngue para Surdos Vitória protagonizou um novo capítulo em sua história ao promover o I Encontro de Professores e Equipe Diretiva de Escolas de Surdos (I EPEDES). O evento foi um marco não apenas para a escola, mas também para toda a comunidade surda, reunindo educadores e gestores de diferentes municípios em um espaço de trocas enriquecedoras, escuta sensível e fortalecimento da luta pela Educação Bilíngue para Surdos.
Participaram do encontro representantes de instituições de referência, como a EEEM para Surdos Profa. Lilia Mazeron (Porto Alegre), a Escola Especial para Surdos Frei Pacífico (Porto Alegre), a EMEF de Surdos Bilíngue Salomão Watnick (Porto Alegre), a EMEF Bilíngue para Surdos (Gravataí), a Escola Estadual Especial Padre Reus (Esteio) e a Escola Municipal de Educação Bilíngue Professora Carmen Regina Teixeira Baldino (Rio Grande), além da própria EMEF Bilíngue para Surdos Vitória (Canoas). A participação ativa das escolas convidadas, o conhecimento compartilhado pelos palestrantes e a dedicação dos Tradutores e Intérpretes de Libras (TILS) voluntários tornaram o evento memorável.
O I EPEDES fortaleceu a rede de apoio entre as instituições, reafirmou a importância da educação bilíngue e motivou a continuidade da caminhada em defesa dos direitos educacionais da comunidade surda. Mais do que um encontro, tornou-se símbolo de resistência, união e esperança de que novas edições consolidem ainda mais esse espaço de diálogo e valorização da identidade surda.
Atualmente, a escola atende alunos do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental em turno integral, reafirmando seu compromisso com uma educação bilíngue, inclusiva e integral. Além disso, a instituição também se consolidou como referência no ensino da Língua Brasileira de Sinais, oferecendo Cursos de Libras em diferentes níveis, que abrangem desde a formação inicial até a conversação e o aprofundamento. Atualmente, estão em andamento o Curso de Libras Básico, o Curso de Conversação em Libras Básico e o Curso de Libras Avançado, abertos à comunidade escolar e à população em geral.
Ao longo de mais de duas décadas de existência, a EMEF Bilíngue para Surdos Vitória vem se firmando como um espaço de formação, de cultura e de resistência, cujo compromisso maior é garantir o direito à educação bilíngue de qualidade, respeitando e valorizando a identidade e a cultura surda.