Alternativas para o consumo e a produção sustentável no Brasil
Iniciativas em diferentes localidades do Rio Grande do Sul indicam que o Objetivo Sustentável 12 alcança o cotidiano da população brasileira
Num mundo digitalmente tecnológico, as vivências são compartilhadas de forma instantânea. O aviso de mensagem “encaminhada com frequência” aparece em variados áudios e fotos compartilhados no WhatsApp. No X (antigo Twitter), vídeos e tuites virais de um cenário regional chegam a todos os lugares do Brasil – e fora dele. Em conjunto, uma nação identifica as situações deprimentes decorrentes de enchentes históricas que assolam o Estado do Rio Grande do Sul, desde o início de maio de 2024. Com o maior desastre climático da História do Estado, a discussão sobre mudanças climáticas se tornou parte do cotidiano, através de conversas particulares, de comentários em grupos, e do Jornalismo.
Para dirimir os impactos consequentes das mudanças climáticas – que são resultados do mau uso dos recursos naturais do planeta –, em 2015, foram desenvolvidos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), com 17 objetivos e 169 metas a serem atingidas até 2030. Os ODS compõem uma agenda mundial de criação e implementação de políticas públicas e ações privadas para guiar o desenvolvimento da humanidade em harmonia com a preservação do meio ambiente.
Já se passaram quase nove anos desde que o Brasil aderiu à agenda 30, contudo, um estudo de 2022 apontou que o País, até então, não havia avançado de forma satisfatória no conjunto das 169 metas dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Conforme a pesquisa do Relatório Luz 2022, produzido por mais de 60 organizações da sociedade civil, apenas 0,59% das 169 metas apresentaram avanço satisfatório. Outros 14,28% têm avanço insuficiente. Mais de 80% dos compromissos acordados estão em retrocesso, sob ameaça ou estagnados. O resultado da pesquisa de 2022 apresenta um regresso sobre o progresso identificado em 2021 – que já não era tão significativo, contudo, apontava maiores avanços em relação à agenda 2030, que visa promover a sustentabilidade nos eixos social, ambiental e econômico dos países.
Apesar de ser imprescindível que governos nacionais, estaduais e municipais trabalhem considerando a Sustentabilidade no processo de governança, e que as grandes empresas – especialmente as vinculadas ao agronegócio, consideradas pelo Greenpeace Brasil como uma das maiores promotoras do desequilíbrio ambiental visto hoje no Rio Grande do Sul – incluam a preservação dos recursos naturais e da preservação do meio ambiente em seus planejamentos de trabalho, a população, de forma individual e coletiva, também pode adotar práticas de produção e consumo sustentável.
É esse o tema do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 12. O décimo segundo objetivo tem como meta a produção e o consumo responsável, visando mudar os padrões de consumo atuais, que são ideais do capitalismo, em que tanto o consumo quanto a produção desconsideram a Sustentabilidade, em prol de uma economia em crescimento exponencial. O ODS 12 incentiva o uso consciente e eficiente dos recursos naturais, tendo como foco ações globais, mas também reafirmando a importância de se pensar localmente o consumo e a produção sustentável.
Entre as medidas para se alcançar, com êxito, este tópico, estão o de evitar o desperdício de alimentos; a redução da produção química de gases poluentes, para minimizar os impactos negativos sobre a saúde humana e o meio ambiente; a redução substancial da geração de resíduos sólidos, compreendendo a importância da prevenção, redução, reciclagem e reutilização dos materiais; a promoção de políticas públicas de incentivo a compras sustentáveis; a aderência das empresas às práticas sustentáveis. Também, a disseminação de notícias verdadeiras através de conteúdos informativos para a conscientização sobre o desenvolvimento sustentável e o estilo de vida em harmonia com a natureza, entre outras medidas.
Mesmo que o cenário macro representado pelo Brasil, que foi um dos 193 países que acordou a agenda 30, em políticas públicas e demais ações governamentais, não tenha avançado de forma satisfatória, é possível apontar exemplos de personagens e de entidades que em suas ações de trabalho consideram a sustentabilidade. Apesar das falhas no âmbito nacional, há modelos que indicam um caminho viável e possível para que diferentes indivíduos construam políticas sociais harmônicas com à vida – e a permanência dela – na Terra.
Seu Lucena e a reutilização criativa de materiais como prática cotidiana
Em São Borja, numa rua movimentada – pela passagem constante de estudantes, professores e servidores da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) –, uma casa chama a atenção. Logo na entrada da residência, pneus dispostos como vasos para plantas enfeitam os muros da casa; uma vegetação bem-cuidada e arranjos de flores são vistos ao redor e ao lado do portão de entrada. No muro, disposto ao lado das grades do portão, uma placa anuncia: “Aqui mora um veterano do corpo de fuzileiros navais”. O ambiente já indica que ali reside uma pessoa interessada em preservar o meio ambiente; que reconhece a beleza da natureza e do que ela oferece.
