O Apelo da Estrada: Do Porto a Faro em Duas Rodas,
a Faro
Data: 29 de maio a 8 de junho de 2026
Por: Miguel RegoData: 29 de maio a 8 de junho de 2026
Por: Miguel RegoQuando perguntaram a George Mallory por que razão queria escalar o Everest, a resposta ecoou com a simplicidade cortante dos grandes desafios: "Porque estava lá".
Para nós, ciclistas de longa distância, a pergunta repete-se na voz daqueles que amamos: porquê ir tão longe? A resposta, descobri-a algures no asfalto, na terra batida e no vento que fustiga o corpo: nos primeiros dias de uma jornada assim, algo muda dentro de nós. A bicicleta despe o mundo até ao essencial. O universo encolhe-se e simplifica-se; a vida passa a ser a próxima subida, se faz sol, a água, a comida e o teto para a noite. Cada manhã começa com aquele belo e familiar friozinho na barriga, um nervosismo que acalma logo nos primeiros quilómetros, quando sentimos que a máquina responde, o GPS aponta o rumo e as pernas estão prontas para pedalar pela estrada.
A aventura começou a 29 de Maio, e partilho-a seguidamente convosco com o ritmo do pedal e a alma despida.
A Etapa 1 (108 km) arrancou com a bagagem no peso máximo e aquela pressa ingénua de "chegar" que nos faz carregar nos pedais com demasiada energia. O vento moderado pelas costas ajudou a rolar rápido até São Jacinto para o ferry, mas o ciclismo tem destas coisas: entre a Praia da Barra e a Praia de Mira, dois furos seguidos no mesmo trilho que outrora pisamos rumo a Fátima fizeram-me praguejar. Valeu-me a solidariedade da tribo das bicicletas — o dono do hostel levou-me a Mira para converter o pneu em tubeless. Fica a lição viva: levem sempre pneus extra, e convertam-se ao tubeless sem hesitar.
No dia seguinte, a Etapa 2 (100 km) trouxe a dureza da meteorologia. Sob uma morrinha persistente e uns cinzentos 15ºC, rumei pela estrada florestal até Quiaios. A subida lenta até ao Farol do Cabo Mondego, pela mítica Estrada do Enforca Cães, devolveu-me o mar e o rugido das ondas. Ainda tenso com o pneu, comprei um novo em Buarcos (que fez a viagem toda guardado no alforge) antes de cruzar o Mondego de barco. O troço até São Pedro de Moel foi "à vela", empurrado por um vento constante, mas a paisagem trouxe uma melancolia profunda: o Pinhal de Leiria, já fustigado pelo fogo de 2017, exibia agora o cenário avassalador da tempestade Kristin, com milhares de pinheiros decepados a meio. Uma atmosfera fantasmagórica que nos faz sentir pequeninos perante a força da natureza.
Esta etapa 3 (88 km) foi um exercício de superação psicológica. Recordando a asma e a ansiedade do ano passado, decidi simplesmente confiar no processo. Contornei a Lagoa de Óbidos seguindo as dicas do João Guerreiro para evitar um troço intransitável, e fui recompensado por trilhos de gravilha onde a beleza da lagoa se revelou em todo o seu esplendor luminoso. No início da manhã, a estrada lembrou-me a nossa vulnerabilidade: ajudei uma estudante da FEUP que no seu passeio de bicicleta dominical caiu, perto da Nazaré, com o meu kit de primeiros socorros (felizmente usado nos outros e não em mim) e evitei a Serra da Pescaria, rolando com prazer pela N242 até à Foz do Arelho. Almocei com calma, que a seguir tinha uma subida complicada em São Martinho do Porto. O dia fechou num parque de campismo deserto em Ferrel, com a constatação prática de que carregamos sempre demasiada roupa; com desprendimento, o equipamento aguenta dois ou três dias de suor e estrada.
Esta etapa 4 (76 km) foi uma imersão nos cheiros do Oeste: a maresia misturada com o aroma a feno e erva cortada nos campos agrícolas junto às dunas. Subi à Atalaia com o corpo a responder de forma magnífica — pernas fortes, pulmões limpos. O vale do Rio Alcabrichel desafiou-me a caminhar sobre paletes de madeira devido à maré cheia, antes de regressar ao asfalto silencioso ladeado por andorinhas e vigiado por um milhafre. A Ericeira acolheu-me com a sua vibrante vibe de surf mundial. Por esta altura, a minha dieta já se tinha transformado num périplo italiano de massas e pizzas, combustível sagrado empurrado por Coca-Cola, Ucal e Compal de frutos vermelhos pelas suas propriedades antioxidantes.
O percurso (82 km) começou sob um céu sombrio que logo abriu. Descer até às Azenhas do Mar faz-nos questionar a audácia humana de construir casas à beira do abismo. Com o Palácio da Pena a espreitar no horizonte e a simpatia de uns burros no Magoito, enfrentei a grande subida por Almoçageme até à estrada do Guincho. Ali, com o mar à direita e a opulência da Quinta da Marinha à esquerda, percebi que estava em plena forma física e mental. Lisboa não seria o fim, como no ano passado, mas sim a rampa de lançamento. Atravessei o Tejo em Belém, pronto para o desconhecido.
