O Inconsciente: uma voz silenciosa e constante
O Inconsciente: uma voz silenciosa e constante
Atualmente ainda nos deparamos resistências das pessoas em fazer terapia. Mesmo com toda as informações uma grande parcela da enxerga o ato de fazer terapia como fraqueza ou até mesmo destinam esta ação apenas para pessoas com algum tipo de distúrbio intelectual. Estas resistências são heranças de gerações anteriores que com o passar do tempo foi ensinando isso para seus sucessores. A cada nova geração vai surgindo um espaço maior para a necessidade de terapias e a importância de lidar com sentimentos anteriormente enterrados. Podemos citar a geração X (nascidos entre 1965 e 1980) como uma geração forte e resistente. Os integrantes desse grupo viam como “frescura” lidar com os sentimentos e o correto a fazer era deixar de lado e priorizar o sustento, a família e outras coisas mais “reais”. Já a Geração Y (nascidos entre 1981 e 1996) já foram apresentados a uma realidade um pouco mais suscetível aos processos da mente graças a expansão da internet e a facilidade de acesso as informações. Mesmo a geração Z (nascidos entre 1997 e 2010) na era digital e com acesso facilitado à informação, ainda apresenta uma certa restrição em se conhecer e buscar a causa das aflições. Não é incomum ouvir esta geração ser chamada de “geração do mimimi” pois, esta é a geração que mais se permite falar dos sentimentos e aflições. Mas o que todos esses grupos têm em comum? Os gritos silenciosos do inconsciente que chamam sem cessar.
Freud apresentou em sua Teoria da Segunda Tópica que o indivíduo é composto por três instâncias: ID, Ego e Superego. Após o seu nascimento o ser é totalmente ID regido pelo desejo de obter prazer e repelir qualquer sentimento que lhe cause desconforto. Com a interação com o externo o indivíduo vai criando consciente de si e dos outros e com isso vai desenvolvendo o seu Ego onde existe o equilíbrio entre os seus desejos e o que é imposto como “correto” pelo externo. O sentimento de certo ou errado imposto pela sociedade gera a última instância do ser: o Superego que, com as suas restrições e formas de conduta insiste em negar qualquer tipo de realização vista como indesejada. Neste momento o Ego se vê em um conflito de satisfazer os desejos impostos pelo ID e manter as restrições impostas pelo Superego.
Tudo que ameaça a existência do Ego ou que apresenta uma sensação insuportável é recalcado no ID de forma que não seja acessado mais. Imaginemos o ID como um grande quarto escuro em nossa casa onde jogamos tudo que incomoda ou toma espaço. De tanto colocar coisas chega uma hora que este quarto ficará cheio certo? Agora imagine se as coisas neste quarto escuro tivessem vontade própria e lutasse constantemente para vir para a parte iluminada da casa? Assim é nosso ID. Constantemente ele está gritando as experiencias e sensações vivenciadas que foram reprimidas e, estas vozes sempre encontram uma forma de serem ouvidas.
Através do setting analítico encontramos um ambiente propicio para lidar com estes sentimentos de forma gradual e segura. Nele o analista utiliza-se dos recursos da Psicanálise para conduzir o analisando no processo de “desenterrar” esses sentimentos. Quando o indivíduo não desenvolve o processo analítico, o Inconsciente encontra novas formas de ser ouvido. Na psicanálise chamamos essas formas de: sonhos, chistes e atos falhos. Não é meu intuito explicar o que são esses três termos, mas sim, revelar como o ID se utiliza deles para atravessar as barreiras impostos pelo Ego. Com certeza você já teve alguns sonhos malucos certo? Sonhos que você enfrentava desafios, ou era exposto a situações conflitantes com familiares, amigos ou até mesmo desconhecidos. Freud dizia que, uma parte destes sonhos era a forma aceita pelo Ego que o ID encontrou para liberar uma energia psíquica reprimida. Imagina que você detesta alguém em seu trabalho, porém é obrigado a trabalhar com ele e tratá-lo bem por conta da boa convivência. Em seu sonho você se vê agredindo-o de forma física ou verbal. Neste sonho o seu inconsciente conseguiu liberar aquela tensão causada pelo desgosto de ter que conviver com esta pessoa de uma forma aceita pelo Ego (já que na realidade você não poderá fazer isso, devido as leis da sociedade).
O chiste é outra forma encontrada pelo ID para liberar a tensão recalcadas. Freud explica que chiste normalmente é um conteúdo feito ou dito em formato de uma brincadeira para expressar aquilo que sentimos ou pensamos de forma aceita. Vale lembrar que, nem sempre a utilização de um chiste é consciente pelo individuo que a usa. Podemos usar como exemplo o caso de alguém que faz uma piada ou um comentário racista ou homofóbico para expressar o que sente sem correr o risco de ser penalizado por isso. Podemos reparar que, este tipo de ação está sendo repelida a cada dia mais.
Atos falhos são quando existe a troca de um nome, caminho ou até mesmo atividade. Imaginemos que você precisa ligar para um parente que não gosta. Passa o dia todo e acaba não ligando. O ato de esquecer é uma forma do seu inconsciente de evitar o desconforto de falar com este parente indesejado.
Como vimos, o Inconsciente sempre encontrará uma forma de liberar as tensões recalcadas e por isso, é extremamente importante encontrarmos formas de permitir que, estas tensões sejam trabalhadas de forma saudável. Para que isso aconteça, precisamos saber lidar com os mecanismos de defesa do ID e permitir que estes sentimentos sejam trabalhados. Podemos citar alguns mecanismos de defesa como o deslocamento. Este mecanismo faz com que direcionemos a energia para outro objeto. Vamos lembrar daquela pessoa no trabalho que não gostamos e com quem somos obrigados a conviver. Como não podemos tratá-lo mal, acabamos descontando esse sentimento em outras pessoas que não poderão revidar. Pode ser em funcionários, clientes ou até mesmo nos familiares. Podemos citar também a negação. Imagine que você cometeu o ato falho de trocar o nome do seu(a) companheiro(a) pelo nome de um(a) ex. Podemos dizer que foi apenas por força do hábito e negar que ainda nutrimos sentimentos por aquela pessoa.
Como podemos ver, independente da forma o inconsciente sempre encontra uma forma de liberar as tensões reprimidas, seja através de um sintoma, sonho, chiste ou ato falho por isso, é importante encontrar uma forma de trabalhar estes sentimentos de uma forma que eles não cheguem a interferir em sua forma de viver ou pensar. Através da terapia encontraremos condições que os trabalhar de forma saudável.