O “certo” e a ética dentro do setting analítico
O “certo” e a ética dentro do setting analítico
Quando falamos do processo de análise psicanalítica nos deparamos com diversos processos éticos a serem seguidos tanto pelo analisando como pelo analista, mas antes de adentrar a está esfera precisamos entender o que significa a ética. De acordo com o dicionário Oxford, ética é “parte da filosofia responsável pela investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo esp. a respeito da essência das normas, valores, prescrições e exortações presentes em qualquer realidade social”.
Partindo desta premissa podemos dizer que a ética é fazer o certo em um contexto geral, porém nos deparamos a outro termo que normalmente é confundido como ética que é o certo, o correto. Já este termo varia mais para um campo pessoal, pois o que é certo para um indivíduo ou nação pode não ser certo para outra. E com esses dois termos tenho como objetivo fazer um paralelo do que é ético e do que é o certo na visão do analista e do analisando e os seus perigos dentro do setting analítico.
Normalmente o indivíduo procura um analista com um alto índice de angústia de forma que esteja causando prejuízos em algum contexto de sua vida e, com esta desesperada ação de procura, ele espera que o profissional tenha as respostas e a "cura" de seu sofrimento. Para ele é certo que, ele esteja pagando para que algum profissional resolva o seu problema. Qualquer pessoa que já esteve durante um processo psicoterapêutico por um tempo saberá que este bem estar é advindo de um trabalho árduo de autoconhecimento e tempo e que, a cura não existe em sua forma mais simples ainda mais na psicanálise que não trabalha com o problema e sim as suas causas partindo do princípio que a ressignificação dos traumas causadores alcançará uma diminuição no sofrimento vivenciado.
É possível que muitas pessoas encerrem o tratamento por não achar certo estar pagando terapia por um determinado tempo sem ter surgido efeito, pois esperam mudanças rápidas e fácies porém, o processo é demorado e exige muito esforço e autoconhecimento por parte do analisando. Arrisco dizer que, elas acreditam que não seja ético por parte do profissional estar recebendo sem que o processo gere nenhuma mudança.
Já em outros casos, o individuo coloca o analista em uma posição do suposto saber idolatrando toda fala do mesmo como verdade absoluta. Isso acontece pois o analisando através do processo de transferência coloca o psicanalista em uma posição de autoridade muitas vezes representando figuras parentais e portadora de toda a verdade na qual espera proteção, orientação e conforto do analista assim como teve ou esperava ter das figuras paternas.
Vamos refletir sobre ética e o certo no papel do analista diante a um novo paciente que o procura para início da análise. Para isto, vamos entender o que as instituições psicanalítica dizem a respeito do papel do analista. O psicanalista funciona como um guia direcionando o indivíduo diante o vale de seu inconsciente com o objetivo de acessar os conteúdos recalcados que refletem no corpo de forma somática, através da análise dos sonhos e da associação livre onde o analisando poderá ressignificar as experiências vividas e amenizar o sofrimento. É esperado do profissional que interaja livre de julgamentos e opiniões e que, durante a análise ele esteja entregue no processo e com a escuta ativa para conseguir perceber as sutilezas na fala e gestos do analisando. É esperado do profissional o total sigilo das informações fornecidas durante o processo e que, ele esteja ciente de suas limitações na utilização das ferramentas psicanalítica podendo até mesmo encerrar uma análise caso não se sinta confiante em atender aquele indivíduo.
Quando o analisando desenvolve a transferência e coloca o profissional na posição do suposto saber, é esperado que ele consiga identificar qual papel está representando para o analisando e ajude o mesmo a desenvolver autonomia em sua tomada de decisão invés de, permitir que seu ego seja inflado em tal posição. É ético esperar de um psicanalista que ele desenvolva o tripé da Psicanálise buscando conhecimento contínuo, fazendo sua autoanálise e passando por supervisão com um profissional mais experiente.
Como visto até agora, o setting analítico é repleto de situações que exigem uma visão mais ampla do que é certo e do que é ético por isso, é de extrema importância que no início do processo seja discutido as informações do contrato analítico de forma clara e abrangente. Essas informações precisam ser alinhadas no início do processo e evidenciadas a qualquer momento propício que surgir diante o processo.
É indicado que o profissional também esteja vinculado com alguma instituição psicanalítica para obter orientação e baseamento legal para situações que possam surgir durante a análise.
Desta forma, o profissional estará consciente de suas limitações e necessidades assim como resguardado de qualquer inconveniente que possa surgir e o analisando estará ciente do que esperar do processo analítico e o seu papel em busca do alívio dos sofrimentos.