As redes sociais como mecanismo de defesa
As redes sociais como mecanismo de defesa
Nos anos 90 damos início a Era Digital com a chegada dos computadores pessoais e o acesso a internet ligando (mesmo que de forma limitada) o Brasil com o restante do mundo. Esta época trouxe grandes possibilidades de comunicação com culturas diferentes, aumentou a acessibilidade do conhecimento e modificou a forma dos brasileiros verem o mundo. Um dos benefícios da tecnologia são as redes sociais: aplicativos que nos possibilitam compartilhar, conhecer e explorar um universo totalmente novo. Essas plataformas foram essenciais no fortalecimento dos laços afetivos durante a Pandemia do COVID 19 desde 2020 onde a população se viu impossibilitada de qualquer contato físico. É inegável as vantagens que as redes sociais como Facebook, Instagram, Twitter, entre outros; trazem para a humanidade, porém, como toda ferramenta elas possuem consequências negativas caso utilizadas de forma inapropriada. Neste artigo vamos utilizar-se das teorias da Psicanálise para entendermos como as redes sociais podem ser utilizadas como mecanismos de defesas para ignorar uma situação desconfortável ou angustiante.
Hoje me deparo com uma infinita variedade de assuntos publicados nas redes sociais: de fotos de passeios até mesmo do prato de comida pedido no almoço. Posso perceber o desejo que as pessoas possuem de revelar a sua vida ou até mesmo a fantasia de um sentimento de total contentamento como uma busca inalcançável de validação ou aprovação.
Antigamente nos preocupávamos com a opinião das pessoas de nossa família, colegas de trabalho e escola ou até mesmo as pessoas de nossa vizinhança, porém, com a crescente da globalização essa inquietação aumentou exponencialmente podendo ultrapassar os níveis do país que vivemos.
Qual é a necessidade de buscarmos desesperadamente por “likes” ou por seguidores? Quais são as aflições que nos atormentam tanto que precisamos silenciá-las com essa sensação prazerosa de sermos aceitos que as redes sociais nos fornecem?
Freud nos apresenta as fases do desenvolvimento psicossexual do individuo sendo que, em cada fase nos deparamos com situações conflitantes que, caso não sejam elaboradas de forma adequada, podem gerar marcas na forma de viver do mesmo. Duas destas marcas são as neuroses e as psicoses que abordarei neste artigo com intuito de explicar as possíveis motivações que levam as pessoas a interagirem nas redes sociais. Não tenho o intuito de trazer uma verdade absoluta sobre o assunto até porque cada ser é um universo único com suas necessidades e pulsões próprias, mas, sim trazer novas formas de olhar os comportamentos que possuímos nas redes sociais com o objetivo de entendermos um pouco melhor.
Freud explica a neurose como um conflito entre o EGO (defesa) e o ID (desejo) sendo que, o neurótico sempre apresenta algum sofrimento, um ato de questionar sobre aquilo que está sendo experimentado e, até mesmo o sentimento de culpa. A neurose pode ser dividida entre neuroses obsessivas, histéricas ou fóbicas. Seria a busca incessante por likes e seguidores uma neurose obsessiva como forma de vazão de uma energia angustiante ligada a autoestima ou a ansiedade? Uma forma de buscar aceitação e conforto de seguidores para suprir a ausência destes sentimentos nas relações reais com familiares e amigos?
Em 2020 a plataforma de streaming Netflix lançou um documentário intitulado como “O dilema das redes sociais” que aborda entre muitos temas a preocupação de analisarmos o quanto tempo passamos nas redes sociais e como elas podem influenciar em nossa forma de agir e principalmente sentir.
Imagine correndo o dedo pelo feed do Instagram e se deparando com fotos de pessoas felizes, estabilizadas financeiramente, vivendo momentos harmoniosos e prazerosos em família ou amigos e com uma expressão de satisfeita com o caminho que sua vida está seguindo. Neste mesmo momento você está se questionando o “porquê” sua vida não está harmoniosa da mesma forma. Acredito que, assim como a minha, a sua vida não é cem por cento em todos os quesitos. Na verdade, nenhuma área de nossa vida será cem por cento pois viver é ter conflitos e, onde há conflito não existe satisfação plena. Então se você é como eu, você começará a se questionar que, diante de tantas pessoas plenamente satisfeita no Instagram o problema da minha insatisfação não seria eu que, não me esforço o suficiente ou que não sou bom o suficiente para conseguir alcançar o mesmo patamar. Com esses pensamentos vem a neurose obsessiva na busca de uma vida mais saudável, um corpo mais magro, um salário melhor, uma casa maior, viagens internacionais e mais um combo de desejos inalcançáveis em busca de uma felicidade que só existe no mundo da imaginação. E como viver neste mundo da realidade é cada dia mais difícil eu busco fugir desta realidade e passo o maior tempo possível nas redes sociais em busca de um prazer através da vida dos outros.
Este mesmo documentário examina os efeitos que as redes sociais podem ser cruciais na tomada de decisão da nação como por exemplo em épocas de eleições onde, as plataformas foram utilizadas para divulgar notícias falsas e ataques pessoais com intuito de convencer os eleitores. Presenciamos nas duas últimas eleições presidenciais como as redes sociais podem ser uma ferramenta fervorosa para divulgar ou atacar alguém. Você deve ter vivenciado famílias e amigos brigando defendendo um partido político de forma tão fervorosa deixando a convivência insuportável. Podemos analisar esta situação como uma psicose?
Freud explica que, a psicose é um conflito entre o EGO e a realidade onde a angústia do EGO é tão grande que ele fica sob o domínio do ID que, cria uma realidade para lidar com este sofrimento.
Seja acreditando fielmente em uma conspiração política ou até mesmo que o cônjuge esteja te traindo através das redes sociais, é comum a atuação da psicose através das redes sociais. Para um psicótico as redes sociais podem ser utilizadas para vigiar em perseguir alguém. Lembro-me que, anos atrás trabalhava com atendimento ao publico de uma empresa de serviços de TV por assinatura e certa vez, atendi um cliente que passou noventa minutos tentando me convencer que a Rede Globo estava perseguindo-o porque ele defendia um candidato político X e que, toda a sua família estava sendo ameaçada por isso. Seria verdade a sua desconfiança? Não sei informar, mas para ele, esta aflição existia e era real. Quantas pessoas devem existir que têm teorias e conflitos semelhantes relacionados às redes sociais?
A solução seria acabar com as redes sociais? Claro que não. Elas são ferramentas incríveis que ajudam pessoas e empresas a se conectarem com o mundo de forma fácil e ágil. Então precisamos aprender a utilizar estas ferramentas de forma saudável e não como forma de calar os nossos conflitos internos. Seja através das incapacidades de confiar (neurose) ou o desejo insaciável de controle (psicose), as redes sociais podem afetar negativamente a forma de nos relacionarmos com a realidade e com os outros.
Para concluir, é importante desenvolver práticas mais saudáveis de utilização das redes sociais buscando uma autoconsciência, privacidade e equilíbrio entre a vida online e a vida offline. É essencial entendermos até que ponto as nossas ações online estão dentro de uma “normalidade” ou estão atrapalhando as nossas relações como o mundo e, caso isso aconteça, da percepção de quando é o momento de buscar ajuda terapêutica para trabalhar estes conflitos internos.