O morador desta casa tão característica é Edgar Lucena Schenkel, ou Seu Lucena – como é conhecido – já foi diretor da Secretaria de Meio Ambiente do município de São Borja, já fundou um grupo de crianças e adolescentes em defesa dos recursos naturais, e hoje – como um hábito e prática adquirida desde de sua infância – produz e vende casas de passarinho construídas com materiais recicláveis e reutilizáveis.
Chegado em São Borja em 1964, com idas e vindas a outras localidades – como Uruguaiana, cidade vizinha no Rio Grande do Sul, e Rio de Janeiro, no Sudeste do Brasil –, Seu Lucena construiu casa e vida em São Borja. Com quase 80 anos, Seu Lucena é incansável – ainda constrói os móveis de sua casa; seu último feito foi o sofá da sala, que ainda está em processo de finalização e envernização. Elaborou e edificou a casa que vive em São Borja, com sua esposa, filhos e neto. Nela, há uma miscelânea de objetos decorativos e móveis construídos através de sua criatividade e vontade. Desde a casa em si, até a “arma de brinquedo” confeccionada para o neto quando ainda era pequeno. Segundo ele, era para que o neto não precisasse se preocupar com a quebra do brinquedo. E não precisou. Segue inteiro, mesmo após anos desde a infância do guri.
Espaço usado por Seu Lucena para a criação de artigos e móveis
Seu Lucena foi morar em São Borja encaminhado pela Marinha Brasileira. Era membro do corpo de fuzileiros navais do Brasil. Hoje, com problemas de memória devido à idade e por pegar Covid-19, diz não lembrar com exatidão de datas, mas se recorda que criou o projeto social Comando de Defesa à Natureza próximo à data de falecimento do Ayrton Senna – Seu Lucena conversa por associações, muito bem relacionadas e explicadas, quando fala de épocas e datas anteriores –, ou seja, em meados de 1994. Tanto que o piloto foi considerado patrono do grupo: “Não tem nada a ver com o meio ambiente, mas é um exemplo para nós”, explica ele.
O grupo durou por 13 anos; enquanto Lucena era coordenador do projeto. O grupo de Defesa recebia algumas doações de órgãos públicos, mas tentava se sustentar sozinho – especialmente com o conhecimento e contribuições de seu coordenador. Na época, foi formada uma diretoria, tanto para o trabalho coletivo, quanto para a burocracia da prestação de contas das doações.
Seu Lucena em seu espaço de trabalho
O idealizador do grupo considera que o Comando de Defesa à Natureza foi uma ferramenta educacional. “Tinha mãe que dizia que ‘ah, eu vou tirar o meu filho do grupo porque o senhor botou aquele marginal’, e eu falava: não, eu sinto muito, seu menino é muito bom, mas eu não posso tirar ninguém do grupo, se ele [o considerado marginal] é danado, é esse que nós queremos [para o grupo] para ver se muda aqui”, conta Seu Lucena. Sobre isso, relembra uma situação que o emocionou na época, e que ainda enche seus olhos de lágrimas quando conta, ao rememorar: “Chegou um dia, um sábado à tarde, eu vi que tinha parado um carro na frente [da sede] do grupo, aí o cara chegou e disse, ‘seu Lucena, eu queria falar com o Ciclano’, aí eu pensei assim, pô, será que o Guri fez alguma coisa? E ele não estava na reunião. Não tinha ido aquele dia. Eu não tinha notado, porque era muita gente. Aí eu disse, ‘ele aprontou alguma coisa?’, ‘Não, é que eu perdi um celular…’, quando o homem diz perder o celular, eu pensei… ‘E eu botei o celular em cima do carro, depois eu fui embora, me esqueci e saí. Ele achou, foi lá em casa entregar’. E eu chorei”. As lágrimas que brotam no canto de seus olhos, ainda nos dias de hoje, confirmam a emoção do dia. Seu Lucena ainda relembra que o guri foi recompensado com R$ 100 e um conjunto de roupa.