Esta etapa (72 km) coincidiu com o Dia Mundial da Bicicleta e marcou o início da verdadeira aventura em território virgem. Cruzei a malha urbana até à Lagoa de Albufeira e Aldeia do Meco, onde a berma larga da N10 deu segurança. Numa subida exigente, a pedalar de boca aberta, engoli uma mosca — empurrada à força com água e um gel energético: pura proteína de estrada! A apoteose do dia foi a Serra da Arrábida. A inclinação brutal obrigou-me a levar a bicicleta à mão na parte final, mas a recompensa na crista da montanha, junto às antenas, foi um rasgão de azul intenso onde o oceano se abria lá em baixo. Descer em ziguezague até Setúbal para um choco frito tardio foi pura glória, validando a estratégia de usar um colete de hidratação para manter os cruciais 700 ml de água por hora.
Esta (108km) começou com o ferry das 10h e o calor a apertar. Contudo, o asfalto renovado de Tróia e um vento forte nas costas permitiram-me voar: 44 km nos primeiros 90 minutos! Passei pelas cegonhas da Comporta, pelas paredes caiadas de Melides e rumei, ladeando a A26, até Sines. Em São Torpes, o inverno tinha colapsado a estrada costeira, obrigando-me a seguir um casal de idosos de bicicleta pela areia da praia para lá da Ribeira do Mogravel. Porto Covo surgiu transformada, cheia de linho e sandálias Birkenstock da malta de Lisboa. Evitei a gravilha da Ilha do Pessegueiro para poupar o pneu e terminei a rolar suave até ao Parque Sitava em Vila Nova de Milfontes.
A Etapa 8 (80 km) entregou a poesia visual desta viagem: o trilho cimeiro sobre as falésias entre o Farol do Cabo Sardão e o Porto das Barcas. Entre caminhantes e o pó dos 4x4, passei pelas estufas da Zambujeira do Mar e pela ciclovia do Almograve. Ao chegar a Odeceixe, o coração saltou: estava oficialmente no Algarve. A descida para a praia oferece uma das vistas mais avassaladoras de Portugal, com o rio Seixe a rasgar o vale até ao mar. Aljezur recolheu-me na serenidade única do interior algarvio.
Esta (92 km) foi, para mim, a etapa rainha do puro prazer de pedalar. Decidi evitar o Eurovelo e seguir pela estrada deserta rumo à Carrapateira, cruzando dunas, barrancos verdes de pinheiros mansos e moinhos de vento gigantes na N268. E se estava ali, o destino era só um: o quilómetro zero no Cabo de São Vicente. Pedalar até ao fim da terra, com o abismo aberto sobre o mar, é uma experiência mística. O regresso a norte contra o vento até Vila do Bispo e a descida para a Praia da Salema para almoçar na areia prepararam-me para Lagos, onde a nostalgia do fim começou a instalar-se.
Aqui (71 km) foi um choque cultural. Depois de uma noite sem dormir devido ao bulício da juventude em Lagos, arranquei pela Ecovia Algarvia — que hoje em dia exige navegação constante por GPS. A Ria de Alvor abriu o dia em beleza, mas logo deu lugar ao Algarve do betão e da pressão urbanística. Valeu o ziguezague por Ferragudo, Lagoa e pelos belos passadiços dos Salgados. Albufeira revelou-se um formigueiro de néons, ecrãs gigantes e excessos de turismo britânico do qual fugi a sete pés, encontrando o meu oásis numa tenda com ar condicionado no Hola Camping.
Finalmente, este (53 km) foi o último capítulo, pedalado com o aperto no peito de quem não quer que a viagem acabe. Passei pela Marina de Vilamoura, Quarteira e Quinta do Lago. Na Praia da Quinta do Lago, com a sua longa ponte de madeira, fiz uma paragem obrigatória: coloquei os pés no mar e deixei o tempo correr durante uma hora, absorvendo o caminho percorrido. O assalto final a Faro fez-se pelo trilho de cascalho que atravessa os labirintos de água da Ria Formosa, contornando a pista do aeroporto até ao Montenegro.
Chegar ao fim de uma jornada de mais de 900 km não é apenas cruzar uma linha de meta; é perceber que a distância nos transformou. Deixamos na estrada o supérfluo, os medos da asma, os fantasmas dos furos, e trazemos na bagagem da alma a Arrábida azul, o vento de Sines, o abismo de Sagres e a certeza de que o nosso corpo é uma máquina incrível capaz de nos levar para lá do horizonte, desde que o alimentemos e cuidemos com cremes e unguentos nas partes sensíveis.
Meus amigos "Tantos e Empen(h)ados", a estrada continua lá, à vossa espera. O GPS está pronto, o vento há de soprar e o mundo é demasiado bonito para ser visto apenas pela janela do carro. De que é que estão à espera para começar a pedalar?
Um abraço,
Miguel Ângelo Rego,