Eurovelo 1,
Porto - LIsboa
Data: 7 a 11 de junho de 2025
Por: Miguel RegoData: 7 a 11 de junho de 2025
Por: Miguel RegoA primeira pedalada deu-se diante da minha casa, não na Torre dos Clérigos, no coração do Porto. Eram cerca das nove da manhã do dia 7 de junho. A cidade ainda despertava lentamente, envolta numa luz macia de início de verão, e eu sentia uma mistura de entusiasmo e nervosismo. Pela primeira vez, ia partir numa viagem de bikepacking a solo. O destino: Lisboa. O percurso: o traçado do Eurovelo 1, tanto quanto fosse possível segui-lo. Sabia que alguma coisa podia correr mal — a minha experiência a resolver avarias em viagem é bastante limitada —, mas a vontade de partir falava mais alto do que o medo.
Saí da cidade por ciclovia até Espinho, entre pequenas interrupções e troços partilhados com trânsito urbano. Dali, entrei na mata de Esmoriz, onde a sombra dos pinheiros e o cheiro a resina criaram uma atmosfera acolhedora. Cruzei o Furadouro e segui ao longo da Ria de Aveiro, por um percurso surpreendentemente calmo e plano até à Torreira. Era ainda cedo na temporada e a zona não tinha o habitual bulício do verão. Na praia, quase vazia, vi apenas um casal de turistas a saborear o privilégio de um areal imaculado só para eles.
Cheguei a São Jacinto por volta do meio-dia e decidi almoçar ali. Entrei num pequeno restaurante junto ao cais e pedi sardinhas assadas. Tinham acabado de sair do grelhador, e o sabor salgado, a par da maresia constante, deu-me a sensação de estar plenamente em rota atlântica. Apanhei o ferry para a Costa Nova, onde retomei o percurso em ciclovia, sempre junto à Ria, atravessando a paisagem típica e luminosa até à Praia da Vagueira.
O vento soprava forte de norte e funcionava como um aliado fiel, empurrando-me com suavidade e ajudando a manter uma média de velocidade invulgar para mim. Sentia-me com motor. Terminei o dia com 96 quilómetros percorridos.
Pernoitei no parque de campismo da Orbitur, um espaço limpo, bem organizado e calmo. Montei a minha pequena tenda, que mais parece um sarcófago de tão estreita, mas quis viver a experiência completa. Sempre me tinha fascinado ver os turistas estrangeiros a chegarem ao parque de campismo com bicicletas carregadas, desmontarem com destreza os alforges, abrirem as tendas e ficarem ali, em modo nómada. Desta vez, era eu quem estava nesse papel.
A primeira noite custou a passar. Dormi vestido pois à noite faz frio, as costas ressentiram-se do colchão insuflável e o vento agitava os pinheiros durante a noite. Ainda assim, acordei ao som do chilrear dos pássaros com a sensação clara: estava mesmo numa aventura, e por minha conta.
Vestir o equipamento, arrumar tudo na bicicleta, verificar a pressão dos pneus, fixar os alforges e procurar um pequeno-almoço tornaram-se parte da minha rotina matinal. Nesta viagem estava a utilizar pela primeira vez um GPS novo, o Garmin Edge Explore 2. A navegação revelou-se muito intuitiva, e a função de recálculo automático da rota foi uma mais-valia sempre que preferi seguir caminhos diferentes. Planeei tudo com a aplicação Komoot, que é bastante competente em Portugal e ajuda a evitar vias com muito trânsito, privilegiando ciclovias, caminhos de terra batida ou estradas secundárias.
No segundo dia, a ciclovia da Praia de Mira até Quiaios foi uma das mais agradáveis surpresas. Está agora totalmente asfaltada, com marcações no piso e lombas que impedem os carros de abusar na velocidade. O vento norte mantinha-se constante, e cruzei-me com vários triatletas a treinar. Atravessar aquele pinhal, despido pelos incêndios de anos anteriores, tem algo de solene: uma longa estrada recta, ladeada por árvores queimadas e silhuetas escuras.