O grupo realizava diferentes ações voltadas à Sustentabilidade – Seu Lucena reconhece que o trabalho tinha esse viés, e que sua produção constante de casinhas de passarinho com materiais recicláveis também faz parte do cuidado com o meio ambiente. O grupo fazia trabalhos de limpeza na Costa do Rio Uruguai, plantio de mudas de árvore, acampamento de interação, entre outras ações. De acordo com Lucena, muitas das árvores plantadas – e, infelizmente, hoje derrubadas – ao redor do Rio Uruguai foram plantadas por ele antes de desenvolver o grupo, e também, posteriormente, junto aos meninos e meninas do Comando de Defesa à Natureza. “Nós fizemos horrores, plantamos, nós fazíamos as mudas. Pegava semente de uma espécie, assim, que era boa, tirava sementes daquele lugar [e colocava em outro]”, comenta Lucena, enquanto segura seu rádio no colo, e o cachorro Marrom acompanha a conversa e o contar de histórias de seu dono.
O coordenador explica que o projeto plantou mudas também nas escolas municipais como a Escola Ubaldo Sorrilha da Costa, no Bairro do Passo, onde ele vive desde 64.
“Nós reciclamos. Aí tinha que fazer cinco mudinhas cada criança, tivemos 25 mil mudas que nós plantamos na Costa. Nós doamos para colégios e para entidades [também]”.
Contudo, não era somente de doações que vivia o grupo. Ora recebia contribuições, ora o grupo desenvolvia ações internas para o recolhimento de recursos. Uma das ações era a venda de casas de pássaro, confeccionadas pelo Seu Lucena – que também ensinava às crianças, hoje adultos – a produzir. As casas de passarinho são um legado de sua infância. Lucena iniciou a confecção do artigo ainda quando era guri, já usava materiais reutilizados. Diz que em Caxias do Sul, e em outras cidades com grande quantidade de residentes com descendência europeia, é comum as casas de pássaros nos jardins. Surge desse hábito comum em sua Terra Natal, o interesse em produzir casinhas. Rememora que quando a Unipampa Campus São Borja foi construída, lá em 2007, recebeu doações dos resíduos dos materiais de construção e, nesta época, chegou a construir quase 300 casinhas de pássaros. Algumas foram vendidas, outras foram doadas.
Com o passar dos anos, e o aumento do preço dos materiais – como a madeira –, além da redução de doações de materiais recicláveis, Seu Lucena também diminuiu a produção. Contudo, seguem presentes – para venda e para apreciação – na área externa de sua casa. Além de todo seu arsenal de produções com restos de materiais e produtos recicláveis, também dispostos no quintal de sua residência e dentro dela. Sua casa é um exemplo de reutilização criativa de materiais de resíduos sólidos.
Seu Lucena, não somente pelo trabalho manual – fruto de um interesse de infância e aprimorado com o curso de carpintaria naval –, como também pela coordenação do grupo infantojuvenil Comando de Defesa à Natureza – sugestão de um amigo após ver o trabalho de Lucena na Costa do Rio Uruguai –, e sua contribuição para o município, é um modelo de como realizar a produção e o consumo sustentável, a partir de seu cenário local. Reconhecido por lideranças municipais, Edgar Lucena Schenkel, enquanto trabalhou na pasta de Meio Ambiente (iniciou como encarregado de limpeza até se tornar diretor), mudou o cenário que hoje é o Cais do Porto. Lá, além de ter plantado diferentes árvores, implementou o bom hábito de “jogar lixo na lixeira”. Diz ele, que aprendeu a falar “lixo” em espanhol, para orientar não somente os brasileiros, como os argentinos que descartavam irregularmente basura no chão. Logo, havia lixeiras e banheiros públicos sendo construídos na área. Por isso, não há quem não conheça Seu Lucena em São Borja, seja por suas vivências, seja pela sua casa cheia de flores e árvores – propícia, inclusive, para a visita de animais “Esses dias, achamos uma cobra aqui… ela estava perdida”, conta ele –, ou pelo seu trabalho de valorização aos recursos naturais, desde seu ofício na Marinha até a reciclagem de resíduos sólidos para a confecção de artigos decorativos.
Galeria de fotos sobre as produções de Seu Lucena
No município de Santiago reciclar é sinônimo de Pila Verde
Cédula Pila Verde - Crédito da imagem: Prefeitura Municipal de Santiago
Em 05 junho de 2020, o município de Santiago, na região central do Rio Grande do Sul, lançou o projeto socioambiental “Pila Verde”, que objetiva incentivar a comunidade local a realizar a troca de resíduo orgânico por uma moeda social denominada “Pila Verde”. A cada cinco quilos de resíduos orgânicos que são levados ao ponto de coleta, ganha-se 1 pila verde (que significa um real em moeda brasileira) - que pode ser trocado nas feiras dos produtores e Horto Florestal Municipal, de maneira a fomentar a Agricultura Familiar de Santiago.
