Nesse espaço você encontrará textos pessoais, onde a ordem do tempo não é lógica. Poesias, histórias reais ou ficção.
Um lugar de liberdade criativa para dar voz a mim e aos personagens que existem na minha cabeça.
Luanny Vidal
20/08/2025
Ideias sobre a maternidade que pairam na cabeça da mulher aos 30 anos.
Eu não tenho total controle sobre a maternidade, mas eu também não preciso dela para dar significado à minha vida e ser feliz. Eu rejeito essa ideia. Eu posso recorrer às memórias de quando eu era criança e meu sonho era ter um emprego estável que me permitisse ser artista. Ser multiartista. Pintar, desenhar, dançar. Esse seria meu prazer e realização. Ah, e comer! Comer o que eu quisesse e viajar para onde pudesse. Não estava nos meus sonhos ser mãe.
Ao contrário dessa ideia que ainda existe de que a felicidade de uma mulher só existe de verdade depois de ter filhos, eu posso ser feliz por mim mesma! Eu posso malhar porque faz bem ao meu corpo e alma. Posso pintar para eternizar no mundo minha essência. Posso escrever. Posso estudar com calma o que desejo. Posso descansar o suficiente e um pouco mais. Posso cuidar da minha casa e dos meus animais. Posso entrar e sair de qualquer religião. Posso fazer amigos. Posso cuidar de mim por amor e cuidado comigo mesma. Viu quantas coisas é possível fazer? Eu não preciso necessariamente ter um filho para ser feliz e plena. Tudo isso não significa que eu não gostaria de ter um filho. Eu amaria que isso fosse possível. Mas o mundo em que eu vivo não me faz ver a maternidade como uma possibilidade. Me sinto sozinha demais e pobre demais para ser mãe. Eu gostaria de viver apenas o céu e o inferno de ser mãe. Não quero viver o inferno de ser uma mãe sobrecarregada e pobre tendo que dar conta das coisas, sem poder dar conta de si. Isso me faz sofrer porque eu realmente gostaria, mas a vida é feita de escolhas e ainda tenho a chance de pensar sobre isso.
Ou será que meu desejo de ser mãe é o desejo de tapar o buraco do vazio existencial? De deixar de olhar pra mim e para minha infelicidade para cuidar da necessidade do outro me deixando em segundo plano, mais uma vez. Esse seria um jeito bem egoísta de ter um filho. E por que isso tem que ser uma questão tão grande para mim? Será que para outras mulheres é assim? Essa pressão por decidir nessa altura da vida sobre ter um filho ou não. Os homens passam por tudo isso? Por essa angústia de tomar uma decisão tão importante e impactante na vida? E pelo sofrimento diante da impossibilidade de realizar e a sensação de que não podem ser felizes de verdade se não forem pais? Ou esse sofrimento psíquico está reservado apenas às mulheres?
Não, por agora eu não quero abrir mão das horas de sono, das viagens, das artes... Mas na minha ideia eu amaria se esse filho existisse. Eu seria uma onça, loba ou qualquer outro animal que protege seu filho. Eu seria feliz apesar de tudo. Ele seria a criança mais amada. Isso se eu não tivesse uma depressão pós-parto.
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16/08/2025
Voltando a falar dos temas que me atravessam física e psiquicamente e com as cores de costume nos primeiros trabalhos, está pronta "Cólica". Uma obra que nasce da necessidade de dizer qual é a minha real sensação ao sentir cólicas que me aparecem não só no período menstrual, mas por sorte de ser sensível, também no período fértil. E agora quase todos os dias depois de colocar o DIU. É realmente como se meu útero, retratado bem maior que o original, fosse pego com raiva por uma mão forte. Raiva, aliás, é algo que eu também convivo diante dessa dor.
Por algum motivo meu útero funciona como um segundo coração, se estou com alguma emoção forte ele se contrai me dando cólica. Aliás, meu corpo somatiza muito as coisas. Existe muito para falar sobre essa pintura, sobre útero, sobre cólicas, sobre menstruação e sobre isso, apesar de tão comum, ser tão pouco falado abertamente. Acredito que para além de tabu, existe a impressão de que estamos preservando nossa intimidade ao não falarmos sobre o que acontece com nosso corpo.
Eu estou cansada de sentir dor, de viver com essa dor que nem sempre é forte, mas está ali com sua presença incômoda.
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15/08/2025
Toda obra funciona para mim como uma meditação, um momento onde me aprofundo sobre um tema e onde há também uma conversa entre eu e a obra. Por isso demoro tanto pra pintar, acredito, pois tudo pode ser meio para criação de significado. A mídia que eu utilizo para pintura, seja tinta óleo, tinta acrílica, aquarela, o suporte, seja tela, papel ou madeira, cada um tem suas especificidades e eu preciso prestar atenção nisso, o que me traz também a possibilidade de traspassar/transportar os aprendizados do processo de pintura para meu dia a dia. As artes plásticas fazem com que eu me confronte com aquilo com que mais tenho dificuldade: ser paciente. Vivendo num mundo que corre contra o tempo, a arte me convida a esperar. Sem espera não tem resultado. Preciso esperar a tinta secar, preciso esperar a argila/barro secar um pouco mais para que eu possa fazer mais detalhes, enfim... Eu preciso ter calma, é isso que a arte me diz. É preciso respeitar também o tempo de abstração, já que nem sempre consigo fazer um detalhe ou executar uma técnica para chegar no resultado que desejo na pintura na hora que eu quero. As obras quase sempre finalizam de uma maneira completamente diferente do que eu havia planejado no início, porque entre idealizar e pôr em prática é um longo caminho. Só na prática é possível ver o que realmente funciona, a mistura de cores e o significado visual delas, a saturação da cor, o tamanho da obra. E assim vou percebendo meus padrões, fazendo o caminho da individuação enquanto realizo algum trabalho artístico. Não pense que é um caminho lindo, existe muita frustração por um "erro", pela falta de técnica, pela impossibilidade de um material me entregar aquilo que eu gostaria além de outras limitações que eu e outros artistas, imagino, colocamos em nossas cabeças. Eu sei, é um texto muito autocentrado, até eu me incomodo com isso, mas é o espaço que tenho para falar das "coisas da minha cabeça" para além de uma sala de análise.