Pela Quinta das Arcas,
a Sobrado
Data: 30 de junho de 2024
Por: Miguel RegoData: 30 de junho de 2024
Por: Miguel RegoEsta manhã acordou cinzenta, mas a meteorologia jurava de pés juntos que nenhum dilúvio estava à vista. A caminho do nosso ponto de encontro, sempre pelas 8h da manhã, vejo uma senhora que leva a sua rotina mais a sério do que um político em época de eleições. Ela levanta-se cedo, pega na vassoura, calça as suas luvas de borracha, e, faça chuva ou faça sol, lá está ela, a lavar o passeio em frente à sua casa e a limpar a porta de entrada com um esmero que faria qualquer militar ficar envergonhado. São rituais, atos repetidos sem pensar, que preenchem uma parte das nossas vidas e dos quais nem temos consciência, mas, se não acontecerem, geram uma sensação de vazio. Eu entendo-a bem, também vou a caminho do meu ritual de domingo.
Comigo compareceram o Gordon, os Carlos Gomes, os Paulos (Costa e Santos), o Teixeira, o Ximbra, o Jorge Duarte e o Durval. O passeio começou em direção a Sobrado, passando por Alfena. O nosso grupo esticou as pernas suavemente nos primeiros quilómetros até às primeiras subidas. Assim está bem, muito bom, comentavam alguns, como se fossem críticos gastronómicos num restaurante de cinco estrelas. Seguimos em busca do flow, das subidas que precedem as descidas.
Cruzamos a A41 por cima e por baixo, ali para os lados no centro logístico da Jerónimo Martins, contornamos vinhas que emprestavam aos montes um padrão linear, verde, tão verde quanto o vinho que dali sairá um dia, ou verde como as silvas que nos lamberam as pernas e deixaram marcas indeléveis desse amor pela natureza. Se é para amar, que seja assim, de forma selvagem e inesquecível.
Tivemos umas descidas muito boas, daquelas que puxam pela adrenalina e nos fazem soltar uns gritinhos de excitação, como se fôssemos colegiais delirando com o seu ídolo musical. Passamos por Lordelo para uma paragem técnica e café, e seguimos com a chuvinha morrinha por companhia. Seguimos novamente por Alfena onde o Paulo Santos, pedalando por entre as ervas que tapavam o trilho, fez um mortal à frente, num voo digno de um artista circense, encorpando por cima do guiador. Sem consequências, a não ser para o orgulho ferido. Nota artística: 10.
Ainda vimos uns motards em excursão ruidosa, mostrando os seus blusões de couro e as suas barbas. Foi bom, fiquei cansado, mas na memória ficou mais uma manhã gloriosa de pedalação. E assim, entre pedaladas e gargalhadas, buscamos a recompensa que nos faz voltar ao nosso ritual todas as manhãs de domingo, tal como a senhora com a sua vassoura e as suas luvas de borracha. Afinal, são os rituais que dão sabor à vida, seja lavando o passeio ou pedalando entre as silvas.
Não faço ideia de quantos km fizemos, não levei Garmin, estou cada vez mais "old school".
Abraço, e até Domingo.
Miguel Ângelo Rego