Chegado a Quiaios, fiz uma pausa na praceta central. Comprei pão, fruta e uma bebida numa mercearia local. Dali para a frente, começava a subir. A estrada do Mata Cães, recentemente asfaltada, proporciona vistas magníficas sobre o mar. Mas também obriga a suar. Com mais 20 quilos na bicicleta comparados com os meus melhores dias, desejei ter instalado uma cassete com 34 dentes. Mas, devagar, fui vencendo o desnível. A descida até Buarcos e depois para a Figueira da Foz soube a recompensa.
Ali, junto à praia, bebi um sumo fresco e comi uma sandes. Tinha a sensação de que não havia nada mais simples nem mais pleno do que aquilo: pedalar, observar e viver o caminho.
Em seguida fui procurar o ferry-táxi que permite a travessia do Mondego, uma vez que o traçado original do Eurovelo obriga a um desvio superior a 30 quilómetros para o interior. Não se pode atravessar a ponte na Figueira da Foz — ainda está em obras e não é permitida a passagem de bicicletas. Mas a travessia de barco (menos de cinco minutos) até à praia do Cabedelo é bem mais interessante. Faz-se num barco com imenso espaço para bicicletas, onde há até esticadores para prender os quadros com segurança.
Do outro lado, dei de caras com a Praia do Cabedelo, repleta de veraneantes. Resolvi almoçar por ali e deixei-me ficar à sombra durante cerca de duas horas, fugindo à canícula que já me torrava as ideias. Prossegui depois por Gala, optando por estradas secundárias para evitar a N109 e os seus camiões ameaçadores. Só quando cheguei à Marinha das Ondas voltei a ver marcações do Eurovelo 1, que me conduziram com segurança por entre pinhais até à ciclovia da Mata do Urso.
Daí em diante, com o vento sempre pelas costas, foi um ver-se-te-avias. O percurso ao longo do cordão dunar faz lembrar, por vezes, a travessia de um deserto. As dunas sucedem-se, o alcatrão aquece e a vegetação escasseia. Cheguei à Praia da Vieira e, mais tarde, percorri a Estrada Atlântica até ao Farol do Penedo da Saudade, em São Pedro de Moel.
Tenho uma relação muito especial com este lugar. Quando chego a São Pedro de Moel sinto-me sempre muito bem, não sei se é o cheiro da maresia misturado com o aroma a pinho, a paz e a serenidade do local, com as suas casas de verão muito arranjadas, ou se é apenas nostalgia pelos anos a fio em que passei aqui as minhas férias de verão. Houve um ano, teria eu 10 anos, que passei um mês numas férias que pareciam intermináveis, onde fiz amigos e ia à praia todos os dias. É sempre muito bom regressar aqui e acampar no Parque de Campismo da Orbitur, um espaço muito organizado, que tem tudo — até lavandaria automática, onde lavei a minha roupa para poder seguir bem cheiroso no dia seguinte. Neste dia percorri 118 km. Ao final da tarde assisti ao pôr do sol e depois segui para o Restaurante Ponto de Encontro, na pequena praça junto à praia, de onde só saí depois de ver a Seleção Nacional a vencer nos penáltis a Taça das Nações.
O dia 3 iria levar-me para território desconhecido, pelo menos em termos de viagem de bicicleta. Segui para sul em ciclovia em direção à Praia do Norte, na Nazaré, e depois alcancei o Sítio da Nazaré, onde reza a lenda que D. Fuas Roupinho, o alcaide de Porto de Mós, foi salvo in extremis da morte certa por intervenção de Nossa Senhora. Parei para a foto obrigatória. E encontrei um outro ciclista, Luis, de Girona, que estava a fazer o Eurovelo no sentido sul-norte. Proveniente de Sevilha, continuaria a sua viagem até Vigo. Dizia ele: "Viajar sozinho é a melhor terapia para as preocupações e ansiedade da nossa vida." Concordei, embora às vezes ficasse com a sensação de que ter alguém com quem partilhar esta aventura fosse igualmente interessante — pelo menos para ter alguém com quem conversar.
