Sobre borboletas, sustentabilidade e transformação
Dias atrás me deparei com essa borboleta da foto voando no quintal de casa. No dia seguinte a vi novamente, mas com a asinha machucada e fiquei um tempo com ela em cima do meu joelho. Não sabia muito o que fazer, se deixava ela seguir seu ciclo ou se tentava “curá-la”, tentei deixá-la confortável na medida do possível entre as plantinhas. No outro dia ela já havia passado dessa vida. E no outro já não havia nem rastros da existência daquela borboleta. Se transformou em recurso para outros organismos porque “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” como já dizia Lavoisier.
Ainda estou pensando na borboleta, fiquei com vontade de escrever sobre ela. Ou melhor, sobre os assuntos que ela me inspirou. Primeiro eu achei estranho ela estar no meu quintal, porque conheço a “carinha das borboletas” que aparecem em casa e quando a vi pensei “Ué, me parece uma borboleta monarca, mas aqui em casa é a primeira vez que estou vendo uma”. A borboleta-monarca (Danaus plexipuss) em sua fase larval se alimenta das folhas de Asclepias, plantas que tem uma seiva branca (tóxica para os outros animais, mas não afetam em nada a lagarta da monarca) que contribui tornando seu corpo altamente tóxico para afugentar os predadores. Uma borboleta monarca normal vive cerca de quatro semanas apenas, mas há uma geração especial dessas borboletas chamada geração Matusalém. Essa geração chega a viver meses pois realiza uma viagem de mais de 4.000 km. A cada outono, as monarcas deixam seus habitats de verão no norte dos EUA e Canadá em rumo a seus habitats de inverno na Califórnia e no México. Para percorrer esse caminho elas contam com corredores migratórios, mas essas regiões foram sendo dominadas pela criação de milho e soja resistentes a herbicidas. Os herbicidas por sua vez foram erradicando o que os produtores consideram ervas daninhas e outras plantas indesejadas, incluindo as Asclepias, que alimentariam as borboletas monarcas. As mudanças climáticas também estão interferindo e provocando mudanças de habitats que ocasionam maiores distâncias. Pesquisas apontam o surgimento de algumas delas com asas maiores para conseguirem percorrer maiores distâncias, mostrando que a espécie está tentando se adaptar de alguma maneira. Mas o fato é que a população das borboletas monarcas diminuiu mais de 80% nas últimas duas décadas. Se a população de monarcas continuar decaindo chegará a um ponto que a espécie não conseguirá se reerguer.
E falando de adaptabilidade, nós seremos humanos não somos seres super adaptáveis?
Conscientes então de que esse inseto (e outros) vem perdendo habitat o que na nossa microesfera podemos fazer? Nesse momento estou me dirigindo a pessoas que se sentem conectadas ao planeta, pertencentes a biosfera como um todo e com sentimento de dono, responsáveis não só pelos problemas, mas em especial pelas soluções. O que podemos fazer diante de algo que parece tão distante do nosso poder de transformação? Para ajudar as monarcas, quem tem um quintal com terra pode transformar seu espaço plantando Asclepias (procurando uma Asclepia nativa de sua região) que além de servir de alimento para as lagartas da monarca também embelezarão o espaço com suas flores. Mas se você não achar essa planta, vamos pensar em outras borboletas, esses seres super importantes na polinização. Tem várias plantinhas que podem ser cultivadas em vaso também. Dessa maneira você pode transformar seu espaço em um lugar mais bonito, atraindo borboletas e colaborando com a polinização. Afinal, não é apenas a espécie da monarca que está tendo sua população impactada negativamente pelos padrões que estamos “conSUMINDO” o mundo.
Mesmo se você não tiver um jardim, nem vasos ou não se sinta atraído pelo hábito de cultivar plantas, você consegue colaborar sim com um problema que parece tão distante. Procurar de onde vem o que consumimos também é uma maneira interessante de darmos um voto no que acreditamos. Não só as borboletas, mas vários outros insetos, importantes polinizadores (assuntos para próximos textos) estão sendo prejudicados pelo uso indiscriminado de defensivos. Conscientes que como seres humanos precisamos nos alimentar, mas conscientes também de que como seres humanos também somos inteligentes e criativos, podemos pensar melhor sobre como transformar a nossa alimentação em prol de um mundo mais saudável. O planeta ganha e nós ganhamos. Começando a transitar para uma alimentação mais orgânica, e no caso de quem planta começando a adotar práticas agroecológicas (assunto para um próximo texto também) o importante é começar, começar já é mudar. O mesmo pensamento é válido para outros hábitos de consumo, além do da alimentação, ou o algodão da sua roupa você consegue assegurar que veio de uma produção livre de agrotóxicos? Se alguém que estiver lendo isso souber, parabéns você faz parte de um pequeno nicho que queremos que se expande não é mesmo? E se você nunca parou pra pensar nisso ou até pensou, mas não se aprofundou, não quero que com essas reflexões sintam que estou apontando o dedo de forma a julgar. Quero apontar direções para pensarmos juntos. O que mais relacionado a consumo você consegue visualizar a história por trás? E que história você gostaria que suas coisas contassem antes de chegarem a você?
É do instinto humano querer ajudar, voltando a história da borboletinha machucada que me chamou a atenção, no caso dela por algum infortúnio, algum acidente ela machucou a asa. Ela foi um gancho para o assunto das muitas borboletas monarcas (e espero que outros insetos também estejam aparecendo na mente dos caros que pararam seu tempo para ler esse texto que fiz com carinho). Espero que milhões de outras borboletas prejudicadas por ações humanas, seja um assunto que chame a atenção. Elas são parceiras, estão em serviço na polinização junto com outros insetos nos ajudando. Tem tantas espécies no nosso planeta para conhecermos e entendermos como contribuem com o todo. No mundo empresarial queremos conhecer direito os clientes bem como os fornecedores e termos boas relações com ambos. Vendo o mundo sob uma perspectiva corporativa estamos mantendo boas relações com nossos fornecedores?
Metáforas a parte, quando o ser humano perdeu o hábito de se maravilhar com o mundo? Com os seres que habitam o mundo? Podemos ser um curioso do bem e aprender um pouquinho mais sobre o mundo, sobre outra espécie, ou sobre a nossa espécie mesmo mas de cultura diferente, simplesmente pela paixão por aprender e poder transformar-se em alguém melhor a cada dia. Que o belo laranja da asa das borboletas monarcas, aliás cor da energia e da criatividade, possa inspirar transformações de nossa perspectiva de consumidor/produtor para adotarmos práticas cada vez mais sustentáveis.
Caminhar para um mundo mais sustentável é estar em constante transformação de forma responsável, pensando em melhoria contínua e no bem-estar do todo.
Sofia Coelho Moreira
Estrategista em sustentabilidade