A mielofibrose é uma doença rara que afeta a produção de células sanguíneas na medula óssea, causando fibrose (cicatrização) do tecido e anemia (redução dos glóbulos vermelhos). A mielofibrose pode ser primária (MFP) ou secundária (MFs), dependendo se é causada por uma mutação genética específica ou por outra doença hematológica, como a leucemia mieloide crônica (LMC) ou a policitemia vera (PV). A mielofibrose é uma das neoplasias mieloproliferativas (NMPs), um grupo de doenças que envolvem a proliferação anormal de células precursoras da medula óssea.
A mielofibrose foi descrita pela primeira vez em 1879 por Gustav Heuck, um patologista alemão que observou a presença de fibrose na medula óssea de um paciente com esplenomegalia (aumento do baço) e anemia (HEUCK, 1879). Em 1951, William Dameshek propôs que a mielofibrose fosse uma das quatro doenças mieloproliferativas, juntamente com a LMC, a PV e a trombocitemia essencial (TE) (DAMESHEK, 1951). Em 2001, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu a mielofibrose como uma entidade distinta, com critérios diagnósticos baseados na morfologia, na citogenética e na clínica (THIELE J., 2001). Em 2016, a OMS atualizou a classificação das NMPs, incluindo novas entidades como a leucemia neutrofílica crônica (LNC) e a leucemia eosinofílica crônica-não especificada de outra forma (ARBER D. A., 2016).
A mielofibrose é causada por mutações somáticas em genes que regulam a sinalização celular, a proliferação e a diferenciação das células hematopoiéticas. Os genes mais frequentemente mutados na mielofibrose são o JAK2, o CALR e o MPL, que codificam proteínas envolvidas na via do receptor da trombopoietina (TPO), um fator de crescimento essencial para a produção de plaquetas. Essas mutações conferem uma vantagem proliferativa às células portadoras, que escapam do controle normal da TPO e produzem quantidades excessivas de plaquetas e outras células sanguíneas. Além disso, as células mutadas liberam citocinas pró-inflamatórias e pró-fibróticas, que estimulam a produção de colágeno e fibronectina pelos fibroblastos da medula óssea, levando à fibrose e à perda da função hematopoiética (VERSTOVSEK S., 2016).
Os sintomas da mielofibrose variam de acordo com o estágio e a gravidade da doença, mas podem incluir fadiga, fraqueza, perda de peso, febre, sudorese noturna, dor óssea, sangramento, infecções, aumento do baço e do fígado, e complicações trombóticas ou hemorrágicas. O diagnóstico da mielofibrose é baseado na combinação de achados clínicos, laboratoriais, histológicos e moleculares. Os exames de sangue podem mostrar anemia, leucocitose (aumento dos glóbulos brancos), trombocitose (aumento das plaquetas) ou trombocitopenia (redução das plaquetas), e a presença de células imaturas ou anormais. A biópsia da medula óssea pode revelar fibrose, hiperplasia megacariocítica (aumento dos megacariócitos, as células precursoras das plaquetas) e alterações citogenéticas. O teste molecular pode identificar as mutações nos genes JAK2, CALR ou MPL, que estão presentes em cerca de 90% dos casos de mielofibrose (VERSTOVSEK S., 2016).
O tratamento da mielofibrose depende da idade, do risco, dos sintomas e das complicações do paciente. O objetivo é aliviar os sintomas, melhorar a qualidade de vida, prevenir ou tratar as complicações e retardar a progressão da doença. As opções de tratamento incluem a terapia de suporte, a terapia medicamentosa, a esplenectomia (remoção cirúrgica do baço) e o transplante de células-tronco hematopoiéticas (TCTH). A terapia de suporte consiste em transfusões de sangue, suplementos de ferro, antibióticos, anticoagulantes e analgésicos. A terapia medicamentosa pode envolver o uso de agentes citoredutores, como a hidroxiureia, a anagrelida ou o interferon, para controlar a produção excessiva de células sanguíneas, ou de inibidores da JAK2, como o ruxolitinibe, o fedratinibe ou o pacritinibe, para reduzir o tamanho do baço, aliviar os sintomas e melhorar a sobrevida. A esplenectomia pode ser indicada para pacientes com esplenomegalia sintomática ou refratária à terapia medicamentosa. O TCTH é o único tratamento potencialmente curativo para a mielofibrose, mas é reservado para pacientes jovens e de alto risco, devido aos riscos de mortalidade e morbidade associados ao procedimento (VERSTOVSEK S., 2016).
A mielofibrose é uma doença grave e com um prognóstico variável. A sobrevida média dos pacientes com mielofibrose é de cerca de 5 a 7 anos, mas pode variar de alguns meses a mais de 20 anos, dependendo de fatores de risco, como a idade, o estágio da doença, o grau de fibrose, o nível de hemoglobina, o número de leucócitos, a presença de sintomas constitucionais, o tamanho do baço e o status molecular. Os pacientes com mielofibrose podem evoluir para leucemia mieloide aguda (LMA), uma complicação fatal que ocorre em cerca de 10% a 20% dos casos (VERSTOVSEK S., 2016).
Fontes:
ARBER D. A., O. A. I., THIELE J., BOROWITZ M. J., LE BEAU M. M., BLOOMFIELD C. D., . . . VARDIMAN J. W. (2016). The 2016 revision to the World Health Organization classification of myeloid neoplasms and acute leukemia. Blood, 127(20), 2391-2405. doi:10.1182/blood-2016-03-643544
DAMESHEK, W. (1951). Some speculations on the myeloproliferative syndromes. Blood, 6(4), 372-375.
HEUCK, G. (1879). Ein Fall von Osteosklerose mit Milztumor und Nierenveränderungen. Virchows Archiv für pathologische Anatomie und Physiologie und für klinische Medizin, 77(1), 248-263. doi:10.1007/BF01928968
THIELE J., K. H.-P., & FISCHER R. (2001). Primary myelofibrosis. In: Jaffe ES, Harris NL, Stein H, Vardiman JW, editors. World Health Organization Classification of Tumours. Pathology and Genetics of Tumours of Haematopoietic and Lymphoid Tissues. Lyon: IARC Press. p. 17-19.
VERSTOVSEK S. (2016). Therapeutic potential of JAK2 inhibitors. Hematology American Society of Hematology Education Program, 2016(1), 694-701. doi:10.1182/asheducation-2016.1.694
Conhece alguém que tem mielofibrose?
Faça dowload do pdf e obtenha informações úteis e atualizadas neste manual elaborado pela Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (ABRALE). Para acessar o manual, basta clicar no botão "Download" abaixo.