02/04/2018
Adão e Eva pecaram e todos somos réus do seu pecado, todos nós, em nossos pais pecamos e ficamos privados da graça e de gozar a Deus.
No Antigo Testamento vemos como o Senhor Deus dos exércitos visita a Abraão e lhe promete uma descendência mais vasta que as areias da praia e mais numerosa que as estrelas do céu. Depois o início do cumprimento da promessa de Iavé: Isaac. Entretanto Deus pede em sacrifício o próprio Isaac, uma dor imensa para Abraão, mas esse não lhe nega e sai para cumprir a vontade de Deus. Saem a caminho do monte de Moriá pai e filho, para oferecerem o sacrifício a Deus. Isaac leva em suas costas a lenha e Abraão o fogo e a faca. Ao chegar ao topo Abraão com dor amarra seu filho e prepara-se para o sacrifício, tudo está preparado até que o Anjo de Deus o impede de sacrificar o próprio filho e lhe dá um cordeiro para que seja sacrificado.
Ainda no Antigo Testamento, o povo de Israel é aprisionado pelo Faraó, os do povo de Deus sofrem com a opressão e os escárnios dos egípcios. Os israelitas clamam a Deus de todo coração, querem que lhes venha logo a salvação. “Vinde Senhor até quando tardareis?”, “A minh’alma deseja o Deus vivo!”, “Vinde de pressa socorrer-nos!”. O povo clama por libertação, e o Senhor Deus escutou. Moisés conduz o povo de Deus no caminho da libertação, o Senhor poderoso nas batalhas ia a frente deles, para “guiá-los” e acima deles para “protegê-los”, a nuvem do Senhor confundia os cavaleiros do faraó, e o Senhor com cuidado ao seu povo trava a roda dos carros dos egípcios para que se afastem de Israel.
E se deparam com o mar Vermelho, Iavé todo-poderoso serve-se de Moisés para abrir em duas partes o mar, então a pé enxuto, Israel atravessa o Mar. Enquanto que os carros, cavalos e cavaleiros do faraó ficam submergidos. O jugo dos egípcios voltam-se para eles. Ficam afogados em seus objetos de orgulho. Enquanto o povo de Deus segue para a terra de onde jorra leite e mel, a terra que o próprio Deus preparou para eles.
Israel canta jubilosa: “A minha força e meu canto é o Senhor, Ele é meu Salvador, é meu Rei, eu O celebrarei”, “Grande é no meio de nós Iavé”, “Eu Vos exalto ó Senhor, porque Vós me livrastes”, “Nossa alma como um pássaro escapou, do laço que lhe armara o caçador!”.
No livro de Isaías percebemos uma divisão clara e ao mesmo tempo sútil, um paradoxo -um autêntico oxímoro- em três momentos, vamos nos deter a partir do capítulo 50: “Ofereci as costas aos que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba”. Vemos a figura do servo sofredor, um homem que sofre injustamente, contudo sem reclamar ou fazer revolta. Vemos ao mesmo tempo Israel nas mãos do faraó e de outros opressores e a figura do próprio Cristo: o Homem das dores.
Davi no alto de seu palácio sente-se envergonhado: ele com tanto luxo, riquezas e conforto e a Arca da Aliança numa tenda. A representação de Iavé no meio de Israel ficava descuidada. Davi, então cheio de zelo compromete-se a construir “com seus esforços uma habitação digna para o Santo dos Santos”. Mas não é bem assim, só temos o que Deus nos dá e só o temos porque Ele quer, “habitamos no Santuário que Suas próprias mãos prepararam”. Então por inspiração divina o profeta apresenta-se a Davi e expõe o desejo do Senhor dos exércitos: “Tu não me construirá uma moradia, o mundo todo é meu. Suas mãos derramaram muito sangue. Depois de ti, levantarei um filho teu para construir o meu templo!”. O sangue nas mãos de Davi são seus pecados, pecados de todo o povo. O filho de Davi, Salomão, constrói um grande templo para o Senhor, muitos se detém nisso e consideram cumprida aí a promessa do Senhor.