A iniciativa nasceu com uma forma da Administração Municipal reduzir os custos com o transporte de lixo para aterros sanitários e também como uma maneira de conscientizar a população municipal da importância de realizar a coleta seletiva. Segundo dados retirados do artigo “Políticas Públicas durante a Covid 19: o pioneirismo do projeto “Pila Verde” no município de Santiago-RS”, de autoria de Darlene Cristina Colaço Chaves, o município gerava em torno de 750 toneladas de resíduos domésticos e que destes 350, em média, eram resíduos orgânicos descartados. O envio desses materiais vai para o aterro sanitário do município de Santa Maria.
Outro problema que foi amenizado com a iniciativa, foram os altos custos que os agricultores familiares pagavam por sementes e adubos que vinham da região metropolitana do Estado, pois hoje os agricultores podem comprar por um preço mais em conta, e pagar com o Pila Verde, o adubo produzidos pela Central de Triagem e Transbordo de Santiago - que produz o material a partir dos resíduos que são comprados dos cidadãos locais.
O secretário do Meio Ambiente, Matheus Ribeiro Gorski, explica como funciona o processo de produção do adubo orgânico.
“No caso, é recolhido os orgânicos no ponto de trocas do Pila, nas associações dos bairros, é recolhido pela nossa secretaria em bombonas e a gente leva lá para nossa central, a CTT, lá na Usina. E lá a gente tem uma área destinada à compostagem. Aí a gente vai fazendo todo o trabalho, a gente limpa ele, as vezes vai alguma coisa que não dá para ser considerado orgânico, a gente tira as sacolas - porque às vezes o pessoal larga com sacola, faz as leiras e vai dando manutenção dela para virar adubo. Aí quando a gente já tem uma certa quantidade, a gente faz a entrega para os produtores, eles entram em contato com nós, produtor x precisa de tanto toneladas, aí a gente vai lá entrega a quantia que ele precisa”, relata Matheus.
Segundo dados fornecidos pela Secretaria do Meio Ambiente de Santiago, houve um aumento significativo no recolhimento de resíduos orgânicos no município, desde o começo do projeto em junho de 2020 a abril de 2024. Esses dados podem ser visualizados no gráfico a seguir. Embora o recolhimento de resíduos tenha crescido nos últimos quatro anos, segundo o secretário, há uma fila de espera por adubos orgânicos por parte dos agricultores familiares, uma vez que a produção municipal ainda não cobre todas as demandas dos agricultores.
Gráfico Recolhimento de Resíduos Orgânicos em Santiago/RS - produzido pela equipe
Quando perguntado da importância dos projetos socioeconômicos desenvolvidos em Santiago, o secretário Gorski considera que é sensacional o que o município desenvolve.
Desde o início do projeto até março deste ano, já foram entregues 106.456 pilas verdes na comunidade, mais de 500 mil mudas, 700 pacotes de sementes e 400 toneladas de adubos orgânicos. O projeto hoje conta com mascote oficial e disponibiliza 16 pontos de coletas espalhados pela cidade, no quais os moradores podem trocar seus resíduos orgânicos (alimentos crus, frutas, cascas de frutas, legumes e vegetais) e resíduos orgânicos secos (cascas de ovos, borra de café, erva-mate e cinza de lareira-sem sal) por Pila Verde e Pila Azul.
Infográfico de funcionamento do Pila Verde - produzido pela equipe
Os negócios locais em Santiago são estimulados pelo Pila Verde - Crédito: arquivo pessoal de Alessandra Dalenogare
As feiras municipais da Agricultura familiar se tornaram mais acessíveis com o Pila Verde
Moradora de Vila Branca, interior do município de Santiago, Alessandra Dalenogare, de 41 anos, é feirante há quase nove anos. Segundo Alessandra, assim que a Secretaria do Meio Ambiente propôs o projeto do Pila Verde aos feirantes locais, em 2020, ela aderiu à iniciativa. “Temos uma boa experiência com o projeto, pois aumentou a freguesia e também conseguimos mudas e adubos por um preço mais baixo”, afirma a agricultora.
Alessandra trabalha com agricultura familiar a vida toda, pois é uma atividade que herdou dos pais, também agricultores familiares. A agricultora conta que depois do projeto, houve um aumento de compradores nas feiras de Santiago, pois a moeda social Pila Verde possibilitou que mais santiaguenses pudessem ter poder aquisitivo de realizar a compra dos produtos alimentícios. “Às vezes as pessoas não tinham condições de comprar e agora com o projeto conseguem. Em Santiago o lixo é dinheiro”, declara Alessandra.
Economia circular e educação sustentável
A economia circular pode ser compreendida como um conceito econômico que se relaciona com o desenvolvimento sustentável, ao unir economia e sustentabilidade, algo que pode ser perceptível no projeto Pila Verde realizado em Santiago. Este modelo de economia circular proveniente, é considerado um sucesso pelo município, visto que rendeu premiações pela iniciativa, como o prêmio máximo do empreendedorismo gaúcho, por meio do Troféu Diamante na certificação das Salas do Empreendedor, feita pelo Sebrae-RS, em 2021.
