Os mapas são muito mais do que ferramentas para localizar lugares. Eles podem registrar histórias, preservar culturas e dar voz às comunidades. Essa é uma das principais ideias do mapeamento participativo, uma abordagem que permite que as próprias pessoas representem seus territórios e compartilhem seus conhecimentos .Muito antes desse conceito ganhar espaço na cartografia moderna, uma mulher indígena já utilizava os mapas para preservar a memória de seu povo: Shanawdithit.
Shanawdithit nasceu por volta do século XIX e pertencia ao povo Beothuk, habitante tradicional da ilha de Terra Nova (Newfoundland) , no atual Canadá. Durante sua vida, testemunhou os impactos da colonização europeia, que resultaram na perda de territórios, conflitos e na redução da população de sua comunidade (Marshall, 1993). Nos últimos anos de sua vida, produziu uma série de mapas e desenhos que registravam locais importantes para os Beothuk, suas rotas de deslocamento e acontecimentos marcantes da história de seu povo. Mais do que representar o espaço geográfico, esses registros preservavam memórias e conhecimentos que poderiam ter desaparecido com o tempo.
Pesquisas recentes mostram que esses mapas podem ser compreendidos como verdadeiros mapas narrativos (story-maps), produzidos a partir da perspectiva indígena e capazes de contar a história dos Beothuk sob seu próprio olhar (Laite, 2025). Essa característica aproxima o trabalho de Shanawdithit dos princípios do mapeamento participativo e da cartografia social. Atualmente, essas metodologias valorizam o conhecimento das próprias comunidades, permitindo que elas sejam protagonistas na construção das informações sobre seus territórios (Acselrad; Coli, 2008).
Ao registrar o cotidiano e a territorialidade dos Beothuk, Shanawdithit também contribuiu para combater o apagamento cultural de sua comunidade. Seus mapas ajudaram a preservar aspectos importantes da identidade de seu povo, demonstrando que a cartografia também pode ser uma forma de resistência (Laite, 2025). Essa discussão permanece atual. Em diferentes partes do mundo, povos indígenas e comunidades tradicionais utilizam ferramentas de mapeamento participativo para registrar territórios, proteger patrimônios culturais e fortalecer suas reivindicações sociais e ambientais.
Essa também é a proposta do YouthMappers, uma rede internacional de estudantes que utiliza o mapeamento colaborativo e dados geográficos abertos para responder a desafios sociais e ambientais, reconhecendo a importância do conhecimento das comunidades locais. Embora tenha vivido há quase dois séculos, Shanawdithit deixou um legado que dialoga diretamente com esses princípios. Seus mapas mostram que representar um território é também preservar histórias, fortalecer identidades e garantir que diferentes vozes sejam lembradas.
Mais do que uma personagem da história indígena canadense, Shanawdithit representa o poder da cartografia como ferramenta de memória, representatividade e transformação social. Sua trajetória nos lembra que mapear não é apenas desenhar lugares, mas também registrar pessoas, culturas e experiências para que nunca sejam esquecidas.