O dia eterno de um ansioso
O dia eterno de um ansioso
Eu abro os olhos pela manhã com o despertar do alarme. Meu corpo doí com a sensação de não ter descansado, como se as horas dormindo não passaram de segundos. Me jogo da cama para iniciar todas as atividades que borbulham em minha mente repassando cada passo para não houver falhas. Não pode haver falhas!
O banho, o escovar de dentes e o se vestir acontecem sem que eu perceba, como se tivesse ligado ao modo automático enquanto eu me distancio da realidade em busca de respostas para as perguntas intermináveis que insistem em castigar a minha mente.
Corro para tomar o café da manhã na qual eu engulo sem sentir o gosto das coisas olhando a tela do celular na ideia errônea de alcançar a produtividade tão falada nos vídeos dos famosos e bem-sucedidos Influencers que insistem em dizer que, a falta de resultado é por falta de empenho do envolvido. Essas palavras estão gravadas como tatuagem em minha pele embalsamada com o creme da culpa.
Saio de casa a caminho do trabalho me deparando com um mundo saturado de situações angustiantes que me fazem emergir de uma apatia até um ataque de fúria repelido apenas a minha mente. As pessoas insistem em “desfilar” lentamente nas ruas ou deixam para pegar dentro da bolsa o cartão do transporte no exato momento que chegam na catraca. O trânsito parece andar para trás junto com os ponteiros do relógio criando uma sensação de paralisia ao redor.
Finalmente chego no meu trabalho e me sento em minha cadeira em frente a mesa com o meu corpo enrijecido como tivesse percorrido uma maratona. Minha mente tenta se concentrar na programação do dia, mas as letras parecem não fazer sentido para os meus olhos cansados e preciso de alguns instantes para conseguir assimilar por onde devo começar.
Passam-se horas enfrentando uma vontade imensa de sair correndo e me esconder em algum lugar onde não tenha ninguém. Sou severamente castigado pela culpa de não ser bom suficiente em controlar essas sensações que insistem em eletrizar o meu corpo. Sinto as pontas dos meus dedos recebendo pequenos choques e a sensação de existir um buraco de envolve o meu estomago.
Entre as dores no peito e a falta de ar, sigo em frente lidando com a interação com as pessoas ao redor e as exigências desnecessárias da diretoria da empresa, contando apenas os segundos para chegar as dezoito horas e poder retornar para minha casa; mas ainda são dez horas.
Misturo o almoço entre os relatórios em frente ao laptop e com ele engulo toda a ira que me domina por dentro por seguir mais um dia desta forma sem encontrar uma solução para sair desse inexplicável ciclo vicioso.
Mesmo que lentamente, as horas vão passando onde a cada minuto me deparo com uma situação pior do que a outra e o meu nível de irritabilidade se mistura ao sentimento de não estar dando conta; me forço até o final do expediente com a sensação de perder o controle a qualquer instante.
Enfrento as mesmas adversidades para chegar até a minha residência onde poderei finalmente me desligar de todos os problemas vivenciados e poder relaxar, mas percebo o incomodo não está no contato com o externo e sim com as confusões e conflitos internos de minha cabeça que não me permitem nem ao mesmo descansar durante a noite antes de começar tudo de novo.
Esgotado de lutar contra o mundo aceito a realidade de que sou o culpado por tudo isso, uno o restante de minhas energias para buscar desesperadamente respostas por meio de um processo terapêutico com o intuito de evitar recorrer a medicamentos ou entorpecentes que possam silenciar essa cobrança.
As sessões se arrastam com pequenos sinais de progresso acompanhados pela voz que grita em minha cabeça que estou perdendo tempo pois o problema sou eu e que precisarei aprender a viver nesse turbilhão de sentimentos que as pessoas por não verem, apenas me julgam de negativista ou até mesmo extremista. Mesmo assim insisto e não desisto, pois esta é a minha última cartada em busca de uma melhora. Me jogo de cabeça neste processo e vou derrubando barreiras que me impedem de recordar coisas vivenciadas e, a cada nova descobertas é como se um véu fosse retirado de meus olhos e me permitisse enxergar a minha vida e ações por um outro ângulo.
Finalmente consigo entender que, todas as sensações vivenciadas realmente existem como consequência de traumas não corretamente elaborados causando crises de ansiedade.
Descubro que a ansiedade pode ser paralisante e imensurável e que, mesmo ações consideradas “insignificantes” por outras pessoas podem desencadear um sofrimento imenso. Continuo na batalha de entender aquilo que me afligiu e que, ainda me aflige e com isso diminuir a intensidade como a ela me afeta até um dia que, espero, não ser mais dominado pelo sentimento desesperador da ansiedade.