O curso História das Religiões e Religiosidade do Centro Universitário Cidade Verde (UniCV) aborda a história das crenças e ideias das maiores religiões do mundo contemporâneo sob uma perspectiva estritamente científica e acadêmica. O material enfatiza a separação entre a ciência histórica e a teológica, combatendo preconceitos e o etnocentrismo.
Abaixo está o resumo dos principais blocos temáticos e conceitos que estruturam o curso:
Diferença entre Religião e Religiosidade: A Religião constitui um modo normativo e institucionalizado de lidar com o sagrado, frequentemente mediado por líderes e dogmas. A Religiosidade diz respeito à maneira subjetiva, individual ou comunitária que o fiel estabelece para se relacionar com o sagrado, podendo divergir das normas rígidas da instituição.
Conceitos de Eliade: O historiador Mircea Eliade define o Sagrado como a esfera secreta que foge à explicação natural (associada a seres superiores), enquanto o Profano representa o cotidiano e o mundo comum. Para Eliade, o homo religiosus possui a crença inerente de que viver de forma humana é, por si só, um ato religioso.
Evolução das Crenças: São definidos conceitos fundamentais como o Animismo (toda a natureza dotada de alma), Panteísmo (a divindade é a própria força da natureza), Politeísmo (vários deuses), Monoteísmo (um único Deus) e Ateísmo (não existência de divindades).
Abordagens Científicas: O fenômeno religioso é analisado a partir das lentes de Edward Tylor (evolucionismo cultural), Émile Durkheim (religião como fato social de coesão a partir do totemismo), Max Weber (influência da religião na economia e ética), o Marxismo (religião no contexto das lutas de classes) e a Escola dos Annales (compreensão da religião como uma dimensão integrada à "história total" do homem).
Tempos Bíblicos: Apresentado como a tradição monoteísta ininterrupta mais antiga do mundo. Origina-se por volta do século XIX a.C. com a revelação de YHWH a Abraão, passando pelos patriarcas Isaac e Jacó (Israel) e pela posterior libertação dos hebreus no Egito por Moisés. O pacto identitário e físico é marcado pela Brit Milá (circuncisão).
Reis, Templos e Divisão: O curso detalha o período monárquico (Saul, Davi e Salomão) e a construção do Templo de Salomão. Segue-se a divisão entre o Reino de Israel (Norte) e Judá (Sul), as invasões assíria e babilônica (Destruição do Templo em 587 a.C.) e a posterior reforma legislativa do levita Esdras após o exílio persa.
Tempos Pós-Bíblicos e Diáspora: Com a destruição definitiva do Templo de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C., inicia-se a Diáspora. O judaísmo se reorganiza em torno dos Rabinos e das Sinagogas, substituindo sacrifícios por preces. São compilados a Michna e o Talmude. Surgem divisões como os judeus Ashkenazitas e Sefarditas, além de correntes místicas como a Cabala (Zohar) e o Hassidismo.
Origem e o Cristianismo Primitivo: Surge na Judeia sob domínio romano como uma ramificação do judaísmo que reconhecia Jesus de Nazaré como o Messias. Consolida-se fora da Palestina a partir da pregação de Paulo de Tarso (o Apóstolo dos Gentios), que universalizou a fé dispensando a obrigatoriedade de práticas judaicas como a circuncisão. O período da Patrística (Pais da Igreja como Jerônimo e Agostinho) formula a complexidade teológica e filosófica da fé.
Institucionalização e Era Medieval: Após séculos de perseguição no Império Romano, o cristianismo é legalizado por Constantino em 313 d.C. (Edito de Milão). O Concílio de Niceia (325 d.C.) define a doutrina trinitária e combate o Arianismo. Teodósio o torna a religião oficial em 380 d.C.. Na Idade Média, com a conversão de reis germânicos/francos, o papado consolida imenso poder político-estatal e social.
Cismas e Reformas:
Cisma do Oriente (1054): Divisão definitiva decorrente de disputas geopolíticas, ritualísticas e dogmáticas (como a cláusula Filioque) entre a Igreja Católica Apostólica Romana (Ocidente) e a Igreja Cristã Ortodoxa (Oriente).
Reforma Protestante (Século XVI): Em meio ao Renascimento Cultural e ao Absolutismo, surgem as contestações à Igreja Católica lideradas por Martinho Lutero (Luteranismo), João Calvino (Calvinismo e a doutrina da predestinação) e Henrique VIII (Anglicanismo).