Da árvore do Éden nos veio a condenação e a morte, da árvore do calvário nos vem a Vida. O fruto do bem e do mal da antiga árvore é substituído pela árvore da Cruz do qual brota apenas a Verdade. “Eu sou o caminho a Verdade e a Vida”, “todo aquele que escuta a Verdade ouve a minha voz”. Os pais de todos os homens -Adão e Eva- escrevem um testamento de morte enquanto que em Cristo, o Verbo, escreve-se a Vida. Por isso são Tomás de Aquino escreve brilhantemente: “Ó feliz pecado de Adão, que mereceu tão grande Redentor”. Assim como outrora foi levantado no Antigo Testamento uma serpente de bronze para a cura do povo, no Novo Testamento o Filho do Homem é levantado para a nossa purificação. Eis que de um grande mal, da rebelião do homem contra Deus, surge uma redenção ainda maior que nós não tínhamos merecido, Deus mesmo nos salva. As trevas do mundo são iluminadas pela Luz da Verdade! O mesmo Doutor Angélico escreve: “Eis que a Luz dessa noite, ilumina todos os dias”. Só temos vida porque Cristo nos deu a sua própria vida. A Cruz é árvore da vida, pois da morte humana de Cristo sua vida vem vivificar a cada um de nós.
Como no Antigo Testamento o pai sobe o monte para sacrificar o filho, no Novo Testamento, Deus Pai leva para o sacrifício seu Filho. Isaac levava em suas costas a madeira para o sacrifício, Cristo carrega sua própria Cruz, também nas costas. No monte agora temos o verdadeiro sacrifício, Deus Filho: Sacerdote, Altar e Cordeiro se entrega. Não Lhe tiram a vida, Ele mesmo a dá em favor de todos.
O povo de Deus aprisionado pelo Faraó somos todos nós oprimidos pelo pecado. Como outrora os hebreus eram forçados a trabalhar contra Deus, também nós somos forçados pelo pecado. Eis que a súplica de Israel é também a nossa, “vinde Senhor!”. Desde sempre os pecados de todos os homens conspiram contra Jesus Cristo, então nós também desde de sempre desejamos a vinda do Messias. E eis que o povo passa a pé enxuto pelo mar Vermelho, e assim nós somos libertos do pecado e do risco de morte, a pé enxuto, não gruda em nós a lama do pecado, conseguimos passar. O que era motivo de orgulho para o faraó, agora está afogado, “os carros, cavalos e cavaleiros do faraó jogou no mar”. O príncipe deste mundo é aprisionado em seus próprios pecados.
O povo é conduzido até a terra prometida, de onde se diz que “jorra leite e mel”, nós somos conduzidos também a esta terra, uma terra de eterno e de Paz, enquanto caminhamos neste “vale de lágrimas”. Canaã é a cidade passageira no tempo e no espaço, somos conduzidos à cidade eterna a Jerusalém Celeste, onde o Pai se encarrega de preparar nossas moradas.
O Homem das dores, que é perfeito se fez pecado, “Ele carregou sobre si as nossas dores”, todas as nossas infidelidades caem sobre o Mestre, de maneira que nem é reconhecido como homem. O peso de todos os pecados de todos os homens de todos os tempos é pesado demais só uma força superior a eles que pode carrega-los. Cristo carrega sobre si o jugo de morte do pecado, e o carrega em silêncio, sem reclamar.
O templo que Salomão construiu pode ser humanamente admirável, entretanto o templo prometido por Deus a Davi para ser sua habitação é muito mais admirável. O filho de Davi vem depois, um ramo da árvore de Jessé, eis que Deus levanta José, homem justo, para cuidar do Templo Santo, onde Deus mesmo habita: a Virgem Maria. Eis que o Templo ornado com belas pedras é dado por Deus, Maria cheia de todas as graças, Templo e Sacrário do Deus vivo.
Eis aí o resumo da história da nossa salvação, Deus se inclina e olha o homem. Percebe todo mal que envolve a terra e seus filhos e decide, então a remir o seu povo que pecou contra Ele. Deus se levanta para perdoar a nós que erramos, ou seja, nós só pecamos. A salvação Deus é quem dá, Ele não olha as nossas faltas, tampouco nossos méritos, mas olha sua misericórdia e aplica sobre nós a sua graça. De todos esses bens cumulou-nos o Senhor e se apenas não nos tivesse esquecido, já seria suficiente, contudo Ele quis ir atrás de cada um de nós com seu Amor. O Amor verdadeiro morre pelo amado. Donde nos viria esse Amor, senão dAquele que é a Verdade?
O servo sofredor que carrega os instrumentos para seu próprio sacrifício, que se entrega em holocausto perfeito e santo, que nos liberta de todo mal e nos conduz a terra da alegria eterna é o próprio Deus! Por isso, “exultem o Céu e os anjos triunfantes, narrem a Glória do Senhor!”.