A partir do Pila Verde e de sua repercussão, outros projetos nasceram, como o seu procedente Pila Azul - que se destina a coleta de resíduos recicláveis que são trocados pela moeda Pila Azul, que pode ser utilizada para pagar a utilização de espaços esportivos do município. E neste ano, o município conquistou o prêmio de “Prefeitura Empreendedora”, premiação idealizada pelo Sebrae, na categoria Sustentabilidade e Meio Ambiente, pelo desenvolvimento do Pila Azul.
Além do mais, a Administração Municipal de Santiago criou o Banco Pila, uma forma de oficializar a moeda digital, pois pretende-se que o uso do cartão do Banco Pila seja a única forma de utilizar as moedas digitais, uma vez que as moedas físicas devem ter seus usos descontinuados.
O Banco do Pila é destinado para o Pila Verde, Pila Azul e o Vale Feira que os funcionários da Prefeitura recebem, e a mudança da moeda física para digital deve ocorrer através do sistema de Pix. Em relação ao funcionamento desse novo sistema, o secretário do Meio Ambiente de Santiago, Matheus Gorski explica que os aprendizes ambientais municipais deverão estar nos pontos de coleta dos resíduos, acompanhados de smartphones e o número da conta da Secretaria do Meio Ambiente, para realizarem a operação de pagamento de compra e venda dos resíduos orgânicos e recicláveis - junto a população, através do Pix.
Os projetos são fomentados e incentivados no município de diversas maneiras, uma forma lúdica que ilustra e informa sobre o Pila Verde e Pila Azul é a canção Economia Circular, que pode ser acessada nas páginas das redes sociais da Secretaria de Meio Ambiente do município de Santiago.
Agricultura Familiar, cooperativismo e o fornecimento de insumos para a merenda escolar
De acordo com o Atlas do Espaço Rural Brasileiro, divulgado em 2020, pelo Instituto Brasileiro de Estatística e Geografia (IBGE), o Estado do Rio Grande do Sul está entre uma das federações que mais concentra estabelecimentos de agricultura familiar no Brasil, principalmente nas áreas que englobam o Sudeste, o Pampa gaúcho e o Nordeste do Estado. No entanto, o mapa de variação de estabelecimentos de agricultura familiar mostra que, entre 2006 e 2017, a Região Sul demonstrou tendência à redução destes estabelecimentos.
Em relação a população do município de São Borja, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, os dados do IBGE de 2010 mostram que a população rural do município diminuiu significativamente nos últimos anos. Em uma década, de 2000 a 2010, a população rural reduziu de 7.596 para 6.533 habitantes - o que significava 10,6% dos munícipes. Outro dado importante é o envelhecimento da população do campo. Já ao que tange aos estabelecimentos rurais, segundo dados do Censo IBGE de 2017, 61,89% das propriedades rurais têm área de até 100 hectares, sendo que o número de estabelecimentos destinados à agricultura familiar era 535.
As pessoas que vivem nas zonas rurais do município de São Borja são, em sua maioria, agricultores familiares. Segundo a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), o número de famílias de agricultores familiares é de 350, os de pescadores de 180 e os assentados de 93 famílias.
A agricultura familiar desempenha um papel importante na produção de alimentos para o mercado interno. Segundo o Instituto Brasileito de Geografia e Estatística (IBGE), 70% dos alimentos consumidos no país são provenientes dos pequenos agricultores. Apesar disso, os pequenos produtores encontram dificuldades na hora de comercializar seus produtos nos mercados. Na busca de valorização da produção e agregação de valor econômico, muitas vezes, os agricultores familiares criam as agroindústrias familiares - que são estabelecimentos que produzem uma ampla variedade de produtos artesanais. Conforme os Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes) do Rio Grande do Sul, em 2021, a Fronteira Oeste do Estado detinha o número de 28 agroindústrias familiares, ocupando mais de 17 mil pessoas.
Uma outra forma que a agricultura familiar encontrou para fomentar suas atividades é o cooperativismo. Esse traço pode ser percebido pelo número de cooperativas que havia no Estado em 2021, que atingia a marca de 134 cooperativas agropecuárias, segundo o Sindicato e Organização das Cooperativas do Rio Grande do Sul (OCERGS). Estas cooperativas podem ser compostas por produtores rurais - familiares e não familiares, os quais se unem com o objetivo de aumentar e fortalecer os ganhos na operacionalização de suas atividades.
