Divertidamente e os conceitos da Psicanálise
Divertidamente e os conceitos da Psicanálise
Escolhi fazer uma análise do filme DivertidaMente da Disney lançado no ano de 2015 sobre a luz da Psicanálise.
A animação conta a história da personagem Riley Andersen da visão de suas emoções. A história começa com o nascimento dela onde que, neste momento surge a primeira emoção criada, a “Alegria” que é interpretada por uma entidade do gênero feminino de cabelos azuis, na cor amarela e corpo iluminado. Ela está sempre feliz e buscando ver o lado bom das situações.
Logo em seguida surge uma segunda, a “Tristeza”. Ela é representada por uma figura do gênero feminino totalmente azul, de estatura baixa, de cabelos negros e óculos. Ela sempre destaca o lado melancólico das situações. Vale ressaltar que, em inglês a cor azul (blue) pode ter o significado de tristeza ou desânimo.
A terceira emoção criada foi o “Medo” que, é representada por um indivíduo do gênero masculino, magro, de estatura alta, na cor roxo claro e que, constantemente está evitando situações perigosas por conta do medo.
A próxima foi a “Nojinho”. Ela é representada por um ser do gênero feminino, de estatura mediana, na cor verde e maquiada. A última foi a “Raiva” que é representada por um personagem do gênero masculino, de cor vermelha, estatura baixa e com um temperamento forte.
Existe um painel de controles (uma mesa de comando em uma sala grande) onde que, cada emoção mexe causando uma reação na personagem. Em uma cena, a Riley (ainda criança) estava sentada à mesa e o pai dela estava tentando fazer com que ela comesse brócolis. Neste momento a “Nojinho” assumiu o painel fazendo com que ela jogasse para longe o talher com a verdura. O pai tentou novamente, porém a “Raiva” assumiu o painel e fez a ela jogar o prato no chão batendo as mãos na mesa. Assim, entendemos como as ações da personagem são afetadas pela emoção que controla o painel naquele momento.
Cada experiência vivenciada pela protagonista cria uma esfera de memória na cor da emoção vivenciada, como por exemplo, um evento alegre cria uma esfera amarela, uma situação triste cria uma esfera azul e assim por diante. No final do dia, essas esferas são armazenadas em prateleiras fora da sala principal de comando. As emoções mais significativas criam esferas especiais que vão para um compartilhamento diferente que cria ilhas com temas específicos. As ilhas criadas no filme são: a ilha da família (que aborda as memórias felizes em família), a ilha da bobeira (que relatam as memórias de brincadeiras), a ilha da amizade (criada através das memórias construídas com os amigos), a ilha da honestidade (desenvolvida através das experiências vivenciadas onde Riley falou a verdade) e a ilha do hockey (memórias construídas através do esporte favorito da personagem).
O drama inicia quando a família de Riley se muda do Minnesota para San Francisco e diversas coisas saem fora do esperado. Nesta parte da história, ela está com onze anos de idade e já começa a se deparar com diversas situações conflitantes. É importante ressaltar que a “Alegria” exerce uma função de liderança para as demais emoções, e isso no decorrer da animação é evidenciado que, esta emoção é a mais relevante no processo de construção da personalidade. Sendo assim, a “Alegria” tenta afastar o máximo a atuação da “Tristeza” por achar que esta emoção é contrária e indesejada para a jovem personagem. Em uma cena mostra as emoções dos pais da protagonista sendo que, as emoções da mãe são lideradas pela “Tristeza” e as emoções do pai são lideradas pela “Raiva”.
Até este momento do filme conseguimos perceber como o processo de evolução da personalidade do ser são influenciadas pelos eventos vividos e como as emoções são assimiladas. Em diversos momentos nos deparamos com situações que conflitam com as nossas expectativas e isso causa um sentimento de falta, de angústia ou até mesmo de raiva. A forma como essas emoções são assimiladas afetará o desenvolvimento do Ego, Id e o Superego proposta pela segunda tópica de Freud. A animação relata também que as esferas das memórias que não são constantemente lembradas vão perdendo a sua cor e se tornando cinza. Essas memórias são despejadas em uma cratera escura identificada como uma área do esquecimento. Também é mostrado um lugar onde é encaminhado tudo que “causa problemas”. Este lugar é chamado de inconsciente e é protegido por guardas que impedem que as coisas indesejadas saem. No filme em questão, a personagem possui neste local coisas que ela não gosta como palhaço, brócolis e o aspirador da avó dela (que possivelmente lhe causava medo na infância). Podemos chamar os guardas responsáveis por manter o “indesejado” no inconsciente como o processo de recalque, impedindo que o trauma passe para o consciente.
No decorrer da animação, as emoções “Tristeza” e “Alegria” são jogadas para fora da sala de comando deixando o direcionamento da personagem nas mãos das outras emoções (“Nojinho”, “Medo” e “Raiva”). Isso faz com que ela desenvolva uma certa antipatia pelas ações do cotidiano, nos mostrando como as emoções de alegria e tristeza são fundamentais no processo de assimilação das experiências e na construção do ser.
Para retornar à sala de comando as emoções “Alegria” e “Tristeza” buscam a ajuda de personagens responsáveis por outras atividades da mente da Riley. É notável que, a “Alegria” continua excluindo a “Tristeza” de toda tomada de decisão por achar que ela seja desnecessária para a protagonista, porém no decorrer do filme ela percebe como o sentimento de tristeza é fundamental para a evolução do ser. Através da tristeza podemos assimilar os acontecimentos que fogem das nossas expectativas e buscamos aceitar que nem tudo será do jeito que esperamos. Se isso acontecer da forma correta, o indivíduo se desenvolve de forma saudável, caso contrário ele terá problemas em seu desenvolvimento criando um ser neurótico ou até mesmo psicótico.
Também podemos encontrar diversos mecanismos de defesas desenvolvido pela Riley como a projeção, onde ela ataca os pais com o ato de fugir de casa e retornar para San Francisco pois não consegue lidar com a sensação indesejada de estar em um lugar que lhe apresenta tantas experiências contraditórias as suas expectativas. Temos também o isolamento de pensamentos conflitante direcionada para o inconsciente até ele ser recalcado, entre outros.
No final as emoções “Alegria” e “Tristeza” conseguem retornar à sala de comando e fazem a personagem principal desistir de fugir de casa. Desta forma, ela conta para os pais o que lhe incomoda e juntos eles criam outras memórias em San Francisco. Isso só acontece devido ao entendimento da “Alegria” ao perceber a contribuição da “Tristeza” na aceitação dos eventos vivenciados pela protagonista possibilitando assim, um desenvolvimento saudável e o processo de amadurecimento dela.