Depois da Nazaré começaram as dificuldades — umas subidas duras que me fizeram percorrer uma estrada ladeada de antigos moinhos de vento, aliás muito comuns em toda esta zona do Oeste. Por momentos, senti-me num combate solitário contra gigantes — não os moinhos, mas as próprias subidas, que pareciam não ter fim. Este dia amanheceu quente e antevi dificuldades mais à frente. Desci até à Foz do Arelho, uma praia lindíssima, onde almocei e deixei passar o calor, e depois percorri a estrada que ladeia a Lagoa de Óbidos. Esta parte do percurso é exigente, com um sobe e desce constante. Aqui já começava a ficar impaciente com o GPS, que insistia em sugerir estradas de gravilha, que eu queria evitar por receio de furos — embora os pneus Hutchinson Overide de 35 mm (tubeless) estivessem a portar-se muito bem.
Optei por seguir por estrada e, nessa opção, passei um mau bocado: fiquei sem água e foi com grande alívio que encontrei um supermercado em Serra D'El Rei, onde me recompus. Daí em diante segui até Peniche. Diga-se, em abono da verdade, que Peniche é uma terra complicada de alcançar em bicicleta. Exige navegação apurada por entre campos e trilhos de gravilha até se alcançar a malha urbana, pois o acesso principal é o IP6, que se funde mesmo à entrada da cidade com a N114. Ora, é uma estrada nacional mas... a malta acelera como numa autoestrada — não é seguramente um bom sítio para andar de bicicleta. Depois de algumas hesitações, e de ir a uma bomba de gasolina pedir orientações, lá encontrei um caminho que me permitiu entrar em Peniche por sul, em vez de seguir o percurso inicialmente planeado de entrar pelo Baleal a norte.
Comecei o quarto dia já com a fadiga a pesar nas pernas e uma sensação desconfortável no peito. A asma, velha conhecida, resolvera juntar-se à festa e, nas subidas, parecia que alguém me apertava o pescoço com uma corda invisível. A motivação estava lá, mas o corpo já acusava os quilómetros acumulados.
O percurso atravessava uma sequência de pequenas praias viradas a oeste, onde a cultura do surf vibra em cada esquina — e em cada carrinha Volkswagen estacionada. Fui progredindo por estrada até à Praia do Porto Novo, onde voltei a encontrar-me com o Atlântico. Foi como regressar a casa: a linha do horizonte, o cheiro a sal, o vento fresco na cara. Um alívio.
Claro que o GPS, cúmplice ingrato, escolheu este momento para bloquear. Muita perícia técnica foi exigida para resolver o problema (leia-se: desligar e voltar a ligar), mas eu tinha uma alternativa — o Google Maps, - que acabou por se revelar um excelente copiloto de recurso.
Segui em ciclovia até à imponente Praia de Santa Cruz. Um areal extenso, salpicado de pranchas, surfistas e turistas bronzeados. Sentei-me num dos bancos vermelhos com vista para o mar e fiquei ali uns minutos, só a olhar. Às vezes, é tudo o que precisamos. Aproveitei para almoçar e recuperar forças.
Com energia renovada, continuei por um trilho junto à falésia. Inicialmente pareceu-me arriscado, mas revelou-se largo e seguro — e com vistas de cortar a respiração. A etapa aproximava-se do fim, mas ainda havia surpresas: uma longa estrada de gravilha branca atravessava os campos até à Foz do Rio Sizandro, talvez um dos trechos mais bonitos de toda a viagem. Parecia a versão portuguesa das "strade bianche" da Toscânia.
Mas não havia final sem luta: duas subidas tramadas marcaram o desfecho do dia, a última já na Ribeira d'Ilhas. A recompensa? A chegada à Ericeira, com a sua estátua ao surfista e a energia vibrante de uma vila virada ao mar. Casas brancas com molduras azuis e amarelas, ruas estreitas e empedradas, gente nova, sol, movimento, cor.
Fiquei num hostel cheio de jovens surfistas — e, por momentos, esqueci a idade e o cansaço. Ao final da tarde, a praia estava cheia de gente a celebrar o dia de Camões e eu assisti, emocionado, a um pôr do sol glorioso, com uma temperatura que fazia inveja a muitos dias de verão. Sentia-me parte de algo maior.
Acordei na Ericeira com boa disposição. Dormira bem, o corpo parecia ter finalmente percebido que esta era uma viagem para ser vivida até ao fim. O céu estava encoberto, com uma ameaça de chuva, mas bastou o sol espreitar para dissipar qualquer receio — seria mais um belo dia de viagem.