Estes últimos dados relativos às agroindústrias familiares e ao cooperativismo foram divulgados no Painel do Agronegócio do Rio Grande do Sul - 2022, do Departamento de Economia e Estatística (DEE/SPGG). Neste relatório são apresentadas diversas informações referentes ao agronegócio - em suas diferentes dimensões.
Na região das Missões do Rio Grande do Sul, há 14 anos existe a Cooperborja (Cooperativa Regional de Assentados e Pequenos Produtores de São Borja), a qual reúne associados dos cinco assentamentos do município e pequenos produtores de outras cidades da região, como Santo Antônio das Missões, Garruchos, Bossoroca, São Miguel das Missões, entre outros. A Cooperborja é ligada à Cooperativa Central dos Assentamentos (COCEARGS) e tem relação direta com os assentamentos da reforma agrária.
O presidente da Cooperativa (atualmente licenciado, devido ao processo político do ano eleitoral de 2024), Emiliano Batista Lopes, explica que o sistema cooperativista é bastante importante, porque gera maior força para aquisição de produtos para o trabalho dos associados. “Seria impossível comprar uma carga de carreta ou de caminhão de adubo para uma pessoa, para um assentado, para um produtor. Mas em grupo tu pode comprar. É essa metodologia que a gente usa. A gente compra pela Cooperativa e vende pros associados”, esclarece Emiliano.
Emiliano Batista - presidente (licenciado) da Cooperborja
Uma forma que o Estado encontrou de colaborar com a venda dos produtos ligados à agricultura familiar são leis de incentivo à compra dessas produções. No Brasil, em 1995, foi criado o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). O objetivo do programa é o fortalecimento da agricultura familiar através de financiamento, assim como o incentivo ao empreendedorismo por meio da agroindustrialização dos alimentos provenientes da agricultura familiar, e também mudanças nas exigências mercadológicas para a adoção de práticas sustentáveis. De forma geral, são diversas as políticas públicas vigentes voltadas aos agricultores, desde assistência técnica rural até programas que indicam aos órgãos públicos a compra de produtos advindos da agricultura familiar.
A Cooperborja, cooperativa vinculada à região das Missões e localizada no Assentamento Cambuxim, no interior de São Borja, é beneficiada pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que é uma das maiores iniciativas de alimentação do mundo, instituída em 2013. A Lei garante um repasse federal anual para as secretarias dos Estados e municípios e escolas federais. Do montante, 30% deve ser utilizado exclusivamente na aquisição de gêneros alimentícios oriundos da agricultura familiar.
Entretanto, apesar do suporte oferecido pela Lei, a execução da legislação nem sempre ocorre de forma natural. De acordo com Emiliano, houve resistência na aplicação da lei em São Borja. "No começo nós tivemos bastante resistência de algumas escolas estaduais, até porque as pessoas que trabalham nas escolas, elas não tinham conhecimento da lei. E precisou que a gente andasse com a lei federal da merenda escolar embaixo do braço", explica o presidente da Cooperborja. Conforme Emiliano, foi necessário apresentar a lei a cada diretor financeiro das escolas com quem conversou e contar com o auxílio de uma pessoa que tivesse conhecimento específico da legislação para cobrar a sua aplicação. Para ele, o maior impedimento em São Borja é a cultura individualista das pessoas ligadas aos órgãos públicos. "No começo realmente nós tivemos bastante resistência, porque nós vivemos numa região com mentalidades individualistas, e tu trabalhar com cooperação, com sistema de cooperativa, é muito difícil”, justifica Emiliano.
Apesar dos empecilhos iniciais, a Cooperborja e o sistema cooperativo tem dado certo. Agora, o plano dos associados é de expansão, para que a cooperativa crie um “mercado do campo”, onde produtos da agroindústria familiar sejam vendidos no município de forma recorrente, sem a intermediação de uma empresa ou setor que aumentaria o preço do produto. A venda seria direta a partir do cooperado para o comprador, parecido com as feiras – que já existem no município – mas funcionaria como um mercado, com vendas contínuas. “Essa é uma ideia e ainda não está em prática. [...] Já existe em algumas capitais e algumas cidades dentro dos assentamentos e das cooperativas do Movimento sem Terra. [...] O mercado do campo é um comércio para poder viabilizar a comercialização, porque nós trabalhamos com feira também, só que a feira é uma vez por semana e é muito difícil sobreviver, as pessoas não sobrevivem trabalhando uma vez por semana, então continuar com as feiras, mas também abrir um mercado do campo que as pessoas poderiam colocar as suas mercadorias nesse comércio” explica Emiliano.
