Interpretação dos sonhos - Relatos de um psicanalista
Interpretação dos sonhos - Relatos de um psicanalista
Carlos atua como psicanalista há mais de uma década, atendendo pacientes de diversas idades e situações. Peterson é um de seus pacientes mais recentes. Para entender melhor o caso de Peterson é importante relatar algumas informações relevantes:
Peterson iniciou a terapia aos dezesseis anos, após sua mãe relatar que ele sofria de intensa ansiedade e perturbações de comportamento. Esses sintomas foram observados pelo coordenador da escola do filho, que sugeriu encaminhá-lo para terapia. Ele iniciou seu processo terapêutico de forma mais reservada, mas, no decorrer dos cinco meses de análise, conseguiu desenvolver-se bem e participa de forma ativa e comprometida, buscando aquilo que o incomoda.
Neste relato analisaremos um sonho trazido pelo paciente à terapia com base na teoria de Freud sobre a interpretação dos sonhos.
Peterson estava ansioso para compartilhar o sonho que teve, buscando recordar cada detalhe.
No sonho, eu estava em uma floresta escura e arvores longas que mal dava para ver o céu. Existia vegetação no chão que me atrapalhava o caminhar – iniciou o analisando – O ar estava úmido e eu me sentia como se estivesse carregando o peso do mundo nos ombros. Enquanto eu caminhava pela floresta, ouvia longe vozes murmurando, como se as próprias arvores estivessem sussurrando. Eu não conseguia compreender o que diziam, porém a sensação é como se estivesse me ofendendo de alguma forma. Um misto de raiva e tristeza consumiu a minha alma. - Carlos se mantinha de forma calma e concentrada enquanto anotava em seu caderno alguns pontos importantes relatados.
De repente, um leão apareceu das sombras! – continuou Peterson com o olhar arregalado para o psicanalista – Ele era enorme e seus olhos brilhavam na escuridão de uma forma aterrorizante. Seu rugido percorria a minha alma e me congelava de medo. Quando consegue desprender meus olhos dele, vi uma gazela magra e vulnerável que permanecia imóvel ao seu lado. Eu queria gritar para ela sair de lá diante o perigo que corria, mas minha voz parecia presa na garganta, incapaz de se manifestar. – Até este momento Carlos tinha anotado em seu caderno as palavras “floresta escura”, dificuldade de andar”, “vozes de reprovação”, “leão assustador”, “gazela vulnerável” e “vontade de ajudar a gazela”.
Enquanto o leão se aproximava – continuou o analisando – sua figura começou a encolher, mas o meu medo só aumentava. Desesperado, eu reuni todas as minhas forças e comecei a descer o vale. Minhas pernas ainda tropeçando na mata e, em um momento de distração, acabei caindo e rolando até chegar em uma fonte de pedra onde me apoiei para me levantar. Olhando para trás, vi que o leão tinha sumido deixando apenas a gazela não muito distante como se eu nem estivesse presente. Mais calmo percebi que a fonte era enorme e uma luz muito forte atravessava o topo das arvores e a iluminava. Percebi que havia um espelho encostado nas pedras e, ao me aproximar, não vi o meu reflexo, apenas a floresta atrás de mim. Forcei minha vista para ver com mais detalhes e gradativamente uma figura começou a aparecer. Eu reparei que a figura tinha traços muito parecidos com os meus como meu nariz, boca e cabelos. – Peterson parou por um instante olhando fixamente para a mesa de centro como se desejasse lembrar – Era como se fosse um parente. A intensidade da luz aumentou até não conseguir mais enxergar nada e então eu acordei.
Carlos neste ponto da sessão já tinha acrescentado as palavras “leão encolhendo”, “gazela distraída”, “iluminação / revelação” e “não reconhecimento do eu”. Após algumas perguntas sobre as sensações e sentimentos que o sonho despertara em Peterson, o psicanalista sugeriu ao mesmo fazer um desmembramento dos itens contidos no sonho e uma análise individual de cada um.
Assim, o sonho de Peterson revelou aspectos latentes de seu inconsciente, conforme proposto pela teoria de Interpretação dos sonhos de Freud, fornecendo insights valiosos para sua terapia.
Floresta escura: Peterson representou a floresta escura como a imensa tristeza que vinha sentindo diante as situações familiares e a sua própria identificação do eu. Ele relatou que o sentimento de vazio e desesperança vivenciado no sonho permanecia durante o seu momento de vigília.
Dificuldade de andar: esta sensação pode ser representada pela falta de esperança e sentimento de medo vivenciado pelo analisando neste momento de descobrimento e aceitação.
Vozes de reprovação: em diversos momentos o jovem relatou que o pai usava palavras de repreensão e até mesmo desgosto com o filho, porém estas vozes também representavam a própria reprovação do paciente em negar a sua homossexualidade até então não revelada.
Leão assustador: quando questionado sobre o leão, o paciente relatou que lembrava o seu pai que sempre gritava e impunha o seu desejo com agressividade. Desde criança ele via o seu pai como uma figura ameaçadora e possuidor de uma grande autoridade e o leão é figura perfeita para representar esses dois sentimentos. O fato de o leão ir diminuindo de tamanho pode representar a visão do pai no processo de envelhecimento do paciente que, começa ver o pai não mais como figura de poder e obediência e sim, como um semelhante que pode ser questionado.
Gazela vulnerável: a gazela representava a sua mãe que vivia de forma passiva diante a todas as atitudes do pai e indiferente as necessidades do filho. Podemos verificar essa indiferença diante ao sofrimento do filho na situação que, o coordenador da escola dele teve que relatar suas preocupações e encaminhar o mesmo para terapia. No sonho este sentimento é relatado pelo desejo de ajudar (como se fosse uma forma de libertar a mãe das “garras” do marido) e do desejo de gritar com a mãe (para provocar alguma mudança na indiferença dela com ele.
Iluminação / revelação: a fonte iluminada e o espelho relatam a necessidade do autoconhecimento e aceitação de como ele é. Quando ele se olhava no espelho não conseguia se ver pois não estava agindo como gostaria e sim como acreditava que as pessoas ao seu redor queriam que ele agisse criando um imenso conflito de identidade.
Neste relato fictício podemos perceber os termos usados na teoria de Freud onde o sonho em si é o conteúdo manifesto repleto de suspenses e perigos apenas para mascarar os conteúdos latentes do ID de forma que, eles cheguem até o consciente para serem externalizados. Freud afirma em sua teoria que os sonhos são acessos aos conteúdos reprimidos pelo EGO e mantidos no ID, e para que isso aconteça o inconsciente utiliza-se de símbolos que possam serem aceitos pelo SUPEREGO (o que vemos como fantasia).