3M confirma a tese: o 2º trimestre de 2026 valida a leitura estrutural feita em março
Em março deste ano, quando o mercado ainda tratava a 3M como uma história de reestruturação incerta, apresentamos aqui no The Strategy Club a leitura de que a companhia representava uma oportunidade e estávamos comprando o papel. A tese se apoiava em três pilares: disciplina operacional em curso, desalavancagem progressiva do passivo de litígios (PFAS e Combat Arms) e um portfólio industrial resiliente, subavaliado frente aos seus pares do setor de industriais diversificados.
Os resultados do segundo trimestre de 2026, divulgados nesta terça-feira antes da abertura do mercado, oferecem a primeira confirmação numérica robusta dessa tese.
O que os números mostram
A 3M reportou lucro por ação ajustado de US$ 2,40, superando com folga o consenso de analistas, que projetava algo entre US$ 2,25 e US$ 2,27. As vendas ajustadas somaram US$ 6,5 bilhões, com crescimento orgânico de receita de 5,4% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, um ritmo de expansão relevante para uma companhia industrial madura desse porte.
Mais importante do ponto de vista estrutural: a margem operacional ajustada atingiu aproximadamente 24,9%, uma expansão de 40 pontos-base ano contra ano. Isso não é um resultado pontual de um trimestre favorável, é a continuidade de um processo de disciplina de custos e simplificação de portfólio que já vínhamos monitorando desde o início do ano.
O CEO William Brown resumiu o trimestre como sólido, destacando crescimento de vendas em torno de um dígito médio, margens operacionais próximas de 25% e crescimento de LPA em dois dígitos.
Revisão de guidance: o sinal mais importante
Se o resultado do trimestre já era positivo isoladamente, o dado que efetivamente muda a leitura prospectiva da tese foi a revisão da projeção de LPA ajustado para o ano completo de 2026, que passou de uma faixa de US$ 8,50–US$ 8,70 para US$ 8,80–US$ 8,95. Uma companhia não eleva guidance de forma expressiva em um único trimestre sem visibilidade real de sustentação de margem e demanda para os trimestres seguintes. Esse é, na nossa avaliação, o dado que carrega maior peso informacional dentro do release.
Reação do mercado e leitura dos analistas
O mercado reagiu de forma imediata: as ações saltaram 5,7% no pré-mercado, saindo de um fechamento anterior de US$ 159,11 para operar próximo de US$ 168,12.
A reação dos analistas de sell-side, no entanto, não foi unânime, o que é saudável para uma leitura equilibrada da tese:
Fatores favoráveis (lado comprado da tese)
O Goldman Sachs restabeleceu cobertura com recomendação de compra e preço-alvo de US$ 190.
A Wolfe Research manteve recomendação de Outperform, com alvo de US$ 189.
A companhia anunciou parceria estratégica com a Microsoft voltada à infraestrutura de data centers de inteligência artificial, um vetor de crescimento fora do núcleo industrial tradicional que já vinha despertando interesse de investidores nas semanas anteriores.
Fatores de cautela (lado cético da tese)
A Bernstein manteve recomendação de Underperform, com preço-alvo de US$ 140, bem abaixo do preço atual, citando preocupações de longo prazo relacionadas a investimento em P&D e ao passivo pendente de litígios envolvendo PFAS.
O passivo de PFAS, embora em trajetória de equacionamento, continua sendo o principal fator de risco de cauda para a tese, e deve ser monitorado a cada divulgação trimestral.
Nossa leitura
Do ponto de vista metodológico, a convergência entre resultado acima do consenso, expansão de margem e revisão de guidance para cima é o tipo de confirmação que reforça uma tese de médio prazo, mas não a torna imune a risco. A divergência entre Goldman Sachs e Bernstein ilustra bem esse ponto: o mercado ainda precifica de forma distinta o peso do passivo de litígios frente à melhora operacional.
Continuamos comprando opapel, na nossa opinião o trimestre reforça a tese estrutural apresentada em março, com confiança moderada a alta na continuidade da melhora operacional, e confiança mais baixa e dependente de desdobramentos jurídicos no que se refere à totalidade do desconto de valuation ainda embutido no papel em função do PFAS.