Apesar de haver alguns estigmas associados à agricultura familiar – pelo seu vínculo com o Movimento Sem Terra –, além de ser a maior responsável pelo abastecimento do mercado interno no Brasil, é também símbolo do manejo sustentável dos recursos naturais, conforme mostra dados do Anuário Estatístico da Agricultura Familiar 2023, divulgado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag). Assim, através da compra dos produtos oriundos desses espaços, pelos órgãos federais, como escolas e o exército, o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 12 (ODS) no que tange a compras públicas sustentáveis é, de certa forma, efetivo, além da lógica de colaborar para a alimentação saudável e sustentável de crianças, jovens, e adultos.
Fotos de alguns produtos plantados e colhidos por cooperados, vendidos também através da cooperativa - crédito: cooperados
Brechós e o Impacto Positivo da Moda Sustentável
Além da aquisição de alimentos, uma outra prática comum no cotidiano em que se pode pensar em alternativas mais sustentáveis de consumo é a compra de artigos para o vestuário. Afinal, quando se fala em sustentabilidade, é impossível não pensar na indústria da moda, responsável por 8% das emissões de dióxido de carbono na atmosfera, sendo a segunda indústria mais poluente do mundo, conforme dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Só no Brasil, o lixo gerado pela indústria têxtil e de confecções soma 170 mil toneladas por ano, de acordo com relatório Fios da Moda do Instituto Modifica e da Fundação Getúlio Vargas, de 2021. Assim, se faz importante questionar os modelos de consumo e buscar alternativas mais conscientes e menos poluentes para o meio ambiente.
Nessa busca por uma moda sustentável, os brechós surgem como um caminho viável. Eles sempre existiram, mas ganharam um impulso diferente nas últimas décadas, devido à tendência crescente da moda sustentável, que considera a procura por um estilo de vida menos consumista e mais consciente com os impactos ambientais.
Samara da Silva tem um brechó em Itaqui
Em Itaqui, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, Samara da Silva encontrou nos brechós a oportunidade de se reinventar como empresária e oferecer para a sua comunidade um espaço de moda sustentável. Em 2023, Samara começou a trabalhar no Brechó Charm, com sua amiga Lenise Guasso. No final do mesmo ano, quando Lenise recebeu uma outra proposta de trabalho, Samara teve a chance de assumir o negócio e decidiu comprá-lo. Hoje, ela e outra amiga, Gislaine Motta, trabalham juntas, dividindo horários de atendimento e entregas.
“A Lenise começou esse trabalho na garagem da casa dela. Foi uma espécie de reconstrução, recomeço. É isso que eu acredito que esse lugar é: um lugar para se reconstruir”, diz Samara, emocionada com o negócio que adquiriu da amiga e que agora, além de ser fonte de renda, fomenta a sustentabilidade e o consumo consciente.
A brechózeira nunca se imaginou trabalhando com roupas, especialmente com moda sustentável, mas diz identificar que está no ramo certo, a cada venda que é feita. Conforme Samara, as peças variam de preço, entre R$ 29,90 a R$ 200,00, dependendo do uso do produto antes de repassado para o brechó. Para a empresária, o baixo custo de algumas peças as torna atraentes para um público com baixo poder aquisitivo, mas que tem urgência em adquirir novos artigos. “Semana passada, veio uma mãe aqui, flagelada pela enchente. Elas perderam tudo e a mãe recorreu aos brechós. Você precisava ver a felicidade da filha dela [ao ver a mãe] comprando as roupas”, relata.
Para Samara, além de diminuir o consumo desenfreado e as compras desnecessárias, um brechó oferece acesso a roupas praticamente novas por um preço acessível, tornando a moda sustentável também uma moda inclusiva. “Às vezes, a pessoa está com uma roupa guardada e precisando de dinheiro. Ela traz aqui, a gente vende, ela faz um dinheiro, e a pessoa que compra sai feliz com o que levou, às vezes um look inteiro por cem reais”, explica. A moda sustentável também contribui para a economia local, pois essa compra e venda mais acessível gera receita em um curto espaço de tempo. “Às vezes ela traz em um dia, no outro já vendeu, já recebe, e assim o dinheiro gira”, completa a empresária.
No cenário atual, é crucial repensar as formas de consumo e descarte de moda, incluindo roupas, sapatos e acessórios. Os brechós são uma alternativa interessante, que geram renda e sustentabilidade, pelo seu modelo de reutilização de peças e produtos do vestuário.
