Aventura a Fátima,
Porto a Montemor-o-Novo
Montemor-o-Novo a Fátima
Data: 4 e 5 de outubro de 2025
Por: Miguel RegoData: 4 e 5 de outubro de 2025
Por: Miguel Rego25.10.04 - Etapa 1, Porto a Montemor-o-Velho
Altim: PNG | Tracks: KMZ - GPX | DF=3 | DT=1 | 140KmFotos: Porto - S. JacintoFotos: S. Jacinto - BarraFotos: Barra - Praia de MiraFotos: Praia de Mira - CastanheiroFotos: Castanheiro - Montemor25.10.05 - Etapa 2, Montemor-o-Velho a Fátima
Altim: PNG | Tracks: KMZ - GPX | DF=3 | DT=1 | 86KmFotos: Montemor - SoureFotos: Soure - PombalFotos: Pombal - Albergaria dos DozeFotos: Albergaria dos Doze - FátimaEscrevo ainda com o bom cansaço nas pernas e a alma leve, para agradecer — com a sinceridade simples que a bicicleta ensina — o fim de semana que me devolveu uma alegria antiga. Se é verdade que o corpo conhece as suas ladeiras, também é verdade que a amizade as torna transitáveis; e foi isso que vi, do primeiro raio de luz no Porto ao rumor denso da multidão no Santuário de Fátima.
Obrigado a quem urdiu a logística invisível: os que traçaram o percurso com mão de alfaiate, escolheram estradas de gravilha franca e pinhais cheios de sombra, e uns trilhos lamacentos, ensaiaram alternativas, marcaram restaurantes e alojamento. Obrigado a quem fotografou sem que déssemos por isso, para que agora possamos ver, com os olhos de fora, a alegria que já sabíamos por dentro.
A todos os que pedalaram ao meu lado: a vossa cadência foi o meu metrónomo, o vosso riso a melhor estratégia contra a fadiga. Na gravilha branca — as nossas strade bianche — descobri que a generosidade também tem som: é o da roda que abranda para que o outro recupere, é o “força” que sobe mais alto do que a rampa. Sozinho, ao fim de cem quilómetros, eu teria declarado trégua; convosco, o ânimo duplicou, e o mapa encurtou, 140km de puro deleite.
Guardarei imagens com a nitidez de um filme bem iluminado: o Atlântico a despertar junto às dunas; o silêncio vertical dos pinhais e o cheiro a resina que nos obrigou a respirar mais fundo; a Ria de Aveiro, espelho antigo onde a paisagem se corrige; a Lagoa da Vela, aparição de azuis contidos; Montemor-o-Velho, castelo altivo e milharais em respiração lenta; a companhia discreta da Linha do Norte e o Rio Arunca, cronista de margens humildes, que nos contou hortas, pontes e cães amedrontados com tamanho pelotão. E, já perto do destino, as cinco subidas com a sua moral justa — pediram perícia às pernas e serenidade à cabeça, e encontraram em nós uma reserva de ânimo que só existe quando se partilha o esforço. E que bem que souberam os eletrões a quem os levou...
Chegar a Fátima foi entrar num outro compasso: o Santuário tomado por uma multidão de passos lentos, velas acesas, murmúrios em ondas; nós, ainda vestidos de pó, a atravessar essa maré humana com gratidão, como quem não pede prodígios porque os traz no bolso — o corpo que obedeceu, a estrada que se abriu, os amigos que empurraram quando foi preciso.
Quero agradecer também aos que não pedalaram, mas tornaram possível que pedalássemos: famílias pacientes, quem levou mochilas, quem cedeu tempo — essa moeda preciosa — para que tudo corresse com a naturalidade dos bons planos. A vossa é a parte maior do milagre.
Comprei uma bicicleta de gravel para fugir aos carros e encontrei, convosco, um país mais próximo: caminhos brancos, pinheiros altos, rios conversadores, vilas de relógio antigo. Encontrei, sobretudo, a velha camaradagem que não falha: o vento de cauda que não se vê mas que se sente.
Fico-vos, pois, agradecido — não com aquela gratidão breve dos aperitivos, mas com a que fica nos ossos e volta ao deitar. Quando a rotina levantar as suas paredes úteis, sei onde está a porta secreta: nas memórias que fizemos e no desejo de as repetir. Que venham outras etapas, com poeira na roda, castelos na linha do horizonte e essa certeza simples, quase infantil, de que a vida, partilhada, rola melhor.
Bem-hajam, todos. Sem vocês, este fim de semana teria sido apenas um mapa; convosco, foi um relato inteiro.
Um abraço,
Miguel Rego