Imparcialidade na Prática Terapêutica: Conflitos e Desafios na Jornada do Analista
Imparcialidade na Prática Terapêutica: Conflitos e Desafios na Jornada do Analista
A imparcialidade é uma necessidade primordial dentro do processo analítico, onde o analista precisa se manter neutro diante dos atendimentos de seus pacientes. No entanto, surge a questão: como fazer isso mantendo a sua humanidade e empatia no processo?
Assim como em qualquer linha psicoterápica, o objeto de estudos da Psicanálise é compreender a mente humana e seus conteúdos inconscientes. Nesse contexto, incluímo-nos nesse grupo. O analista tem como objetivo auxiliar o seu analisando a entender seus conflitos internos e sentimentos recalcados para encontrar mais equilíbrio em sua vida. No entanto, assim como os pacientes, nós também somos formados por todas as nossas experiências e materiais recalcados desde a infância. Como lidar quando encontramos situações semelhantes às que sofremos no setting analítico? Como nos distanciar da dor de nosso analisando e ser imparcial quando vivenciamos na pele todo aquele sofrimento que ele nos relata? Aqui está o grande conflito do analista em sua prática terapêutica: não permitir que seus sentimentos e vivências influenciem no processo de análise.
Antes de nos aprofundarmos mais nesse assunto, vale ressaltar dois processos possivelmente presentes nos atendimentos psicanalíticos: a transferência e a contratransferência. Vamos entender o que são e sua importância dentro desse processo. A transferência são os sentimentos e ações do analisando referentes ao seu analista, onde o primeiro faz com que o segundo represente um papel de sua infância podendo representar o pai, a mãe ou até mesmo outra figura de autoridade para o analisando. A transferência é necessária para o sucesso do processo analítico, pois somente com ela que o analisando poderá sentir-se confortável para trazer seus medos e traumas para terapia. No entanto, esta transferência essencial para o processo é a positiva. Podemos ter a transferência negativa, na qual é o direcionamento de sentimentos de raiva e ódio para o analista. Esta segunda transferência impede que o processo evolua e impossibilita a análise. Já a contratransferência ocorre quando o analista espelha seus próprios sentimentos no analisando, seja se identificando com os seus problemas ou assumindo uma posição de suposto saber. A contratransferência impede que o analista mantenha a sua imparcialidade no processo, dificultando assim ver de forma clara e objetiva não conseguindo guiar o analisando no caminho da análise.
Agora que entendemos esses dois processos, vamos analisar algumas situações apresentadas pela série brasileira chamada “Sessão de Terapia”, mais especificamente a segunda temporada, onde o foco está evidente nos processos pessoais do psicólogo Theo Ceccato. Nesta temporada em questão, o terapeuta atende uma garota diagnosticada com câncer que, devido a todos os seus traumas infantis, sente uma dificuldade imensa em pedir ajuda e não procura tratamento. Theo busca de forma desesperada fazê-la entender que precisa de tratamento, até mesmo acompanhando-a na primeira sessão de quimioterapia. É importante relatar o momento pessoal vivenciado pelo psicólogo neste espaço de tempo: ele tinha acabado de se separar de sua esposa e estava com problemas com a sua filha, que não aceitava a separação. Theo vivenciava um processo de contratransferência, projetando em sua paciente os desejos de ajudar e estar presente para a filha. O mesmo acontece com outro paciente de doze anos de idade, no qual ele o auxilia no processo de aceitação da separação dos pais (antigos pacientes que faziam terapia de casal). Theo atende de forma tão intensa essa criança porque ele mesmo vivenciou as consequências do divórcio quando o pai dele largou a mãe doente para viver com outra mulher, deixando-o como responsável pela mãe quando ele ainda era um adolescente.
Poderíamos continuar evidenciando a contratransferência apresentada na série pelo psicólogo, no entanto, é importante ressaltar que, devido aos seus esforços, ele conseguiu guiar os seus pacientes para melhoras significativas, surgindo a pergunta: a perda da imparcialidade não poderia ser benéfica no processo analítico? A única resposta para esta pergunta é “não”. A imparcialidade é essencial para o processo terapêutico, independentemente da situação. Para nos aprofundarmos neste processo, é importante entendermos que imparcialidade é diferente de falta de empatia ou humanidade. Um terapeuta que não se preocupa ou não se importa com seus pacientes está impossibilitado de guiá-los neste processo. Ter sentimentos e afinidades no processo analítico é o comprovante de humanidade do terapeuta, e isso nunca mudará. O que não pode acontecer é que as suas ações sejam influenciadas de forma negativa no processo. O setting analítico só evolui quando o analisando consegue desenvolver a associação livre e o analista o pensamento flutuante. Para fazer isso, ele precisa estar fora da situação trazida pelo analisando, ou seja, ele não pode ser parte do conflito analisado. Isso permite que ele consiga visualizar as informações de forma mais clara e objetiva e poder direcionar o analisando para os caminhos necessários até alcançar novas ressignificações.
Quando o analista desenvolve um vínculo de cuidado e comprometimento genuíno com seus pacientes, ele fortalece o engajamento terapêutico e a confiança mútua, fundamentais para o processo de cura. Esse cuidado não deve ser confundido com contratransferência, pois é embasado nos fatos e necessidades apresentados dentro do contexto analítico. Portanto, reforço a imperativa necessidade de imparcialidade do analista durante o processo terapêutico. No entanto, é essencial que essa imparcialidade seja enriquecida pela humanização e pela empatia, alicerces fundamentais que promovem uma relação terapêutica mais significativa e eficaz.