Caros ouvintes,
Em meados de 2021, comecei a pesquisa de campo culminaria em minha Dissertação de Mestrado, defendida no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Intitulada "Calçadão de Bangu: projetos, fluxos e cotidianos", me dediquei ao estudo da organização social do espaço nesta via comercial da Zona Oeste carioca. Em meio aos caminhos de pesquisa, feitos pelo sistema ferroviário, e as observações e entrevistas no Calçadão, fui aos poucos fazendo uso do gravador. Inicialmente, aquele embutido em meu celular, posteriormente substituído por um gravador dedicado apenas para fins de pesquisa.
A prática que começou como uma forma de me ajudar nas anotações do diário de campo me levou, aos poucos, para possibilidades antes desconhecidas por mim. Foi, nesse contexto, que comecei a ter contato com a literatura que discutia etnografia sonora, paisagens sonoras e ecologia acústica. Mesmo que de forma ainda embrionária, dediquei parte do esforço da Dissertação para esse estudo sonoro do Calçadão. Essa inquietação continuou me acompanhando no processo de entrada no Doutorado em Sociologia, também sediado no IESP/UERJ.
Em conversas com colegas e minha orientadora, profa. Palloma Menezes, fui desenvolvendo o projeto ao qual me dedico hoje. Impulsionado pela disciplina "Antropologia do/no som", ofertada pelo prof. Wagner Chaves (UFRJ), pude mergulhar com mais afinco nos estudos sonoros e suas possibilidades metodológicas, empíricas e teóricas. Assim, cheguei aos debates sobre acustemologia, narrativas de escuta e mediação tecnológica que venho trabalhando. Isso, claro, também incentivado pelos interlocutores da Favela Santa Marta que me abriram portas muito importantes para que pudesse tocar minha pesquisa.
Assim, em setembro de 2024, resolvei finalmente deslanchar o projeto do Sonário Urbano, inspirado no Sonário do Sertão, assim como em outros projetos que coloco na página Referências. Guardado em anotações de caderno e minha mente por alguns anos, acredito que esse era o momento de tentar colocá-lo no mundo. Mais do que um meio para divulgar produções passadas e futuras de minhas pesquisas, acredito que este possa ser um espaço colaborativo para o debate e incentivo das pesquisas sonoras, principalmente voltada para o desenvolvimento de uma robusta literatura e divulgação em português.
Com um forte abraço,
Marcelo Reis Filho
BARROS, Felipe; BACAL, Tatiana & CHAVES, Wagner. Uma composição em três atos com Steven Feld. Sociologia & Antropologia, V.12, N.03, 2022.
CHAVES, Wagner. Em busca do limiar sonoro: gestos, sons e riscos na afinação das folias. Rev. antropol., v. 64 n. 2: e186654, USP, 2021.
COHEN, S. Sounding out the city: music and the sensuous production of place. Transactions of the Institute of British Geographers, JSTOR, p. 434–446, 1995.
_________. Bubbles, tracks, borders and lines: Mapping music and urban landscape. Journal of the Royal Musical Association, v. 137, n. 1, p. 135-170, 2012.
DECHELETTE, Ismael Stevenson. ENCAPSULAR O SOM: etnografia da partitura social como regras e moralidades a partir do olhar sobre o ouvir no Morro do Palácio/Niterói. Tese de Doutorado, Universidade Federal Fluminense, 2019.
VEIT, Erlman. 2004. “But what of the ethnographic ear? Anthropology, sound, and the senses” In: Hearing cultures: essays on sound, listening, and modernity. Oxford: Berg, 2004, pp. 1-20.
FELD, Steven; BRENNEIS, Donald. Doing anthropology in sound. American ethnologist, v. 31, n. 4, p. 461-474, 2004.
FELD, Steven. Waterfalls of Song. An Acoustemology of Place Resounding in Bosavi, Papua New Guinea. In: S. Feld, S. and K. H. Basso, Eds., Senses of Place, School of American Research, Santa Fé, 1996, pp. 91-135.
____________. Uma Acustemologia da Floresta Tropical. Ilha: Revista de Antropologia, Florianópolis, v. 20, n. 1, p. 229–254, 2018.
_______________. ALTERNATIVAS PÓS–ETNOMUSICOLÓGICAS: A ACUSTEMOLOGIA. Proa: Revista de Antropologia e Arte, 10 (2), p. 193 - 210, Jul - dez, 2020.
GIRÃO, A. F. Para animar os ânimos: interações, sentidos e percepções do centro de uma grande cidade a partir de suas sonoridades comerciais. Belo Horizonte: Dissertação (Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, 2011.
OOSTERBAAN, Martijn. Spiritual Attunement: Pentecostal Radio in the Soundscape of a Favela in Rio de Janeiro. Social Text (2008) 26 (3 (96)): 123–145.
_______________. Sonic Supremacy: Sound, Space and Charisma in a Favela in Rio de Janeiro. Critique of Anthropology, 29(1), 81-104, 2009. https://doi.org/10.1177/0308275X08101028.
SAMUELS, David W.; MEINTJES, Louise; OCHOA, Ana Maria & PORCELLO, Thomas. Soundscapes: Toward a Sounded Anthropology. Annu. Rev. Anthropol., 2010, 39:329–45.
SMALL, Christopher. Musicking: the meanings of performance and listening. Middletown, Ct: Wesleyan University Press., 1998, (Prelude), pp. 1-18.
SCHAFER, Raymond Murray. A afinação do mundo: uma exploração pioneira pela história passada e pelo atual estado do mais negligenciado aspecto do nosso ambiente: a paisagem sonora. Unesp, 2011.
TROTTA, F. Annoying music in everyday life. London: Bloomsbury Publishing USA, 2020.
VEDANA, V. Territórios sonoros e ambiências: etnografia sonora e antropologia urbana. ILUMINURAS, v. 11, n. 25, 2010.
___________. Escutar no som: gravação e edição de etnografias sonoras a partir de um paradigma ecológico. Ilha: Revista de Antropologia, v. 20, n. 1, p. 117–144, 2018.
Foto da parte superior do site: Marcelo Reis Filho, 2021
Desenhos e logo: Marcelle Nascimento (@marcecraam), 2024