Outra possibilidade é a doação consciente de roupas e sapatos. As situações decorrentes do estado de calamidade do Rio Grande do Sul revelaram que uma pequena parte – mas ainda integrante – da sociedade identifica a doação de roupa como descarte. Foram desenvolvidos centros de triagem de roupas em diferentes locais do Estado para separar peças em péssimo estado, sujas, rasgadas e sem utilidade de artigos que realmente poderiam atender às necessidades da população em situação de vulnerabilidade devido às enchentes. Contudo, fora de períodos críticos como o que está vivendo o RS, as doações seguem importantes e são, assim como os brechós, uma alternativa para colaborar com pessoas em situação de vulnerabilidade e reduzir impactos ao meio ambiente, aumentando a vida útil da peça e impedindo que ela cause mais poluição.
Galeria de fotos do brechó Charm - crédito: arquivo pessoal de Samara da Silva
Biometano: o futuro de uma mobilidade mais sustentável
Apesar do dióxido de carbono, emitido pela indústria têxtil, ser o principal gás do efeito estufa, existem diversos outros compostos químicos – decorrentes da queima de combustíveis fósseis, por exemplo – na atmosfera que colaboram para o aquecimento do planeta. Diante desta realidade, é necessário serem aplicadas alternativas que aumentem a produção de combustíveis limpos, para otimizar as operações em diferentes frentes produtivas, a fim de promover a sustentabilidade neste setor.
O biometano é uma dessas opções, pois é um gás renovável que transforma resíduos e lixo em energia, mesmo que ainda funcione como o gás natural – liberando, assim, dióxido de carbono na atmosfera e outros gases poluentes. Entretanto, é necessário considerar que este e outros gases seriam liberados de qualquer maneira se os compostos orgânicos utilizados na produção de biometano fossem deixados para naturalemnte se decomporem.
O biometano é um gás resultante da purificação do biogás produzido a partir da decomposição de resíduos orgânicos oriundos das atividades agrossilvopastoris ou de atividades comerciais (como, alimentos descartados por bares e restaurantes), desconsiderando o gás de aterro sanitário e o proveniente de estações de tratamento de esgoto, uma vez que estes podem conter outros resíduos não orgânicos.
No Brasil, resíduos como bagaço e palha de cana-de-açúcar, palha de arroz e milho, caroço de algodão, lixo e dejetos de animais são convertidos em biogás, que podem ser purificados para produzir biometano. Este pode substituir combustíveis fósseis como gasolina, diesel e gás natural em veículos e máquinas agrícolas.
Atualmente, o Brasil possui 885 plantas de biogás operacionais. Dados da Empresa de Pesquisa Energética mostram que, entre 2021 e 2022, a contribuição do biogás para a oferta interna de energia aumentou de 376 mil para 438 mil toneladas equivalentes de petróleo.
De acordo com a Doutora e pesquisadora em Sustentabilidade, Thaisa Moreti, o biometano se torna uma alternativa sustentável para a geração de energia e o Brasil possui grande potencial de produção:
“O potencial para a produção de biometano no Brasil é muito alto e se fosse totalmente aproveitado, seria possível substituir o diesel nas frotas de veículos pesados, como no transporte rodoviário e de outras frentes de produção agrícola, onde o Brasil tem grande domínio. Então, iria diminuir a necessidade de importação de diesel, economizando até quase 140 bilhões de dólares.”
Thaisa Moreti é engenheira agrônoma especialista em Bioeconomia e Descarbonização, e possui pós-doutorado em engenharia de biossistemas. Segundo a pesquisadora, comparado ao biodiesel, o biometano é um tipo de combustível ainda mais sustentável, pois abrange outras operações:
“O biometano tem um conteúdo energético mais elevado por unidade de volume comparado ao biodiesel, proporcionando maior eficiência. Além disso, pode ser usado em diversas aplicações, desde a geração de eletricidade e aquecimento, até como combustível para veículos, sendo compatível com a infraestrutura de gás natural existente. O biodiesel, por outro lado, é principalmente utilizado em motores a diesel”.
A adoção do biometano na cadeia produtiva possui diversos benefícios, como principal, a produção de energia limpa, onde existe significativa redução de emissões de gases de efeito estufa, tornando a produção mais sustentável e melhorando a qualidade do ar. Além disso, também incentiva um novo modelo de negócio, pois as usinas de biogás que produzem o biometano podem adquirir os resíduos orgânicos de empresas da região.
A produção de biometano se torna uma alternativa sustentável para o transporte rodoviário e de operações agrícolas, pois substitui o uso de diesel, que emite gases prejudiciais ao planeta. Diferentemente dos combustíveis fósseis, o biometano neutraliza a pegada de carbono e reduz a emissão de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera. Além disso, são renováveis, uma vez que são produzidos a partir de recursos que podem ser reaproveitados ou repostos.
Grande reportagem desenvolvida em grupo (descrito na seção expediente), para a disciplina de Linguagem, Comunicação e Indústria Criativa do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Indústria Criativa da Universidade Federal do Pampa (Unipampa)