Origem e Expansão: Segunda maior religião do mundo, surgiu no século VII na Península Arábica a partir das revelações recebidas pelo Profeta Maomé através do arcanjo Gabriel. O ano de 622 marca a Hégira (fuga de Meca para Medina), que dá início ao calendário muçulmano. Após unificar a Arábia, a fé islâmica expandiu-se rapidamente e se tornou um elemento central da cultura árabe.
Doutrina, Alcorão e Divisões: O livro sagrado é o Alcorão (compilação das revelações de Maomé), cujas passagens trazem sentidos alegóricos e reconhecem profetas bíblicos (como Moisés e Jesus). Com a morte de Maomé, surgem divergências políticas e sucessórias que dividem a fé entre Sunitas (majoritários, que aceitavam a eleição de califas) e Xiitas (que defendiam a sucessão na família do Profeta através de Ali).
Os 5 Pilares do Islã: Os deveres essenciais que sustentam a fé muçulmana são: 1) Shahada (testemunho de fé), 2) Salat (cinco orações diárias voltadas a Meca), 3) Zakat (caridade compulsória), 4) Ramadã (jejum no mês sagrado) e 5) Hajj (peregrinação a Meca ao menos uma vez na vida).
Hinduísmo: Religião milenar, cíclica e sem fundador único. Baseia-se em escrituras como os Vedas, Upanixades e epopeias (Ramaiana e Mahabharata). A trindade divina (Trimurti) é composta por Brahma (criador), Vishnu (mantenedor) e Shiva (destruidor necessário). A doutrina está ligada ao sistema tradicional de castas (Brâmanes, Xátrias, Vaixás, Sudras e Dálits/Párias) associadas ao corpo de Brahma.
Budismo: Fundado no século VI a.C. na Índia por Sidarta Gautama (o Buda ou Iluminado). Trata-se de uma tradição focada no desapego do mundo material para atingir o Nirvana (libertação espiritual). Seus pilares baseiam-se nas Quatro Nobres Verdades sobre o sofrimento (dukkha) e na Nobre Trilha Óctupla. Divide-se nas correntes Teravada (mais conservadora/não-teísta) e Mahayana (com subdivisões como o Zen e o Budismo Tibetano).
Jainismo: Surgido também no século VI a.C. a partir das pregações de Mahavira (o 24º e último Tirthankara). É uma religião ascética e ateia focada na purificação da alma através do cumprimento de cinco grandes votos, com destaque máximo para a Ahimsa (não violência absoluta a qualquer ser vivo).
Siquismo: A mais recente das religiões orientais (fundada em 1499 por Guru Nanak no Punjab). Diferencia-se das demais por ser estritamente monoteísta. Rejeita o ascetismo e as castas, valorizando a igualdade social, o trabalho e a caridade. Seus iniciados (membros da Khalsa) adotam os "5 Ks" e a comunidade reconhece hoje o livro sagrado Guru Granth Sahib como o seu guru vivo definitivo.
Contexto e Formação: O curso reconstrói a história da escravidão no Brasil (séculos XVI a XIX), que forçou a migração de milhões de africanos de diferentes etnias (bantos, jejes, iorubás, etc.). Dessas tradições religiosas tribais híbridas, concebidas em solo nacional, nasceram as religiões genuinamente afro-brasileiras.
Candomblé: Institucionalizado no Brasil no século XIX, fortemente influenciado pela cultura iorubá. Crê em Olorum (ser supremo) e nos Orixás, que são divindades que personificam as forças da natureza (como Ogum, Oxóssi, Xangô, Iemanjá e Exu). O culto é caracterizado pela complexidade ritualística, toques de atabaques, danças sagradas e pela liderança de um Babalorixá ou Ialorixá.
Umbanda: Religião fundada em 1908 no Rio de Janeiro através do jovem Zélio Fernandino de Moraes, que incorporou o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Caracteriza-se como um culto de caridade e igualdade que trabalha com a incorporação de falanges de espíritos ancestrais e guias (como Caboclos, Pretos Velhos, Baianos, Erês e Pomba-giras). Diferencia-se do Candomblé por não realizar sacrifícios de animais.
Intolerância Religiosa: O curso conclui alertando para o preconceito histórico decorrente do passado escravista, que marginaliza e discrimina as práticas afro-brasileiras, afetando a autoidentificação de seus adeptos no censo demográfico.
O curso também disponibiliza aos estudantes o LERR (Laboratório de Estudos em Religiões e Religiosidades), um grupo científico de pesquisa e extensão voltado para a análise não confessional, laica e epistemologicamente crítica de todos esses fenômenos