O percurso do último dia trazia consigo uma carga emocional diferente. Sabia que o destino estava próximo. O Garmin indicava cinco subidas, devidamente assinaladas com o seu aviso imperativo: “SUBA!”. Não há discussão possível com um GPS determinado.
Saí da Ericeira por entre povoados agrícolas, campos cultivados, estradas secundárias com mais cheiros que carros. Passei ao lado de um curral onde burros curiosos me seguiram com o olhar, e ao longe a Serra de Sintra erguia-se como uma promessa. O Palácio Nacional cintilava sob a luz da manhã, e a imagem, quase mágica, deu-me ânimo.
Parei em Almoçageme — nome predestinado para fazer uma pausa para almoço. Estava exausto, mas com a mente serena. A temperatura caía à medida que subia na serra, e foi nesse fresco reconfortante que reencontrei forças. A subida até à N247, longa e constante, exigiu concentração e calma. No topo, a sensação foi de conquista pura. Daí em diante, larguei as amarras e deixei-me embalar pela descida até ao Guincho.
Atravessar a Quinta da Marinha de bicicleta, entre casarões escondidos e carros de luxo, é quase surreal. A ciclovia ali é exemplar, e o contraste entre o verde ordenado das mansões e a vastidão azul do mar criava uma paisagem quase cinematográfica. Ao fundo, Cascais aguardava, vibrante, cheia de turistas. Almocei um prato de esparguete (caríssimo, mas saboroso) no John Bull e preparei-me para a reta final, não antes sem deixar de prestar a minha homenagem ao grande Camões, figura central desta praça, adornado de coroas de flores que lá foram colocadas na véspera para assinalar o Dia de Portugal.
Evitei a perigosa estrada N6 e segui pela marginal, com o auxílio do Google Maps. Passei ruas que conhecia de outros tempos — na Parede, vi a rua onde trabalhei há vinte anos. Segui por Oeiras, depois Cruz Quebrada, e por fim Algés, onde os preparativos para o NOS Alive enchiam o ar de música e entusiasmo.
Os últimos quilómetros foram uma celebração. Passei o Centro Champalimaud, quase em silêncio, e quando avistei a Torre de Belém, soube que tinha chegado. Estava ali, o destino da minha viagem: 84 quilómetros nesse dia, mas centenas no coração.
Encostar a bicicleta, olhar o Tejo, e respirar fundo — era isto. Uma viagem a solo, uma jornada interior, um reencontro com o mundo ao ritmo de cada pedalada.
Percorrer o caminho entre a Torre dos Clérigos e a Torre de Belém em bicicleta é muito mais do que uma sucessão de pedaladas e quilómetros. É uma travessia interior, feita ao ritmo do corpo e do vento, onde cada etapa se transforma num microcosmo de desafios, descobertas e reencontros.
Momentos altos não faltaram: a travessia silenciosa da Ria de Aveiro, o chilrear dos pássaros ao amanhecer no parque de campismo, o sabor das sardinhas em São Jacinto, o pôr do sol em São Pedro de Moel ou na Ericiera, a beleza inesperada da Foz do Sizandro ou o reencontro com ruas do passado nos arredores de Lisboa. Cada um desses instantes tem um brilho próprio, e juntos formam um mosaico que dificilmente se esquecerá.
Viajar de bicicleta é um convite à lentidão ativa. Obriga-nos a sair da bolha da velocidade e do conforto, e a enfrentar o mundo com os sentidos abertos. Permite observar a paisagem a mudar, escutar os sons do campo, sentir o cheiro do mar ou da terra acabada de lavrar. Dá-nos tempo para pensar — ou simplesmente para estar.
Nesta viagem, tive de lidar com cansaço, falhas de GPS, dúvidas de navegação e a asma a apertar nas subidas. Felizmente sem avarias ou furos. Mas, em troca, ganhei o privilégio de me sentir vivo, ligado ao território e às minhas próprias capacidades. Redescobri o valor das pequenas vitórias: encontrar água quando a sede já aperta, montar uma tenda ao fim do dia, seguir por um trilho incerto que se revela seguro e belo.
Recomendar uma aventura assim é quase um dever. Porque nos reaproxima da natureza, porque nos devolve ao essencial, porque nos ensina que o destino importa — mas o caminho, esse sim, transforma-nos.
Miguel Rego